......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


09.07.2006
ENTREVISTA: VIRGÍNIA FONTES

A Raquel Junia - contato@fazendomedia.com

De um lado, prateleiras de livros até o teto. De outro, uma bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sobre uma poltrona. Os objetos dizem algo sobre Virgínia Fontes, coordenadora de cursos da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST. Com didática, a também professora da pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora do livro Reflexões Im-pertinentes (Bom Texto, 2005) respondeu às perguntas do Fazendo Media. À medida em que analisava a Revista Veja, fazia observações na folha de papel como se planejasse uma aula.

Em reportagem da Revista Veja de 14 de junho sobre a ação do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) no congresso nacional, a revista chama o Marxismo de “Marxzheimer”, em referência à doença de Alzheimer. A Veja considera o Marxismo uma doença social que produz miséria física e mental e que é responsável pelas ações dos movimentos sociais brasileiros. Pode falar um pouco sobre isso?
Se não fosse tão irritante ler a Veja, seria divertido. Esse argumento de que a contestação do capitalismo é uma doença é o argumento da ditadura militar. Toda a doutrina de segurança nacional a partir dos anos 50, que foi utilizada para dar o golpe de Estado no Brasil em 64 e sustentar a ditadura civil e militar, foi baseada exatamente na idéia de que qualquer contestação do capitalismo e das formas de propriedade dominante era um vírus. Contra essa doença, o remédio que eles tinham para oferecer, da mesma maneira que a Veja oferece, é a repressão. Cadeia, morte, manter à míngua, impedir que sobreviva, etc... Essa é a proposta clara da revista. A grande questão da Veja quando chama o Marxismo de “Marzheimer”, e ela reconhece isso, é que o marxismo não tem “cura”, essa é a grande dificuldade da revista.

E por que não tem “cura”?
Não terá “cura” enquanto houver capitalismo. O funcionamento do capitalismo repousa sobre a necessidade da expropriação dos trabalhadores diretos. Eles têm que estar livres para o mercado. Mas em que consiste essa liberdade? Em não ter condições de subsistir sozinho, de sobreviver socialmente a não ser vendendo a sua força de trabalho. E o que é pior ainda, tentar vender essa força de trabalho sem ter certeza de que alguém vai querer comprá-la. Os trabalhadores têm que se engalfinhar entre eles para conseguir a força de trabalho. Enquanto houver capitalismo, portanto, haverá luta contra esse sistema. Então, não é à toa que a revista se preocupa. A Veja é mais do que propagandista. O papel dela é formar a cabeça de um grupo grande, sobretudo daqueles que têm função de pequeno comando nessa sociedade. São aqueles que têm medo de perder o emprego devido à miséria que vêem em volta, medo dos miseráveis. Essas pessoas em postos de comando precisam ser reforçadas para não terem medo desses miseráveis e atacá-los, combatê-los. A Veja não é a única que tem esse papel, mas é a que tem de maneira mais importante no conjunto das publicações brasileiras. É a revista mais ideológica que temos, uma publicação de ponta do neoliberalismo pouco democrático. A revista lida de uma maneira ambivalente com a maioria da população. De um lado, os pobrezinhos, os humildes, modestos, que estão lá apenas esperando a chance de ficarem ricos. De outro lado, os monstros, os vândalos, que estão lá prontos para agredir na primeira esquina em que você vire as costas. Isso nada tem a ver com democracia, embora a revista esteja defendendo as instituições que a ela interessam. O governo manda uma fortuna para manter essa revista, paga a Vejinha em sala de aula para fazer a cabeça dos professores e dos alunos. O que o governo paga para a editora Abril é muito mais do que os milhões que a revista denuncia que eventualmente vão para os movimentos sociais.

A Veja chama na capa da mesma edição o MLST de “PTbull”, “braço armado de PT”. Então, a mesma revista que faz isso recebe verbas do governo?
Se o MLST é o “PTbull”, a Veja é o Caveirão (carro blindado usado em incursões da PM nas favelas do Rio de Janeiro), atirando sem nem querer saber para que lado vai. A Editora Abril recebe publicidade, vende revistas direcionadas para o ensino público na maioria das escolas públicas, foi a editora do Mobral (Projeto de alfabetização de adultos do governo federal durante a ditadura de 1964). A Abril fez fortuna na ditadura editando material do Mobral, montou seu grande parque gráfico, o maior da América Latina, em parte com esses recursos. O Estado é um lugar de luta de classes. Assim sendo, a Veja está muito bem contemplada como classe dominante no interior desse estado. Ela, então, logicamente se irrita ao ver setores populares tentando ter também um pedaço nesse latifúndio.

A Veja então tem medo de uma luta de classes, que é um conceito criado por Marx, e reconhece que essa luta pode acontecer?
Exatamente. A Veja é uma revista de combate, de luta de classes dos setores dominantes. Então ela procura forjar, digamos, os seus escalões inferiores, porque os escalões superiores dessa luta, ainda que leiam a Veja, na verdade, são forjados mais por revistas como a Exame. O conjunto de publicações da editora Abril mantém uma certa coerência. As publicações estão voltadas para anestesiar a maioria da população com relação a seus direitos sociais e também para assegurar aos setores dominantes a legitimidade para a sua ação de classe. A editora Abril tem uma seqüência de publicações para grandes empresários, tem as antigas fotonovelas, que agora se tornaram revistas de fofoca, sem texto, que são um projeto de deseducação feminina. As organizações Globo e a Veja têm uma intimidade muito grande no tipo de atuação. A função nacional delas não é muito distante. Então, é lógico que a Veja tem razão de ter medo, porque existe mesmo luta anti-capitalista no Brasil e é preciso que tenha essa luta. As condições de vida da maioria da população aqui e na América Latina são terríveis porque só assim é possível engordar essas vinte mil famílias riquíssimas. Essa maioria vai ter que aprender a brigar contra eles.

Outra afirmação da revista é a que grande parte das pessoas que estão nos movimentos sociais do país, como os movimentos pela reforma agrária, são cooptadas, pessoas humildes e sem formação. Você era coordenadora de um curso de formação de militantes, o Realidade Brasileira, uma parceria da Universidade Federal Fluminense com o MST e também leciona na Escola Nacional Florestan. Então, existe uma preocupação desses movimentos em educar seus integrantes?
Já tinha comentado esse duplo viés com o qual a Veja trata a maioria da população. De um lado, eles são humildes, incapazes, impotentes; de outro, são ferozes. A educação que é proposta para eles é uma educação de apassivamento, hoje feita de inúmeras formas. É um projeto educativo de classe dominante que tem como objetivo impedir que essa população tome consciência das contradições da vida social na qual ela existe e que aposte todas as suas energias ou em tentar competir contra outros no gargalo do mercado de trabalho ou, ao contrário, que tentem se vender de alguma maneira. Bom, isso é o contrário do que trabalhamos nos cursos de formação. Trabalhamos em cooperação entre universidades e o MST, como é o caso do Realidade Brasileira. Ali se trata de socializar ao conjunto de estudantes de base popular o que de melhor a gente tem do conhecimento crítico na universidade. Trata-se de ler de fato textos densos e não de mastigar dropes como essas revistas fazem. Qual é o grande desafio que temos? Conseguir trabalhar um conhecimento que pense a plenitude humana em todas as suas vertentes. Nada é mercantilizado em nossos cursos, nossos professores não são remunerados por fora. Na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST, em São Paulo, participam os melhores professores das mais importantes universidades públicas do país. É uma das coisas mais gratas trabalhar nessa escola, onde o trabalho é contínuo, onde deixamos todas as portas abertas porque não é necessário trancar, onde esqueço a minha bolsa pelo menos quinze vezes por dia em todos os lugares. É um lugar onde nos tornamos mais do que hierarquicamente professores junto a uma turma; nos tornamos companheiros, aprendemos toda uma experiência de vida que eles trazem e socializamos todo um conhecimento que está capturado dentro dos muros da universidade. É uma das experiências mais bonitas que eu tenho vivido.

O pensamento marxista existe apenas na América Latina como foi colocado pela revista?
A Veja adoraria isso, mas não. Precisamos ter cuidado ao falar de um conceito como o marxismo de maneira vaga, corremos o risco de ficarmos numa abstração muito grande. Uma coisa é a obra do Marx, escrita no século XIX, que é uma grande crítica à economia política, ao capitalismo e à condição pela qual o capitalismo coloca a economia como central na vida social. Outra coisa é falar do conjunto de obras de marxistas. E outra ainda das experiências revolucionárias. Então, existem três terrenos. Não é possível eliminar da experiência do conhecimento humano a reflexão marxista. Todos sabem disso. A tal ponto que os centros de formação de inteligência neoliberal lêem Marx. Temos marxismo na América Latina, na Ásia, na África, na Europa e nos EUA. Existe marxismo no mundo inteiro, porque existe capitalismo no mundo inteiro. Não é hoje uma força política organizada capaz de revolucionar o mundo, enfrenta muitas dificuldades. Mas ainda é o eixo teórico mais consistente. Esse eixo se desenvolve internacionalmente, aliás, de maneira impressionante, ainda que tenhamos partidos e movimentos políticos mais frágeis, que ainda não estão consistentes. Mas quem conhece um pouquinho de história internacional sabe que no Paquistão temos lutas marxistas importantes, na Índia, isso não se resume à América Latina.

No Brasil, a chegada de Lula à presidência da República, expoente de um partido considerado de esquerda, mas que manteve práticas de governos de direita, criou uma confusão entre os conceitos de direita e de esquerda?
O próprio PT na década de 90, mas principalmente a partir do ano 2000 começa a se separar do seu programa de luta, que tradicionalmente era um programa de organização das bases populares, de ampliação do eixo sindical, de defesa das conquistas universais na política. O PT começa aos poucos a se desvincular desse programa achando que essa desvinculação garantiria para ele a eleição. O governo Lula, portanto, abriu mão das suas reivindicações universais e inverteu sua bandeira nos primeiros cinco meses de governo. Assistimos hoje a um fenômeno que o Gramsci chama de transformismo. O PT se transformou numa espécie de esquerda para o capital. Ele é o braço esquerdo da atuação do capital. É triste... E é muito eficiente, porque os próprios capitalistas não conseguem chegar até a ponta onde o PT consegue chegar porque tem uma história popular. Então, para que essa parcela do PT ocupe essa posição, ela precisa ter a vinculação com alguns setores populares. Isso significa que mal ou bem alguns setores populares vão ter que ser contemplados nesse processo. Uma outra confusão prima dessa primeira é o fato de que o grande empresariado nacional e internacional, associados, procuram capturar as palavras de ordem e as lutas sociais de base popular e canalizá-las por meio de entidades próprias, das fundações e organizações da sociedade civil sem fins lucrativos. Como? Você tem sofrimento real, por exemplo, de discriminação racial. Você transforma pequenos grupos combatentes anti-racismo em vendedores de projetos para a Fundação Ford para fazer pesquisa sobre o racismo, conquanto que essa pesquisa não ofereça nenhum problema. Esse é apenas um exemplo, temos Fundações como a Bradesco, a Ethos. Temos o termo responsabilidade social empresarial. Em O Globo há um caderno com o nome de Responsabilidade Social.

A mídia pode cumprir um papel diferente do que vem cumprindo hoje, no sentido de mostrar as contradições desse sistema?
Não só pode, como deve. E é urgentíssimo. A mídia é o conjunto dos meios a partir dos quais deveríamos difundir e socializar conhecimento. É fundamental. O que acontece com a grande mídia brasileira? Ela menospreza a inteligência popular, trata a população como se fosse imbecil, dá ordens, faz revistas nas quais não há mais texto, ela desalfabetiza, deseduca. Nós precisamos de meios que respeitem a inteligência da população, que socializem os conhecimentos que existem, que sejam capazes de produzir de fato debates reais. A mídia hoje é meio unicamente de convencimento mercantil. É uma grande indústria, não é mais serviço. Na França, por exemplo, é dominada pela indústria de armas, no Brasil é monopólio de três, quatro famílias. Portanto, nesse terreno precisamos avançar e muito. Estão erigindo obstáculos à democratização da comunicação. Obstáculos à existência de TVs e rádios comunitárias, de jornais populares. A Veja não se incomoda que o governo coloque anúncio em todas as publicações da Abril, exceto na própria revista, mas ameaça diretamente o governo se ele colocar anúncio em qualquer jornal popular. Estou apenas dando um exemplo, não acho que a imprensa popular deve ser mantida pelo governo, acho que deve ser mantida pela própria população. Acho que temos que reaprender nossas formas de luta e avançar nelas. Já temos uma série de publicações, precisamos agora construí-las em conjunto, não temos como dispensar energia em muitas publicações soltas, precisamos condensá-las.


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