......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com


07.09.2005
A LÓGICA BINÁRIA DA ADUFF

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

"Quem é contra a greve é a favor da privatização da universidade pública", "quem é contra a greve é porque ainda tem esperança no governo Lula", "quem é contra a greve é a turma do mensalão", "quem é contra a greve quer fragmentar a luta dos trabalhadores", "quem é contra a greve quer deslegitimar as entidades que representam os trabalhadores", "quem é contra a greve incentiva o individualismo". Essa foi a tônica da Assembléia Geral da Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizada ontem (06/9), no auditório Florestan Fernandes, no campus do Gragoatá (Niterói/RJ).

Dos que falaram a favor da manutenção da greve, a esmagadora maioria ficou nesse discurso simplista e que atende meramente a uma pobre lógica binária. Nas cabeças ocas que o proferem, um cidadão não pode, sob qualquer hipótese, ser favorável às reivindicações dos professores e, ao mesmo tempo, contra a greve enquanto método de se alcançar tais reivindicações. A propósito, essa foi justamente a posição deliberada pelos estudantes de Comunicação Social da UFF: apoiar as reivindicações dos professores, mas procurar outros instrumentos de luta, que não a greve.

Mas isso não foi informado pelo representante do Diretório Central dos Estudantes, Afonso Madureira. Enquanto fez uso da palavra, Madureira informou que os estudantes do curso de Farmácia fizeram uma assembléia que deliberou favoravelmente à greve. Mas, curiosamente, esqueceu-se de informar que os estudantes de vários outros cursos se reuniram em assembléias e deliberaram contra a greve. Estranha foi sua explicação, já fora dos microfones, a este repórter: "Eu falo pelo DCE, não falo pelos estudantes de cada curso". Madureira poderia ter sido mais sincero e admitido que o DCE informa aquilo que a ele interessa e omite o que não interessa.

A votação de ontem contou, depois de duas horas e meia de discursos a favor da greve e seis minutos contra, 10 votos contrários à manutenção da paralisação e cerca de 40 a favor. Digo "cerca de 40 a favor" porque a mesa que conduzia a assembléia pediu rapidamente para que os que votavam a favor baixassem os braços. Jairo Selles, doutor em química e grevista de usar adesivo no peito, estava ao meu lado e reconheceu a falha: "Deveriam ter contado".

Um outro fato relevante foi a presença registrada de apenas 85 professores, de um universo de aproximadamente 2.000. Isso equivale a 0,4% do corpo docente da Universidade Federal Fluminense. Ou seja, um número inexpressivo. No entanto, ainda que seja inexpressivo, esses poucos professores são os que determinam as posições de toda uma categoria. Esse espaço é legítimo, embora muitos docentes tenham-no abandonado. Se os professores que são contra a manutenção da greve (e a favor das reivindicações, mas de outras formas) fossem às assembléias, poderiam facilmente reverter essa situação. No entanto, uns preferem ignorar o sindicato e continuar ministrando suas aulas em comum acordo com os alunos e outros preferem ficar em casa sem fazer nada, só esperando que os outros decidam sobre suas vidas.

A próxima Assembléia da Associação dos Docentes da UFF está marcada para o dia 15 de setembro, uma quinta-feira, ainda sem hora e local definidos.


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