......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


20.04.2006
SONHO E REALIDADE

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Obs: Pelo texto abaixo ganhei 6,5 - o suficiente para não ser reprovado - além de algumas observações como "muito opinativo" e "o lide está errado".

Vagaroso, ele se aproxima num andar cadenciado. Negro, tem doze anos e ajuda sua mãe a sustentar os três irmãos num serviço suspeito para um garoto dessa idade. Você prefere fingir que ele não está ali, até que se torna impossível negar aqueles olhos firmes contra os seus.

Os olhos são do pai. Fumaça, como era conhecido, chegou a gerente da boca. Seu apelido vinha do modo não econômico de usar as armas. O rastilho de pólvora constante mantinha uma pequena névoa esbranquiçada em sua frente, mesmo após os combates do tráfico haverem cessado. Daí a alcunha. Há onze anos Fumaça (na verdade Oséias) cumpre pena no presídio de segurança máxima Bangu I.

Sua mãe é costureira e mal consegue sustentar a casa. Vivem num pequeno barraco em Santa Luzia, São Gonçalo (RJ). O orçamento não sobra nem para uma linha telefônica. Para receber as encomendas, sua mãe dá o telefone do vizinho, que nem sempre lembra de dar o recado. De acordo com o IBGE, são pobres, pois vivem com até um salário mínimo por mês e estão na mesma situação de outros cinqüenta e seis milhões de brasileiros.

Ele chega mais perto e você finalmente é obrigado a encará-lo. O que este garoto quer? Vingança? Sim, provavelmente ele quer vingança. Afinal, conviver na segunda sociedade mais injusta do mundo com a televisão incentivando o consumo a todo instante não deve ser fácil. Só sabe mesmo como é quem vive essa realidade na pele. E agora, o garoto negro de doze anos está em sua frente, tão perto que poderia tocá-lo se estendesse o braço.

Instintivamente, você recua. Tenta seguir para o lado oposto, mas o garoto vai atrás. Você então começa a acelerar o passo, mas aquela sombra negra cresce assombrosamente. Desesperado e acuado, você se vira em direção ao menino e grita, chamando a atenção de todos na rua:

- Pelo amor de Deus, o que você quer? Eu não tenho culpa! Eu não tenho culpa dessa injustiça que existe no Brasil. A culpa é do governo!

Um breve silêncio - não mais que três segundos - antecede a resposta. Que vem serena:

- Senhor, eu só queria devolver o seu relógio que caiu ali atrás e o senhor nem percebeu.

Jefferson Soares Braz, o garoto negro de doze anos, cursa a sexta série do ensino médio e quer ser Juiz. Tem no início do nome a letra do sonho. E tem de início uma característica que falta à maioria, rica ou pobre.

A propósito, o serviço suspeito que exerce para ajudar a mãe em casa é o de trocador de van.

PS: Na nova enquete, que acaba de ir ao ar na página inicial, pedimos uma comparação sobre a cobertura da mídia corporativa nos governos Lula e FHC. Deixa lá o seu voto!


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