......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



08.11.2006
O LUGAR DO PROFESSOR NO ENSINO À DISTÂNCIA

Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

O chamado ensino à distância há algum tempo já se tornou uma realidade entre nós. Alavancados pela difusão das novas tecnologias, cada vez mais multiplicam-se os cursos não presenciais em diferentes níveis de ensino.

Freqüentemente esse assunto tem sido tratado de forma superficial e leviana, ensejando inclusive o anúncio da morte da já combalida categoria profissional dos professores.

Quando a televisão foi introduzida nas salas de aula também trombeteou-se por aí a progressiva substituição dos mestres pelo sedutor artefato tecnológico, que o jornalista Sérgio Porto - o Stanislaw Ponte Preta - já classificou como "máquina de fazer doido". A substituição não veio e hoje professores e televisão convivem harmoniosamente.

É verdade que o computador conectado à internet parece bem mais ameaçador à sobrevivência dos docentes convencionais em face da interatividade. Afinal, enquanto a TV exigia um telespectador passivo, o computador exige interação. Mas será isso suficiente para pôr fim às aulas presenciais?

O professor Marco Silva, da UERJ, apresenta uma rica e interessante reflexão sobre o tema, que de forma pertinente e mais abrangente denomina de interatividade (ver http://www.saladeaulainterativa.pro.br ). Autor de alguns livros sobre o assunto, ele observa que é mais do que urgente repensar a atitude do professor em sala de aula.

Nesse sentido, propõe uma espécie de pedagogia do parangolé, inspirado na concepção da obra de arte desenvolvida por Hélio Oiticica. Como se sabe, o parangolé não é feito para ser observado, mas sim vestido e usado. A arte não é só apreciada, ela ganha sentido a partir do momento em que o espectador abandona sua condição de observador e a utiliza. Fazendo uma analogia entre a arte e a produção do conhecimento, há que se romper com a passividade nos dois casos.

Mais que isso, há que se abandonar a matriz iluminista e positivista que rege o trabalho da maioria dos docentes, supostamente detentores de um saber a ser transmitido ao aluno supostamente ignorante. Várias teorias da educação já propuseram esse novo paradigma, colocando em relevo a capacidade de elaboração e o conhecimento que todo educando sempre traz consigo, seja ele quem for.

A partir dessa perspectiva, o ensino à distância encaixa-se como uma luva nas mãos dos falsos e levianos arautos da interatividade, entre os quais evidentemente não se inclui Marco Silva. Afinal, dizem eles, se nada temos a ensinar, mas apenas a orientar, visto que somos facilitadores da aprendizagem, por que não fazê-lo através da tela de um computador?

De qualquer modo, estamos longe de prescindir dos professores em sala de aula. Até porque alguns obstáculos apresentam-se intransponíveis, por ora, para a concretização do ensino à distância. Vejamos aqui brevemente alguns deles, propondo ao leitor que reflita sobre outros mais, procurando evitar - em nome da sensatez e do equilíbrio - jogar fora a água do banho e o bebê juntos...

Primeiramente é preciso considerar que o computador ainda é um equipamento ausente na maioria dos lares pelo Brasil afora. E o acesso à internet, seja discado, seja através de banda larga, é ainda mais restrito, por mais que tenha se expandido extraordinariamente nos últimos anos. A verdade é que o computador conectado à internet é um luxo para uma população cuja maioria ainda está empenhada em assegurar sua mera sobrevivência.

Por outro lado, para determinadas instituições de ensino privadas, o ensino à distância apresenta-se sobretudo como um negócio promissor, capaz de multiplicar os lucros na medida em que lhes assegura um expressivo corte de custos com salários e manutenção de infraestrutura.

Por fim, o quanto haveríamos de perder sem o contato olho no olho com mestres em cujas aulas sedimentamos vocações e definimos futuras escolhas profissionais? Mestres cujas palavras, pronunciadas no interior das salas de aula, foram determinantes para nossas vidas. Prefiro imaginar que a tecnologia poderá ser sempre um poderoso aliado dos professores, sem contudo jamais substituí-los.

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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