Na última sexta-feira (14/12), pela manhã, vi muitos estudantes
da Universidade Federal Fluminense (UFF) com os olhos vermelhos
e em lágrimas. Era o efeito do spray de pimenta lançado
por policiais militares que, aos empurrões e com ameaças
de prisão, impediram seu acesso ao prédio do Tribunal de
Justiça de Niterói, aonde se realizaria uma reunião relâmpago
do Conselho Universitário da UFF, que aprovou por unanimidade
dos presentes o envio ao MEC de um projeto para “a adesão
da UFF ao REUNI”, conforme logo noticiaram os sítios da
imprensa diária.
O REUNI, para quem não acompanhou toda a história, é um
programa de expansão, instituído por decreto pelo governo
Lula da Silva, que prevê (mas não garante) um pequeno aporte
de novos recursos para as Universidades Federais, em troca
da expansão de vagas para estudantes para até o dobro das
atuais e a conversão dos cursos superiores a um modelo de
formação mais rápida, em dois ou três anos e sem habilitação
profissional precisa. Ou seja, trata-se de uma proposta
de trocar promessas de novos recursos por uma completa mutação
dessas instituições em fábricas de diplomas.
A UFF foi uma das últimas Universidades Federais a aprovar
o envio de projeto. Por um só motivo: a comunidade universitária
discutiu a proposta e, a partir das decisões de seus fóruns
internos, posicionou-se, por ampla maioria, contrariamente
ao REUNI. Mas, o reitor Roberto Salles e seus apoiadores
não poderiam se contentar em reconhecer a vontade da Universidade.
Para imporem a sua vontade (e os seus interesses), recorreram
a uma série de manobras, ao uso aberto da repressão e a
um cinismo sem precedentes na instituição.
Primeiro, suspendendo a sessão do conselho universitário
em que a primeira versão da proposta seria votada e certamente
rejeitada. Seguiu-se uma breve ocupação dos estudantes na
reitoria da Universidade, exigindo a realização do conselho
para que o projeto fosse rejeitado. Mandatos judiciais,
emprego da polícia federal e ameaças de toda ordem já foram
ali mobilizadas pelos que hoje administram a UFF.
Dias depois, uma nova reunião do conselho votou que a UFF
não aderiria ao REUNI e elaboraria um projeto próprio de
expansão, autônomo, a partir do trabalho de uma comissão
de representantes do conselho universitário. Desrespeitando
o Regimento do conselho, o reitor não aceitou as indicações
do DCE (a entidade representativa dos estudantes) para a
comissão, o que já deixava claro o conteúdo de sua manobra.
Não foi preciso esperar muito, pois logo o tal “projeto
autônomo” foi divulgado e, surpresa!, era o mesmo projeto
anterior, mal travestido pela ausência da palavra REUNI
(só da palavra, não da coisa, toda ela lá). Num novo movimento,
o reitor tentou aprová-lo em uma reunião ordinária do conselho
em que a proposta não estava em pauta e, portanto, ninguém
a havia lido. Depois de muita confusão, recuou e convocou
nova reunião do conselho, dessa feita extraordinária, com
apenas o projeto, até ali dito “autônomo”, para aprovar.
No dia 12, a reunião extraordinária foi aberta com falas
das entidades representativas dos professores e servidores
técnico-administrativos, contrárias ao projeto e com uma
apresentação do mesmo feita por um membro da comissão, em
cinco minutos, que não tocou em uma linha do conteúdo da
proposta. Em seguida, desrespeitando os procedimentos estabelecidos
no regimento do conselho, o reitor tentou colocar a proposta
em votação de imediato, sem qualquer debate. O resultado
foi uma confusão, armada a partir do momento em que os estudantes
presentes à sessão começaram a protestar com palavras de
ordem e músicas. Trocas de empurrões e cenas lamentáveis,
como a do próprio reitor empurrando estudantes.
Enquanto saía da sala de reuniões, revelando o grau de
cinismo de sua performance e desvelando, ao mesmo tempo,
que o projeto que não ousava dizer seu nome nada tinha de
“autônomo”, o reitor Roberto Salles protagonizou uma cena
realmente bizarra. Primeiro pronunciou, em meio à gritaria,
a frase: “os conselheiros que concordam levantem as mãos”
e, em seguida, braços para o alto, na porta da sala, de
onde correria em seguida para se trancar no seu gabinete,
com a Polícia Federal lhe servindo de escolta pessoal, gritou:
“Está aprovado o REUNI na UFF”. O rei(tor) estava mesmo
nu. À tarde do mesmo dia declararia que considerava o projeto
aprovado e que abriria inquéritos para punir os estudantes
que se manifestaram no Conselho.
As mesmas vozes de cima (do MEC), dos que manipulam os
cordões desse patético reitor marionete devem ter lhe soprado
ao ouvido que desta forma corria-se riscos. Afinal, o REUNI
não é um projeto local e a UFF não é uma exceção. No Brasil
todo, o projeto tem sido aprovado com manobras como esta
em cada Universidade. Discussões com a comunidade e a sociedade,
não as há, e quando excepcionalmente acontecem, por pressão
dos movimentos organizados, a comunidade universitária se
posiciona contra. Mas, seguem-se encenações como a que Roberto
Salles tentou fazer na UFF e os projetos são enviados a
Brasília. Por isso, no Pará e no Maranhão, por exemplo,
decisões de primeira instância da justiça federal suspenderam
a adesão dessas Universidades ao REUNI.
Seguindo os movimentos indicados por seus operadores, o
reitor títere da UFF partiu para o inusitado, convocando
o conselho universitário para uma nova reunião, desta feita
no Palácio da Justiça de Niterói. Lá, foram barrados com
violência policial na porta, não apenas manifestantes, mas
também alguns conselheiros. Com uma sessão secreta, o tal
reitor, que tem dificuldades até para encenar o script que
lhe escrevem, deve ter tido um pouco mais de facilidade
para, tão logo chegaram os conselheiros (os que o apoiaram)
que garantiram o quorum da sessão, colocar o projeto em
votação (terá ele desta vez se lembrado de dizer que era
um projeto “autônomo”?) e, em menos de cinco minutos, considerá-lo
aprovado, para em seguida se esgueirar por uma portinha
lateral do prédio e fugir (deve ser a sua décima fuga),
dos estudantes, professores e técnicos que deveria representar.
Impressiona a lógica da razão cínica que foi esgrimida
na UFF. Apresenta-se como benefício o que a maioria já avaliara
como regresso; apresenta-se como “novo” e “autônomo”, o
que a comunidade universitária, que sabe ler, enxerga ser
o mesmo; votos mudam ao sabor do vento, de tal forma que
o que era ilegal numa tarde vira legal na manhã seguinte,
no voto de um mesmo conselheiro; contrariam sem dissimulações
os procedimentos institucionais para “aprovar” a proposta
e solenemente proclamar a “vitória”. E, cinicamente, comemoram,
como tristemente demonstrou um estudante na porta do prédio
que, por compromisso partidário com o governo, defendeu
a proposta e pôs-se a provocar os manifestantes com argumentos
sobre a “conquista” de novas verbas para a UFF. Roberto
Salles, rei(tor), já havia encenado a apoteose, no episódio
já narrado em que ergueu os braços e proclamou, não sem
antes ter dado uns safanões em estudantes, com o mesmo sorriso
cínico na boca: “Está aprovado o REUNI na UFF”.
Não devemos nos contentar em constatar essa razão cínica
– este gozo perverso, esta legitimação do vale-tudo – apenas
observando os seus sintomas no interior de uma Universidade
que se quer modelo, mas se faz espelho da deformada sociedade
em que vivemos. É preciso encontrar as causas deste cinismo
patológico deformado e deformador. E essas causas estão
no interior da própria universidade pública (vinculadas
ao projeto que sucessivos governos lhes impõe de subordinação
ao mercado), corroendo-lhe o caráter público há muitos anos.
Não à toa, o mesmo reitor da Universidade Federal do Paraná,
que aprovou o REUNI a portas lacradas, foi agora multado
pela justiça por descumprir deliberações do Tribunal de
Contas da União, que constatou a transferência indevida
de recursos públicos a uma fundação privada, dita de “apoio”
(pode haver mais cinismo do que nessa expressão?) à Universidade.
Ou mais patético, a mesma procuradora da Universidade Federal
da Bahia, que comandou a mobilização da Polícia Federal
para a desocupação da reitoria da universidade – ocupação
feita, como em tantas outras universidades pelo país contra
a aprovação do REUNI em reunião a portas fechadas do conselho
de lá – dias depois entrou algemada numa viatura da mesma
Polícia Federal, acusada de formação de quadrilha e desvio
de dinheiro público. No segundo episódio o sorriso não lhe
escapava como, cinicamente, ocorrera no primeiro.
Os olhos dos estudantes da UFF lacrimejavam hoje por causa
do spray de pimenta, mas eles não se sentiram vítimas. Eles
tinham consciência de que enfrentariam mais violência e
sabem também que dado o atual estrangulamento da Universidade
Pública, os que nelas estudam são tão poucos que os PMs
temem agredi-los com maior vigor, com um medo de esbarrar
em algum filho de “gente importante” que não manifestam
quando dispersam a bala uma manifestação de moradores de
favelas, por exemplo. E tendo consciência disso, aqueles
estudantes lutam pela ampliação do acesso à Universidade
Pública, para garantir o direito à educação de todos(as).
Mas a uma educação superior de qualidade e não a uma certificação
vazia de conteúdo em cursos por internet ou televisão, vídeo-games
de formação, que produzirão canudos para quem não terá parede
em que possa pendurá-los.
Um dos estudantes que estava hoje lá na porta do tribunal
perdeu recentemente a visão e participou de todo o ato,
sendo também agredido pelos policiais, porque enxerga claramente
no que os cínicos estão transformando as Universidades Públicas.
Quantos de nós continuaremos nos fingindo, cinicamente,
de cegos, enquanto o sentido público da Universidade se
desmancha por inteiro? Eu junto as minhas forças com Daniel,
que está sem visão, mas enxerga, e continua disposto a usar
a pedra contra o tanque e a seguir nessa jornada, para lutar
nossa própria batalha e alterar essa terra.