
Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com
11.10.2005
ENTREVISTA: LIA FARIA
Professora-Doutora da Faculdade de Educação da UERJ
A Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com
"O que temos hoje é um modelo globalizado de universidade, com uma visão tecnológica e tecnocrática"
Historiadora e jornalista. A censura e falta de liberdade de expressão da ditadura militar a levou para um outro rumo: a educação. Uma paixão que se traduz numa luta de 40 anos pela educação pública, assistindo ao desmantelamento da universidade e do ensino básico pelas políticas neoliberais. Lia, subcoordenadora de pesquisa num projeto de recuperação da Memória da Educação Fluminense, narra os problemas internos da universidade pública e da sua tradição elitista e excludente.
Porque a opção pela educação?
Nos anos 60, como uma jovem amante da palavra e também da fala, fiz o curso de jornalismo na antiga Faculdade Nacional de Filosofia. Tive como professores Zuenir Ventura e Fernando Gabeira. Foram três anos muito difíceis, de 1965 a 1967. Já apontava para o AI-5 em 68 e minha turma, praticamente toda, abandonou o jornalismo. A Nacional de Filosofia foi desmontada e como eu já era professora primária e sempre gostei muito de educação, que tem tudo a ver com a comunicação, com a palavra, no trabalho com gente, eu resolvi fazer faculdade de história. Aí peguei realmente aqueles anos de chumbo, o desmonte da universidade brasileira, pública, que foram os anos de 68 a 71. Minha cachaça, minha paixão política, minha luta ao longo dessas 40 anos é pela escola pública. Não me arrependo de nada. Vivi numa geração que tinha sonhos, utopias.
Qual a importância da educação para a conscientização política e para a cidadania?
A clareza que eu tenho da importância estratégica da educação passa justamente pelo viés da conscientização política. Essa proposta econômica e política do país concentra as riquezas do país cada vez mais nas mãos de pouquíssimas pessoas. Não tem interesse, nunca teve, de dar uma escola pública de qualidade, porque ela é subversiva, porque contraditoriamente ela reproduz, porque ela é um aparelho do estado, uma instituição da sociedade que por trabalhar com o pensamento, com as idéias, contraditoriamente também liberta.
"Falta pensar a educação enquanto direito de cidadania"
Qual o futuro que você enxerga para a universidade pública no Brasil?
A universidade pública atravessa uma crise muito séria que é o resultado dessas políticas dos anos 90, década perdida para a coisa pública. Se você pegar o sistema público estadual e universitário a década de 90 e esses cinco primeiros anos do século XXI é um tempo de tragédia. Por que digo isso? Porque acho que a fragmentação, a competitividade, a desrepublicanização, a perda do sentido e do significado da reles pública é muito grande e colabora para esse quadro terrível de corrupção que o país afundou.
A principal crítica da Reforma Universitária é que esta é uma privatização velada. Qual é a sua opinião como educadora?
A principal questão passa pela concepção de direito público. Acho que damos muito pouca importância à legislação, falta clareza em relação à Constituição Federal, do capítulo sobre educação, do direito à educação durante toda a vida, básica e universitária. Falta pensar a educação enquanto direito de cidadania. Então eu acho esse papo de autonomia financeira, de auto-gestão, acho que tudo isso está muito pouco claro, principalmente para os alunos. Você tem que discutir o direito à educação desde a base, a alfabetização, cada vez que a gente divide as lutas, entre os professores do primário, da prefeitura tal, do ensino médio, a gente se enfraquece. A universidade não pode ser mais importante do que as séries iniciais porque é lá embaixo que esse funil da fragmentação, da exclusão, se constrói. Se a escola pública não for boa, nós jamais teremos universidade pública boa e que tenha a consciência de seu papel.
"Essa mídia perversa, medíocre e horripilante está levando a um processo de bestialização da população"
As universidades, citando principalmente a UERJ, que não tem bandejão, mas restaurantes com altos preços, parece carecer de assistência estudantil e a unidade do movimento estudantil...
Os jovens de hoje são de fato muito alienados, despolitizados. Essa mídia perversa, medíocre e horripilante está levando a um processo de bestialização da população e isso atinge também os jovens da academia e da universidade. Até hoje a forma de avaliar os professores, a questão do currículo lattes [modelo curricular do CNPq - Conselho Nacional de Pesquisa] levou a uma excessiva individualização. Então, a competitividade, a ambição pessoal do corpo docente das universidades públicas hoje é assustadora. A UERJ de hoje é do salve-se quem puder, cada um na sua. Vamos produzir, lançar livros. Vamos nos dedicar às nossas pesquisas, cuidar da nossa sala. São vários donatários intelectuais acadêmicos com suas capitanias hereditárias. Então eu acredito, urgente, que a gente precisa repensar o sentido e o significado da coisa pública.
Você não acha que Academia está muito afastada dos anseios do povo, como se o conhecimento estivesse aqui aprisionado?
Aqui você entra na teoria da exclusão. O professor, a universidade está distante do aluno. Existe um abismo cultural, de classe social, de etnia e de raça. Quantos professores negros são doutores titulares? É de se contar nos dedos. Na faculdade de educação, onde eu trabalho, não tem professor negro titular. O Brasil é negro, é mestiço, grande parte da população é analfabeta funcional, essas pessoas ainda não estão na universidade e os poucos que estão conseguindo chegar continuam sendo excluídos porque não possuem acesso aos bens culturais, o conhecimento que a classe média rica tem. A universidade pública até hoje serviu a quem? Aos brancos, classe média e aos ricos. Mudar isso é um processo longo e passa pela identificação da crise que a sociedade brasileira está vivendo, de perda de valores morais, perda de princípios éticos, que isso se reflete também, claro, no meio universitário. Nós fazemos parte de uma sociedade civil que tem o povo excluído, basta ver os dados da ONU, do IBGE, da UNESCO. Nossos índices de escolaridade são os piores, os níveis da compreensão do aluno na leitura de um texto são os piores. Mais da metade da população é analfabeta funcional. Do ponto de vista ideológico a universidade piorou, hoje é mais alienada, menos comprometida, com o aluno da graduação. O grande projeto de professores universitários é estarem no programa de pós-graduação, eles querem estar fazendo pesquisa, publicando. A produção acadêmica exige isso para atender ao MEC (Ministério da Educação e Cultura) e o Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que ditam as normas, absolutamente marcadas pelo Banco Mundial e uma de suas instituições o Bird (Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento), pelo Consenso de Washington e pelo ideário neoliberal, de competência, de eficiência. Não é um projeto de utopia nacional, não é um projeto de nação, que contém elementos da nossa cultura, da nossa brasilidade. Não é um projeto de Darcy Ribeiro, de universidade necessária, de Anísio Teixeira. Porque Darcy e Anísio propunham um projeto de universidade pública, nacional e brasileira. O que temos hoje é um modelo globalizado de universidade, com uma visão tecnológica, tecnocrática, de competências.
Explique a idéia do Núcleo de Memória da Educação Fluminense e por que a opção pela história oral.
Registrar a própria memória é fundamental pra que as pessoas jovens possam revisitar o passado e dali tirar lições, até dos erros, não só dos acertos. Um outro aspecto é que minimamente uma Universidade do Estado do Rio de Janeiro tem a obrigação como pública de estar contribuindo com os 92 municípios desse Estado suscitando linhas de pesquisa, estudos e diagnósticos de situações sócio-econômicas para que os governantes, administradores e gestores possam estar elaborando um planejamento estratégico em cima de dados reais que a universidade, através dos seus institutos de pesquisa, estarão ofertando a esses administradores. Nós temos um site (www2.uerj.br/~lppe/NMEF), temos uma média de 600 títulos de arquivo jornalístico, centenas de horas de entrevistas, dois vídeos produzidos que estão disponíveis gratuitamente na biblioteca do 10º andar da UERJ sobre as Professoras Myrthes Wenzel e Maria Yeda Linhares. Em janeiro, estamos indo também com o pessoal do Arquivo Nacional iniciar um grande projeto na região serrana que é a recuperação do ciclo do café envolvendo meio-ambiente, educação e cultura.