
14.11.2006
O APRENDIZADO DA HISTÓRIA COM O CINEMA NACIONAL
Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br
Curiosamente encontram-se em cartaz nos cinemas três filmes nacionais que revisitam o passado recente de nosso país. Eis uma oportunidade ímpar de rever os tristes anos da ditadura militar instaurada no país em 1964 através do olhar de cineastas brasileiros.
Há cerca de dois anos, por ocasião da passagem dos 40 anos do Golpe de 64, uma pesquisa de opinião realizada pelo Laboratório UniCarioca de Pesquisa Aplicada - LUPA/UniCarioca - para o Caderno Megazine, do jornal O Globo, produziu uma alarmante constatação: uma grande maioria dos jovens ignora o significado histórico dos episódios que resultaram na deposição do presidente João Goulart.
É indiscutível que as reformas promovidas pelos militares no sistema de ensino do país são em larga medida responsáveis por esse "apagão" que se produziu na memória das gerações mais novas. Tais reformas foram de tal modo "eficientes" que até mesmo muitos professores têm dificuldade em abordar o período mais recente de nossa história em face da debilidade da formação adquirida nas universidades.
Talvez por isso toda e qualquer iniciativa de revisitar os porões dos anos de chumbo representem uma valiosa possibilidade de enriquecer a nossa compreensão sobre a história dos anos 60 e 70 no Brasil. E é exatamente desta forma que devemos apreciar "Sonhos e desejos", de Marcelo Santiago, "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburguer, e "Eu me lembro", de Edgar Navarro.
Os dois primeiros têm o grande mérito de humanizar a luta armada contra a ditadura, embora o façam de maneiras distintas. O filme de estréia de Marcelo Santiago, baseado no romance "Balé da utopia", de Álvaro Caldas, retrata de modo muito sensível o desabrochar do amor, da paixão e do desejo entre guerrilheiros urbanos. Isto acontece em meio à desesperada tentativa de transformar os sonhos de um Brasil democrático, justo e igualitário em realidade.
De certa forma, o filme reflete o lema revolucionário guevariano "hay que endurecer-se siempre, pero sin perder la ternura jamás!". Além de cumprir a função pedagógica de lembrar ao espectador que não eram bárbaros terroristas aqueles jovens trucidados pela repressão, visto que o amor e o sexo também dominavam-lhes os sentidos - como aliás ocorre com qualquer um de nós.
Cao Hamburguer adota um extraordinário e originalíssimo ponto de vista, construindo um filme que revela o olhar de um menino de 12 anos sobre aquela época. Filho de um jovem casal que se vê forçado a cair na clandestinidade para escapar das perseguições políticas promovidas pelas Forças Armadas, o garoto expressa toda a angústia, sofrimento e ansiedade enquanto aguarda o retorno dos pais. Assiste-se na tela o drama vivido por uma família momentaneamente destroçada pela repressão através de um olhar ingênuo e infantil. Essa inusitada perspectiva restitui o caráter demasiadamente humano de muitos guerrilheiros urbanos que militavam naquele distante ano de 1970.
Por fim, Edgar Navarro parece insistir em dialogar com o esquecimento epidêmico que grassa por aí. Guiga, o personagem central, tem sua trajetória reconstituída desde a infância nos anos 50, passando pela adolescência e juventude nos anos 60, que culminam com a maturidade dos anos 70. Aqui o contexto histórico é o pano de fundo sobre o qual boa parte de uma geração acabou chegando à mesma encruzilhada com a qual o baiano Guiga se depara: lutar por um projeto político capaz de transformar a nossa sociedade ou enveredar pela busca do autoconhecimento (da qual as drogas fizeram parte), admitindo que antes de mudar o mundo é preciso adquirir consciência do que é indispensável mudar dentro de cada um de nós, nos nossos modos de agir e pensar?
Se o cinemão comercial americano que quase monopoliza as nossas salas de exibição permitir, o público brasileiro terá nas próximas semanas chances de aprender um pouco mais sobre a história do Brasil com o cinema nacional.
E se o leitor me permite ainda um súbito gesto lúdico, depois de assistir aos filmes, concluo brincando com as palavras tão oportunas e sugestivas que compõem os três títulos: eu me lembro do ano em que meus pais saíram de férias, de sonhos e desejos...
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.