
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
17.12.2005
MARÉ DE CONSCIENTIZAÇÃO
Por Alexandre Lourenço*
Quando mensalão, mensalinho, cueca recheada de dólares, e outras práticas se tornam rotina, é de se esperar que o povo se afaste ainda mais da discussão política. A Maré surpreende, mostrando que os tempos de curral eleitoral acabaram. Os políticos que mantém "centros sociais" cujos serviços se resumem a cortar cabelos, distribuir peixe, e até mesmo cachaça, precisam repensar seus métodos e práticas.
A Comunidade da Maré está em alta quando o assunto é consciência política. Igrejas, associações de moradores e outras entidades da favela não incentivam o debate, mas uma parcela da população fala fácil, e fala muito. Um exemplo disso é o que diz o fotógrafo e morador da Baixa do Sapateiro, Francisco Valdean, 24 anos, sobre a credibilidade dos políticos. Segundo ele, "a política é boa, sadia. O que estraga é a politicagem. Esses políticos fazem politicagem, e acreditam que isso é política".
Outro morador da Maré e estudante de direito, na comunidade do Morro do Timbáu, Vladimir Aguiar, de 47 anos, vai além. "Tradicionalmente, o brasileiro não gosta de política. E os políticos adoram quem não gosta de política. Quem discute política não está descrente. A mídia elitista passa essa idéia", diz. Também diretor da ONG Associação Comunitária e Escola Rádio e Progresso (ACERP), Vladimir enxerga o mensalão de forma diferente: "Para mim, o que o PT fez foi desapropriar riquezas, como no tempo da revolução, quando eles roubavam bancos, seqüestravam pessoas. Não para enriquecer, mas para investir num movimento social, dar suporte ao partido".
As opiniões são várias. Quem pergunta ao "seu" Izaias Augusto, 48 anos, morador do Parque União, se ele tem candidato a presidente, escuta em alto e bom tom - Não tenho, não quero ter, e tenho raiva de quem tem. Se as pessoas pudessem me ouvir, eu ia pedir para jogar o título (de eleitor) na urna - afirma. Já o músico e morador da Nova Holanda, Marcelo França, de 30 anos, é um misto de revolta e desilusão com o governo federal. Ele acredita que se fosse em outros tempos, votaria "em qualquer candidato do PT". Mas hoje em dia, afirma não ter candidato.
Mesmo com pessoas que tem o que dizer, a falta de pontos de discussão política é uma reclamação geral. "Deveria ter locais de discussão política. Mas tinha que ser voltada para política comunitária, e não partidária. As lideranças comunitárias não deveriam ser profissionais de campanha", comenta op futuro advogado Vladimir. Outro que lamenta é o fotógrafo Valdean. Diz que discute política com os amigos, nas ruas, mas é raro - Eles não gostam, e ainda tem os que têm opinião diferente da minha, diz.
Dizendo não estranhar o alto índice de abstenção do referendo [sobre a proibição ou não aa comercialização de armas e munições no Brasil], o músico Marcelo acha que para as eleições presidenciais, a situação não vai melhorar - Com tudo o que está acontecendo em Brasília, isso naturalmente tende a crescer, comenta.
Em relação ao referendo, Vladimir faz questão de ressaltar as diferenças com as eleições, segundo ele "o referendo era uma questão de necessidade pública, não uma questão política". Opinião diferente apresenta "seu" Izaias, que até arrisca um palpite para 2006 - Era pra ser alto o índice de abstenção, mas acho que muita gente vai votar pra tirar o Lula de lá. Aposto que ele sai, junto com o partido dele, conclui.
Palpites à parte, é evidente a conscientização política crescente de uma parcela da população que é decisiva em qualquer eleição. Resta saber se essa evolução do eleitor favelado será acompanhada também por uma nova geração de políticos.
* Alexandre Lourenço é aluno da Escola Popular de Comunicação Crítica. Artigo publicado em www.observatoriodefavelas.org.br.