
13.03.2007
EDUCAÇÃO PÚBLICA E COTAS: ABRIR PORTÕES, CRIAR PONTES...
Por Álvaro Pereira do Nascimento (*) - jc1910@uol.com.br
Quando discute-se o tema das cotas para as universidades públicas, ouve-se de forma recorrente um pensamento imediato e taxativo: "o problema está na educação básica; pago imposto, o governo que resolva". Exaspero-me quando leio e escuto este tipo de frase. Os milhares que a usam, tal qual receita médica, querem livrar-se de algo que os incomoda, pois também depende deles essa mudança. Contudo, no lugar de topar esta briga, confortavelmente preferem depositar a solução nas mãos de seres historicamente ausentes: os sucessivos governos municipais, estaduais e federais, que se sucedem de gestão em gestão esquivando-se de assunto tão urgente. Estes preferem, obviamente, as políticas de Governo às de Estado. A conclusão então é a seguinte: os governos fingem que amam a escola pública de pobres e negros e os críticos das cotas fingem que acreditam.
Duas fontes reforçam minha conclusão. A primeira é constituída por recentes matérias jornalísticas que revelam a decadência do Ensino Médio e Fundamental em escolas públicas (Folha de São Paulo, "96% das escolas estaduais da cidade de SP tiveram notas baixas no Enem", 06/03/07), informando que 96% das escolas estaduais da cidade de São Paulo tiveram rendimento inferior a 50% no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM. Ou seja, estas escolas não conseguem preparar alunos pobres e negros para a realização do exame que possivelmente substituirá o viciado vestibular. Obviamente, 71% das escolas particulares conseguiram rendimento superior a 50% da avaliação... Este quadro não se restringe a São Paulo, pois em estados como o Rio de Janeiro a situação é ainda pior (O Globo, "Ensino Médio reprovado", 11/03/07).
A segunda fonte é o filme Pro Dia Nascer Feliz, do diretor João Jardim. Como um grito desesperado, esta película mostra a escola através dos anseios, frustrações, dúvidas e inquietações dos próprios estudantes. A escola é o cenário principal, que na maior parte das vezes revela suas cortinas rotas, madeiras quebradas e uma sensação de falência pairando no ar. O depoimento de alguns professores é deprimente; de outros, real e duro; e finalmente existem os que ainda apontam soluções. O professor aparece como um ser abandonado e sua sensação de impotência ou é resolvida em sessões de análise ou em ausências regularmente permitidas - e nada justificadas. O aluno quer romper com a invisibilidade que o aprisiona, quer ser amado, incentivado e admirado, mas sua realidade geralmente o leva ao baixo salário, à morte, à violência e até à crueldade. Em contrapartida, Jardim nos revela a escola de classe média paulistana e seus sucessos: dali saem os engenheiros, médicos, diplomatas, economistas e todos aqueles que reproduzirão os abismos e portões que separam brancos de negros, ricos de pobres.
Não, cotas não são necessárias para cursos ligados à licenciatura (Pedagogia, História, Geografia, Letras, Matemática etc) e outras carreiras de mediana remuneração mensal. Elas precisam estar nas carreiras que podem levar à mudança e à ascensão social mais visível, que permita uma cor ausente tornar-se presente nos shoppings, supermercados, teatros, cinemas, TVs, etc.
Em 1970 entrei na Escola Municipal Figueiredo Pimentel, em Turiaçu, subúrbio do Rio de Janeiro. Havia ali uma escola que ainda funcionava a contento. Certa vez, professora Laurinda, por exemplo, foi à aula de pé quebrado. Carregávamos sua bolsa e a respeitávamos. Havia dedicação de ambos os lados. No Ginásio já notava algo diferente: a decadência. Hoje, passados 37 anos, penso o quanto lutei para vencer inúmeros obstáculos. A maior parte dos colegas ficou no caminho. Não foi por falta de tentativas. Foram vencidos pelo cansaço: tentaram subir e descer duas montanhas enquanto os outros passaram de um pico a outro voando.
(*) Álvaro Pereira do Nascimento é Professor Adjunto de História do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ e autor do livro A ressaca da Marujada: recrutamento e disciplina na Armada Imperial.