......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


22.02.2006
COBERTURA BANDIDA

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Os trechos abaixo estão entre as páginas 342 e 349 do livro Abusado, de Caco Barcellos, e dá uma boa idéia de como a máquina da mídia colombina contribui para tornar cada vez mais perigosa a atividade dos jornalistas nos bairros pobres.

Na ocasião, repórteres dos três maiores jornais do Rio de Janeiro (O Dia, O Globo e Jornal do Brasil) entrevistaram Marcinho VP, chefe do tráfico no morro Dona Marta, em Botafogo. Mas a entrevista só foi concedida após os jornalistas garantirem que seu nome não seria publicado, e nem sua fotografia.

Não consta que o sindicato, na época, tenha se manifestado contra os editores que não honraram o acordo com Marcinho VP [chamado de Juliano VP no livro, à exceção da página 295, onde aparece o nome verdadeiro] e distorceram o sentido de suas palavras, além de terem publicado seu nome e sua fotografia.

Por conta disso, VP foi preso e os repórteres que o entrevistaram passaram a ser ameaçados de morte.

O tema é mais complicado do que parece. Grande parte dos brasileiros acha mesmo que bandido deve ser tratado como animal, o que justifica a eleição do coronel Ubiratan Guimarães para deputado estadual em São Paulo, que ainda fez campanha com o número 111 - mesma quantidade de mortos na chacina do Carandiru, comandada por ele. E será que não é possível fazer acordo com bandido? Todo bandido é igual? Alguns vestem terno?

Na opinião do editor de O Globo, César Seabra: "Não tem acordo com bandido", como poderá ser lido abaixo. A pergunta que faço é: a linha editorial dos jornais acertou em não respeitar a palavra de Marcinho VP?

Abaixo, os trechos do livro Abusado:

- Aproveita a oportunidade, já estamos aqui mesmo... é só falar - disse Barsetti.

Juliano pediu um tempo para pensar, deixou os repórteres com o grupo de homens armados e sumiu por um beco escuro. Às duas da madrugada, mandou chamá-los para uma nova conversa sobre a laje de um barraco. Usava uma pistola automática na cintura, um celular na mão e tinha em sua retaguarda um grupo armado que observava os movimentos em volta.

- Eu gostaria de dá essa entrevista, mas o problema é que eu posso sê preso depois - disse Juliano.

Diante da insistência dos repórteres, ele começou a propor uma forma de viabilizar a entrevista.

- Vocês vão dizê então que entrevistaram um traficante da zona sul. Não pode identificá o morro, nem meu nome - exigiu Juliano.

- Assim não dá, assim a matéria não emplaca no jornal - retrucou Nelito Fernandes.

O acordo final previa um depoimento sem autocensura de Juliano, com a promessa de os repórteres escreverem que a entrevista foi feita na Santa Marta, mas sem identificar o nome dele nem dizer que ele era o dono da boca. Todos apertaram as mãos para selar o compromisso.

- Palavra de honra? - perguntou Juliano.

- Palavra de honra! - responderam os três repórteres.

Juliano começou a entrevista surpreendendo os repórteres por criticar as drogas e dizer que não tem grandes vícios. As respostas passaram por edição que modificaram bastante o jeito dele falar. Foram publicadas nos três jornais sem gírias e erros de português.

"Não cheiro, não bebo. Eu só fumo o mato certo."

Fez um discurso para justificar sua posição.

"Sou contra a liberação das drogas. Nosso povo não está preparado. A droga não é boa, ilude e tira a personalidade das pessoas, criando ilusão. A droga anestesia a revolução social. Quem consome não consegue ver as coisas erradas do sistema porque está escravizado."

Tentou explicar a incoerência de ser contra as drogas e ao mesmo tempo traficá-las, com um discurso confuso:

"Noventa por cento das pessoas da favela ganham o salário mínimo. Ninguém consegue viver com isso. A cesta básica custa 114 reais. O tráfico funciona como inibidor dessas necessidades. Se eu não vendesse, outra pessoa ocuparia meu lugar e isto poderia ser prejudicial à comunidade. Tem um rap do grupo Racionais MC de São Paulo, que diz: 'Se afaste das drogas e das coisas fáceis. Leia livros.' É isso que eu tento passar a eles."

Declarou que era contra a venda de crack.

"O crack faz muito mal. Se eu quisesse poderia ganhar muito dinheiro com isso. Mas não quero prejudicar ainda mais as pessoas. Além disso, ia ser difícil controlar os meus homens doidões de crack."

Revelou qual era o faturamento da boca no verão de 1996, mas não quis dar o nome do atacadista que abastecia de drogas a Santa Marta.

"Só controlo uma boca de fumo, que rende 20 mil por mês. Nenhum traficante tem tanto dinheiro como dizem. Se você perde um AR-15, o prejuízo é de 5 mil. Vendemos 10 quilos de maconha e três de cocaína por mês. O papelote de cocaína sai por 5 reais e a trouxinha de maconha por 3 reais. Não me envolvo com crack ou ecstasy, nem tomo conhecimento do fornecedor porque a entrega é terceirizada. A verdade é que hoje há muito mais bocas-de-fumo no asfalto do que no morro. Os bairros de Ipanema e Gávea estão infestados."

Falou da imagem que faz de si mesmo com o dono de morro:

"Eu sou um cara de harmonia. Sou um profissional no meu trabalho. Eu me sinto preocupado e não poderoso. Quero paz no meu morro e não quero que ninguém venha tomá-lo. Não sou um Robin Hood, sei que faço o errado. Acho que os pobres das favelas representam hoje um novo Quilombo dos Palmares, a encarnação de Zumbi, e somos perseguidos injustamente. Quero passar a todos os jovens - do movimento ou não - a idéia de justiça social, como sou nascido e criado no morro e ajudo os mais necessitados, acabo reconhecido pelo meu trabalho. Eu gosto de guerrear, mas quando é necessário. Se for preciso não posso pensar duas vezes."

Criticou a ação de alguns criminosos: os seqüestradores, os corruptos e os policiais que praticam violências nos morros.

Eu, particularmente, odeio seqüestro, até porque fui seqüestrado três vezes pela política para me mineirar, extorquir. O meu grupo não pratica esse crime. Mas de uma certa forma o seqüestro funcionada como um meio de distribuição de renda, não há como fugir disso. Já o policial brasileiro não está preparado para lidar com o povo humilde. Um policial que usa farda e distintivo e ganha R$ 300 por mês acaba se corrompendo. Quando alguém do morro é preso, é humilhado como um cachorro. Os policiais sempre botam droga no bolso dos suspeitos para enquadrá-los. É assim que a PM faz. Se eles não nos atacam, nós não atacamos. Se um de meus homens der um tiro de fuzil num beco qualquer da favela, varre três caras de uma vez, como eles fazem. O tráfico mata entre si. Mas a polícia mata antes para querar a nossa hierarquia. A guerra do pó, no Rio, mata mais gente que a guerra da Bósnia."

Disse que não tem medo de morrer por causa da fé em Deus.

"Já levei oito tiros de fuzil. Não posso ter medo de morrer. Sou católico, acredito em Deus. Li a Bíblia, mas não gostei. A Bíblia mistifica um pensamento que segurou o povo por séculos."

Apontou o que considera falhas na organização rival, o Terceiro Comando, e de alguns dos maiores traficantes do Rio de Janeiro, como o Uê e Escadinha.

"Eles têm poder porque o povo dessas comunidades ainda gosta deles. Mas não fazem a coisa certa. Eles criaram o assistencialismo no crime a agora não fazem mais isso. Ninguém da turma deles toma conta da mulher de preso ou das viúvas dos companheiros que foram mortos. Este pessoal antigo está em conflito porque não respeita os jovens. A nossa turma que comanda os morros agora tem uma maneira de pensar, e eles outra. Eles comandam muito mal. Não dão valor ao soldado, ao guerreiro. Estão sempre em luta pelo poder e só."

Defendeu o Comando Vermelho, organização da qual fazia parte em 1996.

"Nossa diferença é que sabemos distinguir o certo do errado. O certo é o certo, nunca o errado ou o duvidoso. Somos normais como qualquer outra pessoa. Eu sempre admirei o Orlando Jogador, que foi um bandido correto dentro do CV. Ele nunca traiu sua gente. Era exemplar. Estivemos presos juntos. Acho que o crime organizado precisa cultivar mais o respeito e menos o poder. O Comando Vermelho é uma filosofia dentro da vida errada. Ele deveria se unir ainda mais, para melhorar a vida nos morros e nas penitenciárias. Temos que parar com essa história de irmão matar irmão. A idéia é fazer reinar nos morros paz, justiça e liberdade."

Elogiou o ex-governador Leonel Brizola, acusado pelos seus críticos de ser benevolente com os criminosos de baixa renda:

"O Brizola foi um ótimo líder para as comunidades carentes. Ele visou às favelas e não ao tráfico. O Brizola é um estadista perfeito, que jamais teve envolvimento com traficante."

(...)

O primeiro a romper o acordo foi Nelito Fernandes [O Globo]. Ainda na favela, domingo cedo, ele telefonou para a redação e conversou com o editor César Seabra sobre a entrevista e o trato que haviam feito com Juliano.

- César, nós entrevistamos um traficante, mas fizemos um acordo de não dar o nome dele, porque ele não quer aparecer.

- Não tem acordo com bandido, Nelito. Ou a gente dá o nome ou eu não publico a entrevista.

Horas depois, na redação do Jornal do Brasil, Marcelo Moreira enfrentava a mesma dificuldade.

- Olha, tem essa matéria, tem esse acordo, mas eu acho que O Globo vai dar o nome...

Na redação de O Dia, Silvio Barsetti insistiu com os editores, mas prevaleceu a decisão editorial do jornal.

- Tem que publicar o nome, entrevista sem a identificação fica inviável - ouviu Barsetti de um de seus chefes.

(...)

A pior notícia da vida de Juliano chegou à favela antes do amanhecer de segunda-feira pelas mãos dos corujas, os trabalhadores que passam a noite no emprego. De volta para casa, alguns passaram pela boca para dar a ele os jornais que traziam as terríveis novidades da cidade.

Juliano ficou arrasado. Constatou que os três jornais não tinham respeitado o acordo feito pelos repórteres. Além do seu nome, haviam publicado sua fotografia e versões diferentes sobre a mesma entrevista da madrugada de sábado.

O jornal O Dia transformou em título da entrevista uma frase que Juliano não disse: "O TRÁFICO ESTÁ PRONTO PARA A GUERRA".

A manchete de O Globo foi "TRAFICANTE COMANDA A SEGURANÇA E DESAFIA A POLÍCIA". Omitiu que o acordo havia sido rompido e destacou a ameaça de Juliano aos repórteres: "Se colocaram meu nome nas reportagens, compro o endereço de vocês e mando buscar."

O Jornal do Brasil escreveu abaixo do título "O DONO DO DONA MARTA" que o "líder do tráfico na favela saúda Michael Jackson, protesta contra a desigualdade social e revela ser um assassino frio e vaidoso", palavras que Juliano não disse.


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