
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
10.03.2006
ESCOLA x ESCOLHA
Por Luiza Pimentel Ferreira da Silva - redacao@fazendomedia.com
É conhecida a história de um jovem que, em plena Resistência francesa, durante a Segunda Guerra Mundial, procurou Sartre para propor-lhe um torturante problema: acabara de receber uma mensagem dizendo que sua mãe, refugiada na Inglaterra, estava à morte e o chamava. Ao mesmo tempo, seus compromissos de combate obrigavam-no a permanecer em território francês. O jovem, dilacerado, não sabia o que escolher e, por este motivo, apelou para Sartre. O filósofo, ao invés de decidir, mostrou-lhe que a escolha buscada se definiria não antes, mas depois de sua ação concreta. Ele, portanto, só a conheceria após ter agido. Se fosse para a Inglaterra, pagando o preço de abandonar a Resistência, saberia de sua decisão de sobrepor a devoção filial ao compromisso com a libertação. Se, ao contrário, permanecesse na França, sem assistir à agonia da mãe, tomaria conhecimento de sua opção de dar prevalência ao dever de combatente. Tal exemplo, simples e severo, me parece adequado para ilustrar as relações constitutivas entre a práxis e a liberdade. Liberdade é ação, é valor encarnado, apto a afeiçoar - e a modelar - um projeto existencial. O processo ativo capaz de tomar viável uma possibilidade, dando-lhe concretude, é que revela o cerne da escolha humana - seu rosto verdadeiro. Não há liberdade abstrata. A liberdade é o centro da existência humana. A ela, segundo Sartre, estamos condenados.
- Fragmento do texto Teologia e luta de classes, no livro A BURRICE DO DEMÔNlO de Hélio Pellegrino - Editora Rocco.
Se - de acordo com Sartre - estamos condenados à escolha, que papel tem a Escola na preparação para esta condenação?
O processo educacional privilegia a transmissão de conhecimentos e o faz através de uma metodologia baseada na memorização. Ora, se o processo se baseia na memorização e se não se pode memorizar a dúvida, a opção, a conseqüência é que a Escola não oportuniza adequadamente o exercício da escolha.
E por que o processo se dá dessa forma?
Poderíamos dizer que é por ser parte da tradição da escola, mas isso só seria verdade no que se refere, talvez, ao último milênio uma vez que esse não é o método nos legado por Sócrates, de cuja cultura somos herdeiros através dos romanos. Portanto, o questionamento socrático perdeu-se em algum momento da história da Educação. Acreditamos que essa perda se relaciona com o grande aumento do número de discípulos/alunos para cada mestre/professor.
Poderíamos especular sobre a possibilidade de ser essa metodologia um instrumento de dominação considerando-se que cidadãos assim educados não praticam o questionamento das autoridades, porém essa possibilidade não nos parece exatamente verdadeira uma vez que o professor tem grande liberdade de atuação na sua prática didática.
Poderíamos, ainda, considerar a alternativa de ser uma conseqüência da formação do profissional da Educação. E, em parte, o é, mas, aí, estaríamos retomando às duas considerações acima e nos depararíamos com um círculo vicioso que, aparentemente, nos deixaria sem saída. Mas, se estamos aqui refletindo sobre essa questão, é porque, na verdade, o círculo vicioso não se mantém permanentemente.
Ele não se mantém porque a vida nos oportuniza e até nos obriga a optar. E, bem ou mal preparados, exercitamos a escolha.
Neste momento, a nossa reflexão nos remete à questão do quanto a Escola pode ter uma participação significativa no exercício da escolha.
Assim, vejamos algumas condições que favorecerão uma mudança no atual estado de coisas:
- debate sobre a questão da Educação na mídia para que essa discussão se torne imperiosa dentro da sociedade e das instituições educacionais;
- uma forte pressão da sociedade no sentido de que o número de alunos em sala de aula diminua muito e, assim, favoreça um trabalho diferenciado do atual;
- uma pressão igualmente forte para que o professor possa ter condições de oferecer dedicação exclusiva a uma única instituição educacional;
- promoção de cursos de atualização do magistério no sentido de privilegiar uma atitude participativa do aluno no desenvolvimento de suas potencialidades intelectuais tais como observação, comparação e discriminação, construção de conceitos, aplicação de princípios, resolução de problemas e geração de estratégias.
Temos clareza de que as condições acima citadas são difíceis de serem alcançadas e de que o alcance das mesmas demandará um longo tempo e uma persistente discussão do papel da escola na formação dos cidadãos.
Mas, como disse Sartre, estamos condenados à liberdade. E, se a liberdade só existe na ação, comecemos pela sempre salutar discussão da questão!
Luiza Pimentel Ferreira da Silva é Professora de Língua Portuguesa formada pela UFF e atualmente licencia em Niterói (RJ), na Escola Municipal Professora Nair Valladares.