......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



05.03.2007
O PAPEL DA UNIVERSIDADE

Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com

Muito se discute sobre as relações que a universidade mantém ou deveria manter com o meio social em que está inserida. Em geral afirma-se que o meio acadêmico permanece distante da realidade que o rodeia, encastelado numa espécie de torre de marfim. E, de fato, não há como negar o abismo que separa a academia da realidade que nos cerca.

É forçoso reconhecer que inúmeras "pontes" precisam ser erguidas a fim de tornar mais próxima de todos essa "ilha" distante onde se produz o conhecimento científico nas mais diferentes áreas.

Nesse sentido, é mais do que desejável que a academia seja capaz de transpor os muros da universidade e falar para um público mais amplo do que aquele seleto grupo que freqüenta suas salas de aula. São muitos os professores/pesquisadores, por exemplo, que ainda recusam-se a expor suas idéias, conhecimento e até mesmo opiniões através dos meios de comunicação, temendo eventuais deturpações que possam ocorrer na exposição do que pensam. Parecem temer "sujar" as mãos com a realidade cotidiana que é comum a todos nós.

Contudo, na construção dessas "pontes" tão necessárias é fundamental não permitir que a universidade abdique de suas funções precípuas. E muito menos que se amesquinhe.

É inadmissível, por exemplo, reduzi-la ao mero papel de formar para o mercado de trabalho. É evidente que a grande maioria dos que freqüentam um curso superior pretendem com isso conquistar melhores oportunidades de emprego ou exercício da futura profissão. Mas não se pode esperar somente isso de um processo de formação acadêmica.

A universidade é um espaço de transformação, de mudança. Aliás, costumo sugerir aos meus alunos que se utilizem desse parâmetro para avaliar a sua própria formação. Se você sai de um curso pensando da mesma maneira que pensava ao ingressar nele, é sinal de que sua visão de mundo permaneceu inalterada, ou seja, é um mau sinal. Significa que muito pouco ou quase nada se transformou no seu modo de perceber o mundo que nos cerca.

Mas além de transformar-se a si mesmo, a universidade precisa contribuir decisivamente para transformações de toda a ordem: econômicas, políticas, sociais, culturais, etc. Hoje é preciso formar quadros competentes não para se encaixar de forma dócil e subserviente nas estruturas de uma empresa ou instituição qualquer. Precisamos formar quadros eticamente comprometidos com a transformação da realidade que temos.

A universidade precisa formar hoje indivíduos que se recusem a aceitar a sórdida tese do "fim da história", urdida sob a égide do neoliberalismo, do consenso de Washington e do "pensamento único", pelo aprendiz de feiticeiro Francis Fukuyama (ver "O fim da história e o último homem". Rio de Janeiro, Ed. Rocco, s.d.).

Não é ingenuidade, é má-fé mesmo sugerir que chegamos ao fim da linha, ao fim da história, e que não é possível mudar nada do que aí está, restando-nos apenas o conformismo silencioso e amargurado. Enquanto houver vida humana sobre a Terra, haverá história por fazer. E os seus protagonistas estão por aí, inclusive na universidade.

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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