......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


23.03.2006
DA BÊNÇÃO AO MANICÔMIO

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Nesse mundo perfeito em que vivemos há poucos espaços para o diferente. A ele a sociedade costuma reservar um lugar especial, sobretudo se oferecer qualquer risco à ordem estabelecida. Pode ser um hospital, uma prisão, um hospício. Mesmo no século XXI, falar na criação de espaços onde o diferente possa ter um contato maior com seus amigos e familiares ainda soa como um ruído indesejável aos ouvidos sãos que governam o Brasil.

E o que dizer do garoto que foi mantido isolado num manicômio durante a ditadura política orientada pela CIA quando seu pai descobriu um cigarro de maconha em sua mochila? O caso foi retratado no filme "Bicho de sete cabeças", estrelado por Rodrigo Santoro e baseado no livro "Canto dos Malditos", de Austregésilo Carrano Bueno.

Agora, outro exemplo de reclusão em hospitais psiquiátricos chega às telas do cinema. Dessa vez, o caso é ainda mais absurdo. Entre 1972 e 1979, Aparecido Galdino Jacintho ficou preso no Manicômio Judiciário Franco da Rocha, em São Paulo. Seu desvio? Estar envolvido com movimentos sociais.

No final dos anos 60, Galdino, conhecido como Aparecidão, era benzedor e organizou um "exército divino" formado por camponeses. O objetivo era tentar impedir a inundação da pequena cidade Rubinéia (SP), articulada pela ditadura, para dar lugar à Barragem Ilha Solteira. O Exército prendeu e torturou Galdino e seus seguidores em outubro de 1970.

O filme, intitulado "O profeta das águas", é resultado de dezenove anos de pesquisas do jovem cineasta Leopoldo Nunes e será exibido, em primeira mão, na Casa de Rui Barbosa (Botafogo, RJ), neste sábado, dia 25/3, às 16h. Explorando um caso clássico nos estudos da psicanálise brasileira, conhecido como "Caso Galdino", o longa-metragem questiona a lógica dos manicômios e a ética dos psicólogos envolvidos no episódio, que durante sete anos emitiram laudos justificando a permanência de Galdino naquela instituição.

Depois da sessão haverá debate com o diretor Leopoldo Nunes e com Cecília Coimbra, fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais. A entrada é gratuita. O filme entra em cartaz no dia 27 de março, durante o "É Tudo Verdade - 11º Festival Internacional de Documentários", no Cine Odeon BR (Cinelândia, Rio de Janeiro).

Hoje, Galdino tem 80 anos e mora em Santa Fé do Sul (SP).


Clique aqui para assinar o nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design