
14.02.2007
A LIÇÃO DE JOÃO HÉLIO
Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com
O trágico assassinato do menino João Hélio, de seis anos de idade, arrastado pelas ruas pendurado pelo cinto de segurança após um assalto no subúrbio do Rio de Janeiro, é mais um desses crimes que multiplicam-se assustadoramente. Como pai de uma criança quase da mesma idade, não consigo imaginar como a família de João sobreviverá a tudo isso. Sinceramente não sei o que restaria de mim caso estivesse no lugar dos pais desse menino, haja vista o sofrimento que essa brutalidade causou-lhes.
De qualquer forma é preciso analisar como tudo isso se tornou possível entre nós e como chegamos a esse estado de coisas que nos faz sentir mergulhados na mais completa barbárie. Não adianta deixar-se levar pela cantilena que os meios de comunicação em geral entoam a cada grave crime que abala o nosso cotidiano. De nada adiantará a redução da maioridade penal ou a instituição da pena de morte, pelo simples fato de que isso significa tratar o problema combatendo suas conseqüências e não as causas.
Da mesma forma é preciso romper de uma vez por todas com esse conceito equivocado de que uma cidade segura é uma cidade extremamente policiada. Ouvi um famoso locutor de uma rádio que se dedica integralmente à cobertura jornalística bradar contra a falta de policiamento ostensivo, como se nossa sensação de segurança pudesse advir da presença de um policial a cada esquina. Convenhamos: isso é pura bravata em busca de audiência!
Jamais teremos um policial a cada esquina, simplesmente porque isso não é possível, nem desejável. Em geral, a ausência de policiamento ostensivo costuma ser o melhor indício de que se vive num lugar tranqüilo e pacífico. Basta visitar qualquer cidade em que os índices de violência não sejam alarmantes para constatar isso. Não faz muito tempo, estive em João Pessoa, na Paraíba, e andei muito pelas ruas tanto de dia quanto à noite. Quase não vi policiais. E não fui assaltado nem me senti ameaçado.
O que não podemos ignorar é que a sociedade brasileira, capitalista e ciosa dos seus valores burgueses, vem há muito tempo fabricando em larga escala os agentes da nossa violência cotidiana. Agora de nada adiantará tomar medidas drásticas, como se fosse possível estancar de uma hora para outra, com uma simples canetada, a tal impiedosa onda de violência que ninguém suporta mais. Reverter esse processo levará alguns anos, quiçá décadas. E que ninguém se iluda com soluções mágicas, ainda que alguns programas de TV insistam em transformar tudo isso num circo.
E antes que o leitor se pergunte porque diachos estou tratando desse assunto também aqui na Editoria de Educação do Fazendo Media, permita-me o devido esclarecimento: não será possível reverter a degradante situação a que chegamos sem escola e sem educação pública. E não basta que a Secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro anuncie em pleno início do ano letivo que a rede pública municipal ainda dispõe de trinta mil vagas para nossas crianças e adolescentes.
Será preciso que os estudantes que preenchem tais vagas recebam um ensino e uma formação efetivamente de qualidade. De que adianta que sobrem vagas se ao final do ensino fundamental tivermos apenas uma massa de analfabetos funcionais? Os últimos resultados do (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram que a qualidade da formação continua caindo. E esta é a sutil engrenagem da fábrica de violência que não pára de funcionar.
Enquanto o ensino público fundamental não for merecedor da indispensável valorização de que necessita, continuaremos a fabricar incontáveis criminosos prontos a ceifar a vida de muitas outras crianças inocentes tal como o pequeno João Hélio, cujo nome lamentavelmente será esquecido, em meio a tantos outros.
Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.