
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
12.10.2006
PARA ENTENDER A VOZ QUE VEM DAS URNAS
Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br
As deficiências e a precariedade do ensino fundamental público no Brasil são um assunto mais que batido. E seria de um cinismo atroz não reconhecer que esse quadro desastroso deve-se em grande parte aos parcos investimentos que historicamente foram feitos nesse setor, bem como à alarmante pauperização dos professores, cujos salários aviltantes tornaram esta carreira desprestigiada.
Mas é preciso reconhecer que não temos nesse caso um problema de fácil solução, capaz de resumir-se na equação: investimentos pesados + salários elevados = educação de qualidade.
Há exatos cinco anos, quando ingressei na Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, eu sabia muito bem o que me aguardava e não cultivava muitas ilusões. Esperava encontrar um salário inferior a mil reais, uma escola repleta de precariedades e uma categoria profissional bastante desestimulada. E tudo isso se confirmou numa escola localizada no subúrbio.
Ainda assim, sempre imaginei a escola pública como a última trincheira de luta contra a perversa estrutura social do nosso país. Até porque, sendo filho de um trabalhador portuário e de uma dona de casa, criado num bairro periférico e pobre da zona central do Rio de Janeiro, foi na escola pública que dei meus primeiros passos nas artes de ler, escrever e contar. E retornar a ela na qualidade de professor foi uma conquista repleta de simbolismos. A começar pela idéia de que finalmente chegara o momento de retribuir à sociedade aquilo que ela me permitiu ser hoje.
Mas mesmo sem cultivar ilusões, a experiência vivida até aqui foi acachapante, frustrante e amarga. Levando-me a refletir sobre até que ponto vale a pena persistir…
Além da escola escura, quente, mal ventilada e cuja aparência não é nada acolhedora ou atraente, visto que assemelha-se externamente a uma pequena carceragem (em que sobram grades e faltam janelas e luz natural); além dos muitos alunos cuja origem social é desagregadora para suas famílias e cujas deficiências a escola não pode resolver; além de tudo isso, a frustração advém da constatação de que essa escola pública, como talvez tantas outras, encontra-se completamente falida.
Tal falência deve-se, entre outros fatores, ao fato de que ali não atuam mais professores, intelectuais, profissionais da educação, pedagogos, educadores, mas sim funcionários públicos contando burocraticamente os dias que lhes faltam para a tão sonhada aposentadoria. Sejamos honestos e não generalizemos, já que esta condição não se aplica a todos, mas à maioria. As honradas exceções são minoria, verdadeiros quixotes da educação pública atual.
Nesse ambiente não se discute mais política educacional, projeto pedagógico, conteúdos programáticos, avaliação, produção de conhecimento, o último livro acadêmico lançado na área de conhecimento de sua disciplina, etc. Nada disso é objeto de debates ou reflexões.
Cada professor faz dentro de sala de aula o que quiser, como quiser e se quiser, sem ter que discutir sua prática docente com quem quer que seja. Tal procedimento é sustentado por um equivocado conceito de regência de turma e protegido pela estabilidade que rege o funcionalismo público como um todo.
Assim, essa escola pública que temos hoje distancia-se cada vez mais do saber, do conhecimento e da sua finalidade precípua - a educação -, tornando-se refém do corporativismo e da mentalidade burocrática e esterilizante que a domina. Aquele que antes exercia a função de educador, agora é apenas alguém que toma conta das crianças em sala de aula, enquanto aguardam pela hora da merenda ou da saída.
É evidente que professores mal remunerados, cumprindo jornadas de trabalho que muitas vezes se estendem pelos três turnos (manhã, tarde e noite), não são os algozes da escola pública. Aviltados, são vítimas de todo esse processo.
Contudo, se ainda quisermos imaginar uma escola pública de verdade, é preciso que cada um seja capaz de avaliar também até que ponto se permitiu aviltar-se e amesquinhar-se. Caso contrário, não conseguiremos contribuir para a formação de cidadãos conscientes do seu papel na sociedade, haja vista que já deixamos de lado nosso papel de educadores.
E um dos trágicos resultados disso tudo acaba de emanar das urnas e levará à Brasília e aos parlamentos estaduais em 2007 uma "nova" safra de senadores e deputados: Collor, Maluf, Clodovil, Wagner Montes, etc.
Não se pode negar o papel que a escola desempenha no campo político…
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.