
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
17.07.2006
A DÉCADA DA EDUCAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Por Miriam Duailibi (*) - contato@fazendomedia.com
As Nações Unidas declararam a década que vivemos como a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável.
Muito se tem falado sobre o tema, mas pouco se tem dito sobre como e por que a relação da espécie humana entre si, com as outras espécies e com a natureza, chegou ao ponto de comprometer a própria continuidade da vida na Terra.
O processo civilizatório implementado no Planeta pela espécie humana nos últimos 10.000 anos instaurou uma verdadeira máquina de destruição que vem crescendo em progressão geométrica. Foram marcados por uma visão antropocêntrica de mundo, pelo desconhecimento da condição ternária (indíviduo/comunidade/espécie) do ser humano e pelo rompimento de sua ligação com o Lar-Terra, com a Pacha-Mama, com Gaia...
Formamos uma sociedade predatória, excludente, competitiva, defensiva, fragmentária, discriminatória, autoritária.
Sociedade, mesmo quando politicamente democrática, socialmente fascista e ambientalmente irresponsável, onde se criam demandas fictícias que aumentam ininterruptamente o consumo, desconhecendo a capacidade de suporte e regeneração dos ecossistemas e a capacidade financeira da grande maioria dos seres humanos.
A procura incessante pelo acúmulo de riquezas materiais vem exaurindo os recursos naturais do Planeta sem, no entanto, melhorar as condições de vida de grande parte da população da Terra.
O domínio destas fontes de riqueza e a distribuição dos bens produzidos estão sob controle, cada vez mais acirrado, de pequenos grupos dominantes.
Países ricos desenvolvem ciência e tecnologia de ponta, instruem e capacitam suas populações, cuidam de sua saúde, protegem sua produção e emprego, criando assim condições de prosseguir em sua trajetória de sucessos...
Do lado de fora, milhões, bilhões de seres humanos sonham com água limpa, um prato quente de comida, um remédio para aliviar a dor de dente, baixar a febre. Batem à porta dos ricos e ela está irremediavelmente fechada. Nos dois hemisférios.
Apesar de, a partir dos anos 50, já haver nas esferas governamental e científica o conhecimento da gravidade das conseqüências que tal modelo de civilização estava trazendo ao Planeta como um todo, a destruição da natureza e a exclusão social prosseguiram ininterruptas.
A década de 60 traduz-se para o mundo como o berço da contracultura, de um novo arcabouço de princípios, onde os valores são severamente questionados. Movimentos de libertação nacional, pacificistas, naturalistas, de consumidores, de direitos humanos, de gênero e o ambientalista, colocam na pauta universal, entre outros, os temas da injustiça social, da concentração econômica, da discriminação, da corrupção e da deterioração ambiental.
Nas décadas subseqüentes, paralelamente à ascensão dos regimes democráticos em diversos países e ao aumento vertiginoso do número de organizações não governamentais, o movimento ambientalista se organiza e seu discurso, embasado nas novas descobertas científicas, mobiliza a sociedade civil e esta passa a exigir, de governantes e empresas, medidas de recuperação e conservação dos recursos naturais.
Conferências são realizadas, tratados estabelecidos, documentos globais elaborados. Países assinam acordos de redução de emissões de poluentes, de conservação de florestas e da biodiversidade, de pesquisa de fontes de energia alternativa, etc...
Populariza-se o conceito de desenvolvimento sustentável. Para dar concretude ao conceito, primeiramente cunhado por Lester Brown, surge então a noção do exercício da responsabilidade social das empresas.
Melhoram as técnicas de produção, a disposição dos resíduos é mais cuidadosa, a reciclagem vira uma febre, tratam-se os efluentes, não se contrata mais mão-de-obra infantil, não mais se descriminam acintosamente as mulheres, os negros, as emissões de poluentes são controladas, compensações ambientais são estabelecidas pelos governos, surgem legislações mais severas, fiscalização mais eficiente, programas sociais de vulto são mantidos pelas grandes empresas, etc., etc., etc..
Mas não se toca no cerne da questão: a mudança do marco civilizatório, a construção de um novo paradigma.
Assim, ao mesmo tempo em que medidas mitigadoras e compensatórias se alastram, o poder político do mundo continua estreitamente relacionado ao poder financeiro.
Os países ricos tornam-se cada vez mais ricos, aumenta o número de jovens bilionários enquanto nos países pobres explode o número de miseráveis.
Nos países ricos de recursos naturais, governos, mesmo quando democráticos, estimulam seu uso intensivo como fator de geração de riquezas.
Nos países emergentes, a pós-modernidade, a tecno-ciência e a abundância convivem, sem nenhum constrangimento, com as trevas da idade média, a ignorância, a fome, a doença.
E a destruição do Planeta prossegue apesar de o "novo" modelo de desenvolvimento, dito sustentável, estar em grande evidência nos discursos de políticos, empresários e cientistas.
O centro de poder global prefere desconhecer e/ou minimizar o grito de alerta que a comunidade científica lança, no advento do século XXI: pela primeira vez, em 15 bilhões de anos, a manutenção da vida na Terra está seriamente ameaçada!
Problemas como o aquecimento global, o comprometimento dos estoques de água doce, a destruição da biodiversidade, o desflorestamento, a chuva ácida, a contaminação dos solos e do lençol freático, aliados ao agravamento do problema da exclusão social, da fome, da miséria e da violência, desafiam a modernidade e põem-se em xeque o futuro de nossa caminhada, enquanto humanidade, nesta Terra.
A década da educação para o desenvolvimento sustentável só poderá acontecer se os gestores e os educadores do sistema formal de ensino promoverem uma educação que propicie a compreensão do funcionamento da teia da vida, que torne possível a percepção das estreitas conexões existentes entre as condições do ambiente, as condições sociais e as condições econômicas. Às escolas cabe a missão de construir os alicerces de um novo paradigma, um outro modelo de civilização.
Um paradigma baseado em uma visão de mundo sistêmica, onde a solidariedade e o respeito à diversidade e a todas as formas de vida sejam os fios condutores de ações concretas de transformação do "pedaço", do bairro, da cidade, do estado, do país, do Planeta.
Um novo mundo que convive lado a lado com o outro, velho e poderoso, procurando minar seus alicerces, conquistar cada um de seus artífices, roubar-lhe os soldados, converter seus mentores e mantenedores...
Tarefa árdua, talvez batalha perdida, mas à qual não podemos nos furtar, educadores e educadoras que somos...
(*) Miriam Duailibi é uma das principais ativistas ambientais brasileiras da atualidade. Coordenadora geral do Ecoar é autora de diversos livros, artigos e textos sobre o tema, é reconhecida internacionalmente por seus inovadores projetos socioambientais. Fundou em 92 o Ecoar, organização sem fins lucrativos da qual faz parte o Instituto Ecoar para Cidadania, o Centro Ecoar de Educação para Sociedades Sustentáveis e a Associação Ecoar Florestal, responsável pela produção anual de 2 milhões de mudas para a reposição de florestas no Brasil.