
20.11.2007
POR QUE NÃO FALAR DO
SALÁRIO?
Por Denilson Botelho (*) -
denilson@fazendomedia.com
Era setembro de
2001 e fui convocado
para tomar posse no cargo de Professor de História da rede
pública municipal do Rio de Janeiro. Depois de oito anos de
formado, mestrado concluído, doutorado em vias de
conclusão e passagens meteóricas pela rede
pública
do município de Teresópolis – RJ e do
Estado do Rio
de Janeiro, lá estava eu prestes a me tornar professor de
uma
escola municipal como aquela em que estudei nas primeiras
séries
do ensino fundamental. Era a concretização de um
sonho de
realização profissional. Sonho ou pesadelo?
Algumas semanas
em sala de aula
naquela escola do subúrbio do Rio me fizeram cogitar
seriamente
de um pedido de exoneração. Aliás,
ainda cogito
freqüentemente. Se não o fiz até hoje
foi por desejo
(de ensinar) e necessidade (de trabalhar para sobreviver). Ao perceber
que ali – e em cada uma dessas escolas municipais –
está montada uma engrenagem cujo objetivo é
produzir o
fracasso escolar em larga escala, passei a conviver com essa
angústia. Afinal, não somos professores em sala
de aula,
mas sim operadores (ou técnicos do saber, como diria Sartre)
de
uma cruel engrenagem que produz analfabetos funcionais em massa. Tudo
é feito de modo a incutir nos professores um profundo
sentimento
de impotência diante desse sistema, cuja última e
mais
eloqüente inovação foi a
aprovação
automática.
Ao tomar
conhecimento de que a
revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita
– os
Civita, sempre tão preocupados com a
educação do
nosso país, não é mesmo? –
encomendou uma
pesquisa ao Ibope sobre como os professores
vêem a
educação pública no país,
sinto-me na
obrigação de abordar o assunto.
Não
pretendo aqui jogar o
bebê e a água do banho fora. A pesquisa traz dados
muito
interessantes. Por exemplo: apenas 21% dos professores estão
satisfeitos com a profissão; mas 63% trabalham no que
gostam;
53% têm no amor à profissão sua
principal
motivação; e 63% relatam viver em
nível
significativo de estresse. Esses são apenas alguns dados
colhidos junto a 500 professores entre 25 e 55 anos de idade
entrevistados em todo o país, sendo 50% no sudeste.
Suponho que
não se tratam
de informações surpreendentes. O que irrita e
causa
indignação é o discurso recorrente que
a grande
mídia produz a respeito desse quadro desanimador.
Não
vejo veículo algum enfrentar o tema sem tergiversar.
São
capazes de tangenciar o núcleo central do problema, como faz
o Globo On-line, ao observar que
“professor tem apenas 3 minutos
por dia para cada aluno na classe”. A repórter
explica que
as turmas superlotadas e a dupla (não seria tripla?) jornada
de
trabalho compõem essa curiosa equação.
Mas
já estou cansado de ler
nas páginas dos grandes jornais e revistas do
país as
mesmas tentativas esfarrapadas de explicar e solucionar o problema.
Bons exemplos disto são os textos que Antônio
Ermírio de Moraes e Gilberto Dimenstein publicam
regularmente na
edição dominical da Folha de S. Paulo. Sempre
acusam o
professor e afirmam que aumentar os salários dos docentes
não vai resolver nada. Ora, até quando vamos
aturar
tamanho cinismo?
Dimenstein
chegou ao ponto de
afirmar, há algumas semanas, que existe uma
espécie de
indústria da licença médica na rede
pública
estadual de São Paulo. Será que ele já
pôs
os pés numa escola dessas? Por acaso conversou com seus
professores? Compreende que quem vive submetido a estresse constante
costuma ter uma crônica baixa imunidade que é
porta de
entrada para variadas moléstias?
É
evidente que depois de
décadas de aviltamento temos já uma boa
quantidade de
professores mal formados e sem nenhum entusiasmo pela
educação, assim como apenas aumentar
salário de
nada resolve. Mas não há como começar
a desmontar
essa gigantesca engrenagem que fabrica analfabetos funcionais (que em
pesadelos me lembram cenas do filme The Wall) sem
alterar as condições de trabalho dos professores.
Não
acredito que seja
possível reverter o quadro caótico em que se
encontra a
educação no Brasil enquanto não
tivermos o
professor remunerado de forma digna e satisfatória, de modo
que
precise trabalhar em uma só escola. É isso:
salário bastante para que se torne possível
dedicação exclusiva a um só emprego,
uma só
escola ou instituição de ensino. Assim seria
possível esperar que os professores tivessem tempo
não
só para estudar e planejar suas aulas, como
também para o
lazer e a família, ao invés de cumprirem longas
jornadas
de trabalho que por vezes se iniciam às 7 horas da
manhã
e terminam às 23 horas.
Com
salários suficientes
para manter suas famílias e dedicando-se exclusivamente ao
ensino em uma só escola, aí sim seria
razoável
cobrar progressivamente maior qualidade no trabalho desenvolvido em
sala de aula. Antes de se criar essas condições
mínimas e básicas, não há
como esperar
mudança expressiva no ensino público no
país.
E vale lembrar
que o resgate do
padrão salarial dos mestres precisa começar pelos
que
alfabetizam e atuam nas séries iniciais do ensino
fundamental.
Ali são plantadas as bases para o restante do ensino
fundamental, médio e superior. Portanto é
prioritário resgatar a dignidade desses profissionais em
especial, até porque são justamente os que hoje
recebem
os piores e mais baixos salários.
Passei vinte anos na expectativa de que no dia
em que
um partido político de esquerda como foi o PT chegasse ao
poder,
teríamos pelo menos o início desse processo de
valorização e resgate do magistério.
Entretanto o
que se vê é o governo federal empenhado em medir o
tamanho
da tragédia – vide o Prova Brasil e similares -
que
é o ensino no país, permanecendo contudo
tão
inoperante quanto seus antecessores. Daqui a vinte anos pode ser tarde
demais...
(*)
Denilson Botelho é historiador, professor e autor
de A pátria que quisera ter era um mito.