
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
08.04.2006
"NÃO É O CASO DE VOCÊS"
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
"Entrei no Fazendo Media, li alguns textos, achei legal. Mas, não tenham ilusões. Vocês não têm chances de entrar no mercado. Lá não há espaço para esses devaneios", disse a professora após abrir a aula com a leitura de uma matéria da revista Quem e de naturalizar (aquele naturalizar elogiando) o exaustivo processo de fechamento da revista Veja.
O que entristece não é nem essa certeza da professora de que não há espaço para o Fazendo Media no mercado. Disso sabemos e, para ser sincero, não chega a incomodar. Aqui, nossa proposta é outra, como bem sabem os poucos e fiéis leitores que nos acompanham. Também não entristece essa classificação que oferece a nossos textos. "Devaneio" até que está de bom tamanho; em outras épocas, quem sabe, seríamos rotulados de "comunistas" ou "terroristas".
Na verdade, o que entristece é o maniqueísmo do ensino que toma conta da maioria dos cursos de comunicação. A Academia está cada vez mais voltada para as necessidades do tal mercado de trabalho. Para mostrar serviço, prepara o aluno para agradar o sistema e não para incomodá-lo. Em outras áreas, isto é ruim. Entretanto, no caso do jornalismo, isto torna-se extremamente perigoso. O jornalista é aquele que supostamente deveria informar a sociedade para que cada cidadão tome suas decisões da melhor maneira possível. E como garantir uma boa informação a partir desse viés conformista, num tempo em que as corporações (o tal mercado) mentem, fraudam, destroem o planeta e tudo o mais para garantir seus lucros?
Durante a aula, a professora em questão considerou a existência de apenas três revistas semanais de informação: Veja, IstoÉ e Época. Disse para a turma coisas como "não tenham ilusões" e "o mercado que está aí é esse", etc. Logo depois disse que "fora isso, só as revistas opinativas, como Caros Amigos, mas para entrar nessas revistas é preciso ter muita experiência, muito conhecimento acumulado e, definitivamente, não é o caso de vocês".
Pela enésima vez, quero deixar claro que nada tenho contra trabalhar na mídia grande. Muito pelo contrário, acho ótimo. Lá se aprende muito, ganha-se relativamente bem. Ademais, sempre será possível se dedicar ao trabalho autoral durante o tempo livre.
De certo modo, em razão da concentração crescente no setor de mídia, a Universidade fica numa situação realmente complicada. Resistir torna-se, de fato, cada vez mais difícil. No entanto, acredito que os professores poderiam ao trabalhar em sala com veículos que tenham uma outra linha editorial. Porque, no final das contas, fica parecendo que existe apenas um pensamento, o de direita, o tal pensamento único, e que não há alternativa fora dele.
Em meio a tudo isso ainda existe a confusão - infantil, a meu ver - sobre a classificação das revistas (entre "informativas" e "opinativas"). Mais uma vez a Academia aceita o mito da imparcialidade jornalística. Para ficar em apenas um exemplo: quem garante que o texto de Veja não é extremamente opinativo, ainda que travestido de reportagem? Perguntas como essa poderiam contribuir muito para ampliar a percepção dos alunos.
PS: Na reportagem sobre o astronauta brasileiro, o Jornal Nacional de ontem disse que a cápsula "cai numa velocidade 28 mil km/h, 220 metros por segundo". Como aprendemos nas aulas de física, para converter de km/h para m/s basta dividir por 3,6 e para converter de m/s para km/h basta multiplicar por 3,6. Portanto, 28 mil km/h equivalem a 7,8 mil m/s.