......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


15.11.2005
JUVENTUDE, FAVELAS E OS GRANDES MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Por Jailson de Souza e Silva* - redacao@fazendomedia.com

Há alguns anos, em função do meu interesse acadêmico e cidadão pelas práticas sociais desenvolvidas nos espaços populares, tenho me dedicado, dentre outros, a temas vinculados à juventude. Chama-me atenção, em especial, o processo de construção e reconhecimento da identidade do jovem na cidade, assim como os pressupostos adultocêntricos dos discursos, que tratam a juventude, em especial a pobre, apenas na condição problema social e, portanto, objeto da ação do Estado ou das instituições sociais. Processo esse alimentado, em grande medida, pelos meios de comunicação. Neste breve artigo, então, vou deter-me especialmente nos vínculos entre essas formas de representação e sua vinculação com a disseminação da violência letal, em especial no Rio de Janeiro.

Com efeito, tornou-se trivial o progressivo aumento do assassinato de jovens em nosso país. Entre 1991 e 2000, o número de homicídios dos jovens aumentou 76%. No ano 2000, as mortes de cidadãos entre 15 a 24 anos responderam por 39,6% das ocorridas no Brasil. Com isso, enquanto a média global de homicídios ficou em torno de 32%, a taxa de mortalidade dos jovens foi de 95,6 por 100.000 habitantes, sendo que 75% dessas vítimas foram mortas por armas de fogo.

O fato mais curioso, se é que se pode utilizar este termo, é a relação inversamente proporcional entre a evolução das taxas de mortalidade infantil no país e de mortalidade juvenil. No caso da cidade do Rio de Janeiro, foram mortas 3.306 pessoas no ano 2000, uma taxa de 56,4 para cada 100 mil habitantes. 40,5% desses homicídios ocorreram entre adolescentes e jovens, uma taxa de 259,0 para cada 100 mil. Logo, um jovem carioca tem 7 vezes mais chances de ser assassinado do que a média brasileira. No caso dos negros - classificação que reúne os pretos e pardos - o quadro da violência letal adquire o caráter de genocídio: eles têm 2,3 vezes mais chances de morrer do que os jovens brancos.

Caso seja um morador da Zona Norte ou da Zona Oeste o drama é maior, pois as chances de ser assassinado são 18 vezes maiores que um morador da Zona Sul da cidade. A título de exemplo, nos bairros do Leme e Copacabana, na zona sul da cidade, foram mortas 17 pessoas no ano de 2004; na região de Rocha Mirada e Acari, foram assassinadas 617. Nesta área atua o 9º Batalhão da Polícia Militar, que teve alguns de seus policiais responsabilizados por duas das maiores chacinas da década de 90, no Rio de Janeiro: a morte de 11 jovens da favela de Acari e de 21 pessoas da favela de Vigário Geral.

Sintetizando: ser negro, jovem e morador da periferia ou da favela é portar um kit estigma que gera um risco cotidiano de perder o direito mais fundamental do ser humano, o de sobreviver. Encontrar caminhos para combater esse fenômeno talvez seja a questão mais relevante para a construção de uma vida mais digna e humana nos grandes centros brasileiros atuais.

E na busca de melhor se compreender este fenômeno, cabe levar em devida conta o papel dos grandes meios de comunicação na difusão de uma representação estigmatizante da juventude negra e pobre. Neste sentido, uma capa da revista semanal de maior circulação do Brasil, a Veja, me acompanha desde 2001: seguida da manchete "a periferia cerca a cidade", apresenta-se uma imagem na qual as construções de alvenaria, em cor escura - remetendo à visão de formigas saúvas em movimento - vão devorando gradativamente prédios brancos e limpos. O exemplo é ilustrativo do temor, atávico em amplos setores sociais das camadas médias e dominantes do Rio de Janeiro, São Paulo e outras metrópoles brasileiras, de que os "bárbaros" favelados invadam a "cidade", a polis, e esta seja dominada pelo caos.

A cobertura dada pela grande imprensa a outro evento de larga expressão simbólica, ocorrido em abril de 2004, no Rio de Janeiro, corrobora a assertiva acima proposta: Em uma noite daquele mês, aconteceu um conflito de grande visibilidade entre traficantes de drogas na Rocinha, antiga favela situada na área mais nobre da cidade. Tal conflito foi denominado pela grande imprensa como a "Guerra da Rocinha". Na tentativa de invasão daquela comunidade popular por um grupo armado foram assassinadas três pessoas: dois moradores locais e uma motorista que passava no túnel que une duas áreas nobres da cidade. Cabe salientar que conflitos como esses, com a morte de várias pessoas inocentes, acontecem com relativa freqüência em localidades da periferia do Rio de Janeiro.

Seguindo a lógica natural da ordem social vigente, a morte da motorista, pertencente à "Classe média", que teve a fatalidade de passar de carro justamente na ocasião do conflito, teve muito mais destaque, protestos e lamentações do que a morte do casal de jovens da Rocinha. O fato mais impressionante, então, foi a postura de responsabilização do conjunto de moradores da Rocinha pelo ocorrido. Com efeito, um número expressivo de articulistas e leitores dos principais jornais da Cidade reivindicava, com indignação e rancor, o "direito de ir e vir" dos moradores da "cidade" - território no qual não incluem a favela - e questionava o direito de existência daquela comunidade, que abriga cerca de 80.000 pessoas e se constituiu há mais de 70 anos.

Um outro exemplo do tratamento concedido aos pobres na grande mídia, em particular aos jovens, é bem expressa pelo trecho de uma reportagem do maior jornal do Rio de Janeiro e um dos três mais importantes do país:

"Principal alvo da violência urbana, jovens de comunidades carentes1 começam a encontrar em escolas dos Estados do Rio de Janeiro e Pernambuco a oportunidade de se afastar das drogas e do crime" - (O Globo, 08/04/05).

O juízo subjacente à citação é que todos os jovens da periferia são potencialmente criminosos e, por isso, precisariam ter o seu tempo ocupado - sem importar muito como - a fim de não seguirem o caminho da criminalidade. O fato de existirem tão poucas pessoas, proporcionalmente falando, envolvidas com atos criminosos nas grandes cidades brasileiras - considerando-se as precárias condições de vida da população, historicamente - não é levado em conta na afirmação do discurso.

A estereotipia das favelas e de seus moradores se faz presente não só na forma conservadora acima apontada como também em uma forma pretensamente progressista. Na primeira, os jovens aparecem como criminosos em potencial e/ou como colaboradores de forças criminosas. Na representação progressista, os residentes em favelas, há algumas décadas, eram identificados por alguns setores sociais como bons favelados. O juízo estabelecia uma analogia com a visão romântica do bom selvagem, símbolo anti-moderno de uma cidade racional e individualista. Embora essa idealização ainda se faça presente, tornou-se mais comum, dentre os que assumem a perspectiva identificada como progressista, sua identificação como vítimas passivas - e intrinsecamente infelizes - de uma estrutura social injusta.

Nesse caso, seria justificado que os moradores das favelas, em função de sua lamentável condição social, não pagassem taxas de energia, água, esgoto; pudessem ocupar qualquer tipo de espaço público; comprar objetos roubados e, no limite, roubarem aqueles mais privilegiados na ordem social. O que essas práticas, efetivadas por uma parcela de moradores das favelas, expressam, na verdade, é a (re)afirmação de uma lógica individualizada no processo de resolução das demandas sociais, postura que dificulta a construção de respostas coletivas para as dificuldades cotidianas presentes nos espaços populares.

A justificativa social de atos criminosos e/ou que violam os direitos da coletividade sustenta-se, também, em uma visão monolítica das práticas afirmadas nos espaços populares, desconhecendo-se as múltiplas redes sociais neles presentes. Assim, a estereotipia progressista revela-se incapaz de oferecer alternativas ao discurso conservador, e tão discriminatório quanto este.

O processo de manutenção da hegemonia das formas usuais de poder e da desigualdade, para além das posições ideológicas, estrito senso, é também alimentado, no plano do imaginário social, pela máquina publicitária brasileira. Dotada de recursos técnicos, humanos, simbólicos e ideológicos situados entre os mais avançados do mundo globalizado, o mercado de propaganda nacional teve um papel fundamental na crescente socialização do desejo de consumir produtos específicos e distintivos, em um quadro histórico de manutenção da concentração em uma minoria social da possibilidade de ter acesso a esses produtos distintitivos. E em nenhum lugar esse processo se materializa com maior concretude do que nas metrópoles.

Com efeito, o objetivo central da publicidade é a formação do consumidor - um ser carente por natureza - e de um mundo onde a regulação ética, moral, social, econômica e cultural seja o mercado. No modelo proposto, a identidade do ser humano é definida pelo seu padrão de consumo. Nessa dinâmica2 se constrói a distinção social e seu fundamento necessário é a diferenciação. Os adolescentes e jovens são, por sua vez, o público-alvo fundamental das campanhas e iniciativas publicitárias.

A socialização do desejo de consumir bens materiais referentes para a produção da distinção social aliada à restrição de sua realização a uma pequena parcela da população geram conseqüências perversas. Destaca-se, nesse caso, sua influência no processo de estreitamento progressivo dos tempos e espaços existenciais da maioria da população. Esse movimento se manifesta através de dois tipos de práticas sociais: a presentificação e a particularização. Pierre Bourdieu afirma que "aqueles que não têm, como se costuma dizer, futuro, têm poucas possibilidades para formar o projeto, individual, de criar seu futuro ou para trabalhar no futuro coletivo" . (Bourdieu, 1979:08)

O pensador francês está se referindo, particularmente, aos setores sociais mais vulneráveis socialmente, em particular no plano econômico. Todavia, suas palavras definem com precisão o que denomino presentificação: uma prática social dominada pela cotidianidade, que se manifesta como um eterno agora. Ela caracteriza o que Espinoza vai definir como prazer - a busca incessante do que oferece retorno imediato, termo antônimo, para o filósofo, da alegria - a busca do que oferece retorno mediato.

O estreitamento das referências temporais inibe a possibilidade de trabalhar a utopia como elemento integrante da realidade, em sua possibilidade, e se associa ao particularismo espacial. Nesse caso, a vivência em um território restrito, sem parâmetros mais abrangentes de inserção na cidade, contribui para que o lugar seja o ponto de partida e de chegada da existência. Os moradores dos "lugares" não se sentem, muitas vezes, pertencentes à polis, à cidade, na perspectiva grega.

> Continua...

1 Em vários trabalhos, temos procurado mostrar que a definição dos espaços populares a partir de termos como "carência" ou "Exclusão Social" é preconceituosa, desqualificadora e gera a formulação de políticas públicas autoritárias e subalternizadoras. Cf www.observatoriodefavelas.org.br.

2 Bourdieu, Pierre - O desencantamento do Mundo, São Paulo, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1979.


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