
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
20.12.2005
SOBRE A TELEVISÃO
Por Sheyla Murteira
 |
Comunicação
12 x 18 cm
143 páginas
R$ 22 |
O livro, publicado por Jorge Zahar Editor, consiste na compilação de três trabalhos de Pierre Bourdieu: transcrição de dois programas gravados em 1996 em cursos do Collège de France, no caso de "Sobre a Televisão"; reprodução de um texto já publicado, embora de forma mais estrita, no que se refere à "Influência do Jornalismo"; e um resumo de uma comunicação apresentada em 1992 em Berlim no Encontro Anual da Sociedade Filosófica para o Estudo do Esporte, no caso de "Os Jogos Olímpicos". Contém, ainda, um posfácio, com o título de "O Jornalismo e a Política", que consiste num comentário do autor sobre as violentas reações e críticas controversas feitas ao seu texto "Sobre a Televisão" por grandes jornalistas e editorialistas dos diários, semanários e televisões francesas durante vários meses, época em que o livro encabeçou a lista dos mais vendidos.
A autor inicia o curso justificando a escolha da televisão como meio para ministrá-lo, numa tentativa de atingir um público além dos habituais freqüentadores de cursos do Collège de France. Considera que a televisão expõe a grande perigo não só as diferentes esferas da produção cultural, mas também a vida política e a democracia, apesar do que dizem os jornalistas conscientes de suas responsabilidades. Portanto, para criticar o objeto de sua análise - a televisão - ao contrário do que comumente se pratica nesta, coloca o discurso (o essencial) em primeiro plano, evitando o enquadramento formal e abrindo mão das ilustrações, intencionalmente. Desse modo, objetiva afirmar a autonomia do discurso analítico e crítico, o discurso articulado, pouco a pouco excluído dos estúdios de televisão.
1 - O estúdio e seus bastidores
Nesse item, o autor coloca algumas questões sobre a televisão, o que classifica como uma intenção paradoxal, já que considera não se poder dizer "grande coisa" na televisão, especialmente sobre ela própria. Pondera, ainda, ser importante ir falar na televisão, mas sob certas condições que deverão ser negociadas previamente com os jornalistas, como um contrato. Essas condições se referem ao tempo, ao assunto e à técnica. E, já que a televisão possibilita atingir, teoricamente, todas as pessoas, questões prévias deverão ser feitas, como: meu discurso é para todos? Pode e merece ser entendido por todos? Deve ser entendido por todos?
Em seguida, ele afirma que o acesso de convidados à televisão tem em contrapartida uma censura invisível, ligada ao fato de que o assunto e as condições de sua comunicação são impostos e de que a limitação do tempo impõe certas restrições ao discurso que o torna improvável de dizer algo. Aponta, também, as censuras econômicas, que denomina pressão econômica, determinadas pelos proprietários e anunciantes e que tornam a televisão um instrumento de manutenção da ordem simbólica.
Nessa altura do livro, o autor explica um mal-entendido comum que acontece na análise sociológica: quem está sendo analisado, no caso os jornalistas, entendem esse trabalho como uma denúncia, ataques pessoais, embora eles sejam tão manipulados como manipuladores, e manipulam tanto melhor quanto mais manipulados são. Mostra como a televisão exerce uma forma de violência simbólica, gastando tempo valioso para dizer coisas fúteis que são importantes na medida em que ocultam coisas preciosas, como informações para que o cidadão possa exercer seus direitos democráticos. Desse modo, a televisão pode ocultar mostrando (uma coisa diferente do que deveria mostrar, se fizesse o que deveria fazer, isto é, informar), ou mostrar ocultando (tornando algo insignificante pela maneira como mostra ou dando-lhe um outro sentido que não corresponde à realidade).
Nesse ponto, o autor explica a "metáfora do óculos", segundo a qual os jornalistas vêem através de óculos especiais que enxergam determinadas coisas de determinadas maneiras, operando um seleção e uma construção da realidade selecionada, com base no princípio da busca do sensacional, do espetacular.
Continuando, vai ser destacada a circulação circular da informação, que consiste no fato de os jornalistas terem propriedades comuns de origem e de formação, de lerem-se uns aos outros e de encontrarem-se uns com os outros, o que causa efeitos de repetição como um jogo de espelhos, que se refletem mutuamente produzindo uma barreira de fechamento mental.
2 - A estrutura invisível e seus efeitos
Nesta parte do livro, o autor fala do campo jornalístico que é, como todo campo, um espaço social estruturado, onde há dominantes e dominados em relações constantes e permanentes de desigualdade, mas que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças. Assim, fala na concorrência entre os jornalistas e as emissoras, fala um pouco da história do jornalismo televisivo e dos jornais de reflexão. Apresenta os preceitos éticos, como a tradução da estrutura do campo através de uma pessoa que ocupa certa posição nesse espaço. Explica como certos jornalistas, que recebem altos salários por curvar-se sem escrúpulos às expectativas do público menos exigente, e que são, portanto, os mais cínicos, tendem a impor seus "valores" e seu "ideal humano".
Bourdieu coloca ainda a questão diante da qual se encontram os jornalistas da imprensa escrita, que devem optar entre o modelo dominante e uma estratégia de diferenciação. Discorre, ainda, sobre o poder que tem a mídia em todos os campos.
No final, o autor lembra que os fundadores da República, no século XIX, diziam que a finalidade da instituição não é somente saber ler, escrever e contar, mas dispor dos meios indispensáveis para ser um bom cidadão, compreender as leis e seus direitos, defendê-los e interagir no mundo. Logo, é preciso que se trabalhe para universalizar as condições de acesso ao universal.
A Influência do Jornalismo
Nesse texto, o autor discorre sobre a interferência que os mecanismos do campo jornalístico sujeito às exigências do mercado (leitores e anunciantes) exerce sobre os jornalistas e sobre os diversos campos de produção cultural, jurídico, literário, artístico, científico, examinando como a restrição exercida afeta e modifica as relações de foca desses diferentes campos, sem cair em nenhum dos dois erros opostos: a ilusão do nunca visto ou do sempre assim.
Os Jogos Olímpicos
O autor vai analisar os Jogos Olímpicos à luz da sociologia, desvelando seu referencial oculto, que é o conjunto de representação desse espetáculo e o processo de transmutação simbólica da construção social do espetáculo olímpico.
Posfácio: o jornalismo e a política
Aqui, Bourdieu se propõe a, novamente, mostrar como o campo jornalístico produz e impõe uma visão particular do campo político, numa tentativa de levar os jornalistas - que se sentiram ofendidos com a análise feita em "Sobre a Televisão" - a entenderem essa questão científica como tal e não como ataques pessoais.