......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



22.08.2007
O DESEMPREGO PEDAGÓGICO

Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com

Em 1994 o historiador inglês Perry Anderson, de formação marxista, esteve no Brasil para participar de um seminário realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. A motivação central daquele encontro de pesquisadores e intelectuais era refletir sobre as possíveis alternativas ao modelo neoliberal que tornou-se hegemônico a partir do final dos anos 70 e início dos anos 80 do século passado. Boa parte do que foi dito naquela ocasião foi transformado em livro, sob o sugestivo título "Pós-neoliberalismo".

Anderson foi convidado para fazer um balanço do surgimento e da consolidação do modelo neoliberal na abertura do evento. Por trás dessa proposta talvez estivesse a necessidade de traçar um amplo panorama do neoliberalismo, a partir do qual os debates poderiam se desenvolver com mais solidez. Embora muitos outros textos já tenham sido publicados sobre esse assunto, até hoje revisito junto com meus alunos, a cada início de semestre letivo na universidade, o "Balanço do neoliberalismo", de Anderson.

Tal predileção justifica-se pelo fato de que, daquelas linhas, é possível extrair tantas e tão simples lições para compreender a realidade atual, que não resisto ao desejo de compartilhá-las. Uma delas diz respeito ao modo como o desemprego pode ser pedagógico segundo a doutrina neoliberal. E foi Margareth Thatcher a pioneira da adoção dessa "pedagogia" na mesma Inglaterra de Anderson a partir de 1979. Vejamos como isto se deu.

Recém-chegada ao poder, a "dama-de-ferro" enfrentou uma greve geral dos mineiros, setor estratégico da economia britânica, e adotou uma postura radicalmente inflexível e intolerante com o movimento operário e sindical, fazendo uso inclusive da repressão. Com esse gesto, Thatcher mostrava ao mundo que chegara a hora de derrubar a social-democracia e o poder expressivo que os sindicatos conquistaram após o final da II Grande Guerra Mundial. A partir dali ficou evidente que a corda sempre arrebenta mesmo do lado mais fraco - a classe trabalhadora -, com o qual bastava não negociar e ainda descer-lhes o cacete se necessário.

Além disso, já que o neoliberalismo entende que o capitalismo precisa fomentar a desigualdade para prosperar, sendo esta desigualdade um valor positivo para os neoliberais, promover uma espécie de desemprego crônico e estrutural seria algo mais que desejável. Afinal, com uma massa de desempregados buscando desesperadamente uma oportunidade de trabalho, quem ousa participar de uma greve? Diante do que o velho Marx denominava como um "exército de reserva de mão-de-obra", todo trabalhador aprende que deve pensar dez vezes antes de participar de uma greve, sob o risco de ser demitido após o movimento e substituído por algum desempregado ao qual se pode impor inclusive salário mais baixo - prática que já se tornou corriqueira em nossos dias. Ou seja, o desemprego cumpre também uma função pedagógica que explica em parte as dificuldades enfrentadas pelos sindicatos nas últimas décadas.

Assim sendo, desmascara-se por completo o falso discurso - muito comum em períodos eleitorais - do combate ao desemprego. Torna-se um farsante todo político, inclusive o presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores, que promete combater o desemprego. Se não se pretende construir uma alternativa ao modelo neoliberal - como talvez estejam tentando fazer Chávez, Morales e outros -, o combate ao desemprego é pura falácia.

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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