
Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com
13.11.2005
ENTREVISTA: LUIZ WEIS
Colunista do Observatório da Imprensa
A Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com
Luiz Weis faz parte da história da mídia impressa brasileira, passando pelos tempos áureos com a revista Realidade, um marco do jornalismo literário, e pela fundação das revistas semanais. Hoje, olha com desânimo o declínio da mídia diária. Nesta entrevista, concedida por telefone, o jornalista falou principalmente sobre Veja e sua virada editorial, além dos problemas éticos do jornalismo, seu principal alvo no blog "Verbo Solto", do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br).
Quais foram as principais mudanças, citando os prós e os contras do jornalismo brasileiro nos últimos 30 anos?
Com o Diário Carioca e o Jornal do Brasil, e depois outras mudanças, começamos a valorizar a reportagem tratando de temas tabus como o aborto, trabalho infantil. Neste período se tem um avanço nos temas, nas pautas, nas novas maneiras de fazer apuração. Surge a revista Realidade [criada em abril de 1966 pela Editora Abril] e então o repórter é o personagem da matéria, é um contador de história que pulsa, que vive e tem também uma apresentação, uma qualidade. Isso marca um ponto de virada que depois será levado à frente por aquilo que na época e durante muitos anos foi sem dúvida a melhor revista brasileira, que foi a Veja. A Veja introduziu um padrão de jornalismo que é rigorosamente calcado no formato da Times. Com um formato bem sucedido e com um zelo enorme pela exatidão da informação.
Qual foi o período que você trabalhou lá?
Do final de 1975 ao final de 1979, período de ditadura militar. No começo, mesmo antes do censor ir à redação, Dona Solange ligava, "não pode falar isso e aquilo". Então, a Veja tentava abordar os fatos corretamente. Acordava o sujeito duas horas da manhã para perguntar que marca de cigarro ele usava. Isso se chamava precisão. No grande cerco dos prós e contras tivemos um avanço do jornalismo como empresa que também criou o reconhecimento da profissão.
"A mídia agride aos gritos e retrata aos sussurros"
E quanto aos princípios éticos do jornalista na produção da matéria na atualidade?
Tivemos agora o caso do César Tralli [ele se vestiu de policial federal para filmar com exclusividade a prisão do ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf]. Até onde vai o limite?
Você é a favor da câmera escondida?
Esse tema da câmera escondida é polêmico. Eu te confesso que não tenho uma resposta pronta para você. Porque há circunstâncias em que você pensa: o que está em jogo? Aquilo que você pensa ser de interesse público. É uma questão quase de caso a caso. Os riscos de ferir a ética existem. Eu já cansei de falar, e não só eu, um ditado sério: A mídia agride aos gritos e retrata aos sussurros. Há um caso, uma exceção que só confirma a regra, o Ricardo Noblat, que tem hoje o mais bem sucedido blog [www.noblat.com.br]. Dirigindo o Correio Brasiliense, não lembro o período, um dia o jornal sai com a seguinte manchete: "O Correio errou". Eles descobriram que tinham feito uma batatada e reconheceram aos gritos também. Vejam só como as condições de trabalho interferem nisso. Quanto menos recurso você tem, sem contratar jornalistas bons e experientes, maior o risco de você publicar, mesmo sem querer, erros. Ao longo destes últimos 30 anos tivemos um grande prejuízo na qualidade da informação. Mesmo que não tenhamos a intenção, mesmo que trabalhe num bom jornal, o risco de transgressão ética é muito grande pelas condições de exercício da profissão. O dono do jornal influencia, mas nem em todos os casos. Não foram os Marinho que mandaram o César Tralli vestir roupa de policial federal, ele cometeu uma grave transgressão ética. Número um: ele se fez passar pelo o que ele não é. Segundo, que isto faz parte dos interesses da Polícia Federal em mostrar serviço ao país para 40 milhões de pessoas que assistem ao Jornal Nacional. Televisão no Brasil é Jornal Nacional. Muito interessante a resposta da Rede Globo. Disse que investiu cinco anos na história do Paulo Maluf, o repórter passou noites em claro... Ora, jornalista é pra isso. Se não gostar vai ser qualquer outra coisa. Mas como se isso justificasse que ele fosse cúmplice de um episódio de interesse comum: é bom para a Polícia Federal mostrar serviço e é um bom negócio pro cara da Globo mostrar aquilo. Por que a PF não chamou a Rede Bandeirantes, a Rede Record, o SBT? Mídia no Brasil é essencialmente televisão e televisão é a Rede Globo. Se você somar a tiragem diária de todos os grandes jornais, tudo isso somado não dá uma fatia, uma fração da audiência do Jornal Nacional. Para ver os problemas da mídia brasileira tem que vê-los principalmente na televisão que mais forma opinião, percepções. Por isso a Polícia Federal não chama os repórteres da Veja, chama os jornalistas da Rede Globo. Desde o tempo de Collor que a TV e as semanais lideram o pelotão em matéria de jornalismo investigativo. Isso revela o seguinte: que o jornalismo diário está muito voltado para o evidente, ou no caso da polícia para o que a gente chama de jornalismo declaratório. E as semanais aprenderam a jogar fora isso. Elas deixaram de ser um resuminho da semana, substituíram ou reduziram as notícias semanais e estão investindo em pauta nova e, portanto, não estão presas ao factual.
Quando a Veja mudou, deixou de fazer este tipo de jornalismo do início?
A Veja adotou um novo modelo. Os jornais todos têm páginas e editoriais. A diferença da matéria do jornal para a da revista é que esta é uma matéria comentada e Veja elevou isso na enésima potência a um padrão de texto de matéria que não é para o leitor ler, ver e tirar suas conclusões. A Veja dá as conclusões mastigadas e não as dá de uma maneira honesta. As pessoas [entrevistadas] são procuradas não para esclarecer, para ajudar o leitor a entender e tomar partido, mas para endossar a posição da revista e quer que o seu leitor tome o mesmo partido. Eu não conheço a demografia do eleitorado da Veja, mas a sensação que eu tenho é que é cada vez mais uma revista que se dirige ao público com razoável poder aquisitivo, mas intelectualmente menos preparado. A revista quer enfiar suas posições goela abaixo. Isso se acentuou no caso do seu antipetismo exacerbado.
Alguns profissionais que já trabalharam na Veja falaram que os jornalistas, não sei se no seu tempo também, produzem relatórios para os editores escreverem as matérias.
Já era. Olha, isso tem um sentido, quando a matéria é produto de muitas mãos, não uma matéria pessoal, geralmente é uma obra mais complexa que envolve sucursais. Então lógico, não acho nada de errado nisto. Desde que os relatórios estejam corretos, ao melhor da capacidade de quem os emitiu e fosse respeitado, sem uma visão distorcida.
E todas as revistas semanais trabalham assim?
Sim. Ao mesmo tempo podem valorizar a matéria individual tal como a revista Realidade em que o repórter está no texto, não é apenas um observador que transmite. Eu acho que certas matérias, certas histórias são mais bem contadas quando tem alguém para organizar e têm assuntos que envolvem necessariamente um trabalho coletivo. O que estou querendo dizer é que uma coisa não é pior nem melhor do que a outra. Como é mesmo a piada de Millôr Fernandes? "Respeite o suspiro do autor, se ele for o autor e tiver estilo". Tem casos que são ótimos para fazer uma matéria individual.
Mino Carta, fundador da Veja, diz que hoje ela é uma 'bosta' e não soube explicar porque é um fenômeno de vendas. Então, como ex-editor assistente, pergunto: por que a Veja é a revista mais vendida do país, com tiragem de 1.250.000 exemplares semanais?
Eu só poderia responder honestamente essa pergunta se soubesse: quem é o leitor da Veja? Como eles são distribuídos geograficamente, por idade? A Veja e as demais revistas, de uns anos pra cá, quando não tem escândalo, elas investem pesadamente em saúde, família, costumes, sexo, o que atrai muito a leitora encontrada em revistas femininas. Ela tem edições especiais, rompe com o padrão daquele newsmagazine, que lida com as coisas importantes da política e economia. O tablóide mais vendido do mundo, The Sun, vende 10 milhões por dia. Tem gosto pra tudo. Por exemplo, esses programas policiais do começo da noite. São programas asquerosos e tem audiência. Muita gente pode consumir porcaria.