......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


15.11.2005
JUVENTUDE, FAVELAS E OS GRANDES MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Por Jailson de Souza e Silva* - redacao@fazendomedia.com

Ora, a redução da vida cotidiana ao particular e ao imediato gera, no limite, a limitação das possibilidades para a humanização, em uma perspectiva plena e universal. O ser humano presentificado e particularizado, sem noção de passado ou de futuro e voltado para a aquisição de bens materiais distintivos, não investe em projetos de longo prazo, tais como a educação, em seu sentido maior, não desenvolve uma maior preocupação ambiental e tem como referência ética fundamental a sua satisfação pessoal e, no limite, a de seu grupo familiar.

Nesse processo, há uma progressiva perda do sentido da vida coletiva. Seu corolário é o aumento da intolerância, da sensação de insegurança, além da dificuldade em incorporar uma ética de responsabilidade em relação ao espaço público. Essas posturas se tornam o alimento de múltiplas formas de violência na cidade: educacionais, culturais, sexuais, econômicas; físicas etc. Violências produzidas/produtoras do esgarçamento do tecido social, fenômeno que amplia a precariedade da qualidade de vida nas grandes cidades.

A centralidade do consumo como um fim em si mesmo, a presentificação e a particularização existencial geram uma nova forma de hierarquização nas relações entre os indivíduos. Ela se caracteriza, de forma consciente ou não, pela percepção de que o exercício da cidadania não é inerente ao nascimento do indivíduo no Estado-nação, conforme define a constituição brasileira. O reconhecimento da cidadania é relativizado, de acordo com a cor da pele, o nível de escolaridade, a faixa salarial e/ou o espaço de moradia dos residentes na cidade. O juízo se expressa, de forma particular, no menor ou maior grau de tolerância com as diferentes manifestações de violência, de acordo com o alvo da agressão e não com o ato em si. Basta lembrar como difere a postura da mídia e dos órgãos de segurança quando um morador da periferia ou outro das camadas médias/altas sofre uma violência.

As formas tradicionais de representação da violência contribuem para essa hierarquização do valor da vida e para a (re)produção dos pressupostos subalternizantes em relação aos grupos sociais populares, e, em especial, a sua juventude. Na verdade, mais do que a diferença na percepção da natureza da violência, ocorre uma grande diversidade no grau de tolerância com as suas manifestações. Assim, determinadas práticas são consideradas inaceitáveis para alguns e inevitáveis para outros. Essas diferenças se revelam na aceitação - ou não - dos métodos utilizados pela polícia no combate ao tráfico de drogas e da pena de morte informal decretada a uma parcela da população brasileira.

Logo, as condições para a superação das práticas de violência presentes na sociedade, especialmente contra as crianças, adolescentes e jovens, implica o reconhecimento da maior parte delas como um exercício social de dominação, que é reproduzido a partir de pressupostos largamente presentes em nosso cotidiano. Destacam-se, dentre tanto, o machismo, o racismo e o adultocentrismo, mas também manifestações como o consumismo - que tem como referência a satisfação imediata do prazer individualista - e o sociocentrismo - que estabelece uma hierarquização dos diversos grupos sociais e é a base para a definição diversa do valor da vida humana, além de práticas similares.

A conceituação proposta nos ajuda a reconhecer a violência como uma prática incomodamente presente em nosso cotidiano, nos mais diversos espaços sociais. Ela não é um ato de exceção, que se manifesta em raras ocasiões ou praticada apenas por sujeitos enquadráveis no estereótipo clássico de "desequilibrados mentais", sem consciência de seu ato e de seus desdobramentos. A violência, para nosso desalento, é utilizada por diversos indivíduos, grupos e instituições do Estado como forma de controle social e meio de realização de desejos singulares ou particulares. Não é coincidência, então, que os principais massacres ocorridos no Rio de Janeiro, e no Brasil, nos últimos anos, todos efetivados por policiais militares - Carandiru, Candelária, Acari, Vigário Geral e, mais recentemente, na Baixada Fluminense - atinjam apenas os territórios populares.

A disseminação das práticas violentas gera, por sua vez, um sentimento crescente de insegurança que invade toda a cidade, inclusive os bairros nobres. E a principal solução, apontada por mais de 50% da população carioca, de diversos grupos sociais, para o enfrentamento do fenômeno é o aumento da presença de policiais nas ruas3. No caso da utilização de políticas sociais, dentre as quais a distribuição de renda, apenas 2% avaliam que ela teria eficácia.

O enfrentamento das violências presentes no Rio de Janeiro, portanto, exige a criação de mecanismos que ampliem o tempo e o espaço sociais dos seus moradores, que permitam o reconhecimento da cidade como o espaço do encontro das diferenças, por excelência. E, a esse respeito, os jovens têm muito a ensinar. Nos espaços locais, em diferentes realidades, eles formam contrastantes redes sociais, marcadas pela produção de práticas inovadoras de sociabilidade, de regras de convivência, de parâmetros para disputas pelas posições mais prestigiadas. Eles formulam, enfim, variados mecanismos para a expressão dos seus desejos, temores e crenças - da subjetividade.

Em uma ordem urbana marcada pela segregação, cada vez mais estão buscando novos contatos, novos espaços, novas redes. Seja via, por exemplo, a cultura - música, dança, capoeira, teatro; o engajamento na defesa ambiental ou na busca da democratização da educação - como demonstram os Cursos Pré-Vestibulares Comunitários. No cotidiano da cidade, das mais variadas formas, diferentes encontros estão ocorrendo, entre jovens e/ou seus grupos.

A palavra da moda, entretanto, em relação aos jovens é limite: a falta de limites os teria deixado sem referências, sem disciplina e sem noção de tempo e espaço. Caberia, então, resgatá-los. O pressuposto é de que um imaginário paradigma da ordem está sendo, de forma assustadora, rompido. E diante disso, a ação do poder público do Rio de Janeiro, em geral, tem tido como princípio de sua ação em relação aos jovens a tentativa de delimitar seu espaço de vivência: Nos últimos anos já foi fechado o Circo Voador; os bailes Funks foram proibidos e os bares do Baixo Gávea já foram fechados. Na defesa de uma pretensa ordem da cidade, os limites, em algumas ocasiões, não conhecem as fronteiras de classe.

O que os jovens precisam, porém, no plano do poder, é deixar de serem considerados como objetos de políticas públicas. De ouvirem palavras, proferidas com ótimas intenções, de que eles devem ser retirados da drogas, da violência e de uma vida sem projetos. Isso porque, mesmo quando se fala em torná-los protagonistas, a lógica é modelar, enformar, enquadrar. Não há a mesma atenção aos jovens no que diz respeito á produção de políticas específicas às suas demandas. Não há estímulo a empregos de qualidade, não se adotam políticas de permanência na escola; não há espaços culturais alternativos; não há respeito das forças policiais em relação a eles. Não há, por fim, um órgão do setor público que tenha como missão construir um conjunto de políticas públicas integradas que reconheçam os jovens como atores centrais, em todo o processo.

O desafio maior, portanto, não é, simplesmente, definir limites para os jovens singulares. Mas sim, criar espaços ampliados para a expressão coletiva de seus desejos, espaços de exercício do poder. Afinal, como definir limites sem discutir o poder? Até agora, os discursos adultocêntricos buscaram apenas exigir dos jovens das cidades - e dos campos - que subam a rocha montanha acima e cumpram sua pena, como novos Sísifos. Cabe, todavia, estimular a construção de um novo discurso hegemônico. Nele, repetindo a ousadia do nosso mítico transgressor, tão humano, espaços serão propostos para garantir-se uma ação protagonista e abrangente dos jovens nas ações públicas da pólis.

Nesse momento, os jovens, na sua diversidade, serão reconhecidos como elementos centrais na produção de políticas, sejam as sociais, ambientais, culturais, educacionais; deixarão de ser identificados como objetos das ações ou como problemas a serem controlados. Passarão a ser reconhecidos como parceiros na construção de uma nova cidade, mais solidária e justa. Nesse momento, a cidade estará, em seu cotidiano, sendo revolucionada. E Sísifo poderá, então, no mundo da utopia coletiva, ser libertado de sua pena e premiado por sua ousadia maior, a de ser humano, simplesmente humano.

* Jailson de Souza e Silva é Geógrafo, Professor da Universidade Federal Fluminense e coordenador geral do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.

3 Pesquisa realizada, em 2004, pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro.


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