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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



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12.05.2006
SOBRE UM CERTO ESCRITOR CARIOCA, NEGRO E SUBURBANO

Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

"Se a convulsão não trouxer ao mundo o reino da felicidade, pelo menos substituirá a camada podre, ruim, má, exploradora, sem ideal, sem gosto, perversa, sem inteligência, inimiga do saber, desleal, vesga que nos governa, por uma outra até agora recalcada, que virá com outras idéias, com outra visão da vida, com outros sentimentos para com os homens (…). A vida do homem e o progresso da humanidade pedem mais do que dinheiro, caixas-fortes atestadas de moedas, casarões imbecis com lambrequins vulgares. Pedem sonho, pedem arte, pedem cultura, pedem caridade, piedade, pedem amor, pedem felicidade; e esta, a não ser que se seja um burguês burro e intoxicado de ganância, ninguém pode ter, quando se vê cercado da fome, da dor, da moléstia, da miséria de quase toda uma grande população".

O trecho acima é parte de um artigo publicado na Revista Contemporânea, em 1º de março de 1919, de autoria de um escritor carioca que anda meio esquecido nesse momento em que completa-se 125 anos do seu nascimento. Refiro-me a Lima Barreto, o "mulato de Todos os Santos", nascido a 13 de maio de 1881, cuja obra anda merecendo urgente reedição. Depois de Caio Prado Júnior, à frente da sua Brasiliense, em 1956, ninguém mais ousou publicar os 17 livros/volumes deixados pelo escritor. Afinal, a "Prosa Seleta" em um volume da Nova Aguilar, publicada em 2001, não reúne a sua obra completa.

O trecho do artigo acima foi escrito em meio às nossas turbulentas primeiras décadas do regime republicano, ainda que a atualidade do diagnóstico nos pareça incomodamente surpreendente. A recente Revolução Russa encantara e seduzira Lima Barreto, particularmente no que diz respeito à possibilidade que representava de combater as desigualdades sociais e de se alcançar um governo capaz de empreender uma radical inversão de prioridades. Era o sonho da "convulsão" que substituiria a "camada podre" que nos governa, por pelo menos uma "outra visão da vida", incapaz de aceitar a convivência com a fome e a miséria da maioria da população.

A acalentada "convulsão" salvadora não veio e Lima Barreto terminou seus dias - precocemente falecido aos 41 anos de idade - como um dos inesquicíveis personagens que criou, o quixotesco Policarpo Quaresma. Desencantado com a República maculada pelo autoritarismo de Floriano Peixoto, Policarpo faria uma triste constatação encarcerado nas masmorras da Ilha das Cobras: "a pátria que quisera ter era um mito, um fantasma…" O escritor também quis ter um Brasil - e lutou por isso - que só existiu no sonho e no desejo, tornando-se igualmente mito, fantasma...

Contudo, para que os 125 anos do nascimento deste singular escritor não passem em branco, talvez seja oportuno resgatarmos um pouco da importância histórica da obra de Lima Barreto. Refiro-me não apenas aos romances - dentre os quais destacam-se os mais conhecidos, como Triste fim de Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos e Recordações do Escrivão Isaías Caminha - mas também os seus contos, crônicas, artigos, cartas e diários que compõem aquela edição da década de 50 e nos colocam em contato com esse país sonhado pelo literato. De lá pra cá, grande parte da sua obra só está acessível para os freqüentadores dos bons sebos ou dos salões das boas bibliotecas. Seus mais de 500 artigos e crônicas publicados em diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro do início do século - como a Careta, A.B.C., Correio da Noite, Hoje, O Debate, A Estação Theatral e tantos outros - compõem uma atração à parte em sua obra. São textos como o da Revista Contemporânea, produzidos no calor da hora, reflexões breves sobre os recentes acontecimentos, mas que contagiam o leitor com uma indignação que anda em baixa nos últimos tempos.

Até recentemente, só mesmo Caio Prado tivera a coragem e a ousadia de reunir todos esses pequenos textos em 6 livros editados pela última vez em 1956. Em 2004, Beatriz Resende e Rachel Valença organizaram Toda Crônica, em 2 grossos volumes, publicados pela Editora Agir, preenchendo essa lacuna. Somados aos romances, Marginália, Bagatelas, Vida Urbana, Feiras e Mafuás, Coisas do reino do Jambon e Impressões de leitura, compõem um precioso painel da literatura e da história do Brasil e, em particular, do Rio de Janeiro da República Velha. Trata-se de poder viajar no tempo, guiado pelo inigualável senso crítico e irônico de Lima Barreto. Um escritor obstinado que abriu mão de tudo em nome da sua opção pela literatura: "Eu quero ser escritor, porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei. Queimei os meus navios; deixei tudo, tudo, por essas coisas de letras".

O que mais seduz nessa série de artigos e crônicas pouco conhecidos é sobretudo a ótica do autor. Quem escreve é mesmo o mulato de Todos os Santos, morador do subúrbio carioca em expansão, que recebe a crescente massa de habitantes pobres expulsos das áreas mais nobres da cidade a partir das reformas urbanas iniciadas por Pereira Passos. Lima Barreto se propõe a ser porta-voz dos excluídos e olha a cidade e o Brasil a partir da sua "Vila Quilombo" - nome sugestivo e provocador que deu à sua residência naquele bairro suburbano, só "para enfezar Copacabana", como escreveu na Gazeta de Notícias pouco antes de morrer.

Os leitores mais novos também estão privados de percorrer o diário e a numerosa correspondência do escritor, um verdadeiro mergulho na alma do literato. Nestas páginas estão registradas a iniciação literária de Lima Barreto, sua obstinação em tornar-se escritor e as incontáveis dificuldades de ordem pessoal que enfrentou ao longo da vida, como o alcoolismo, as internações forçadas no hospício e o pai enlouquecido do qual cuidou em casa - ao invés de interná-lo - durante quase 20 anos.

Há também preciosidades que o tempo vai progressivamente devorando. Estão na Biblioteca Nacional dois dos quatro números da revista Floreal, cada um com 40 páginas, que tinha como diretor, editor e mentor intelectual Lima Barreto. No artigo que abre o número inicial, o escritor aponta a linha a ser seguida: "É uma revista individualista, em que cada um poderá, pelas suas páginas, com a responsabilidade de sua assinatura, manifestar as suas preferências, comunicar as suas intuições, dizer os seus julgamentos, quaisquer que sejam". Pois a Floreal também continua aguardando por quem possa resgatá-la do esquecimento numa merecida e bem cuidada reedição em livro.

Enfim, talvez tenha chegado a hora de associar ao dia 13 de maio não só a lembrança do aniversário da Abolição da escravidão, mas também do aniversário de nascimento de Lima Barreto, naquele longínquo 1881. Além disso, já que completam-se 125 anos do nascimento do escritor, quem sabe também é chegada a hora de uma digna reedição dos 17 livros que compõem a sua obra?

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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