......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



05.02.2007
EM CARTAZ: A REALIDADE DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

Em 1999 dois jovens americanos entraram armados numa escola pública em Columbine e mataram doze colegas e um professor, suicidando-se logo em seguida. Tentando desvendar as motivações desse crime e explicar o que tornou possível tamanha barbárie, o diretor Michael Moore realizou o polêmico e primoroso documentário "Tiros em Columbine". O episódio vai pouco a pouco sendo compreendido pelo espectador, na medida em que o diretor mostra o quanto aquela escola pública - como outra qualquer - reflete os valores e a história recente da sociedade americana em que está inserida. De forma simplificada, Columbine é o que o país quer que ela seja, o que o país espera dela, um retrato dos Estados Unidos hoje.

Uma das passagens mais interessantes de "Tiros em Columbine" pode ser atribuída à participação do roqueiro Marilyn Mason. Ao ser perguntado sobre o que teria levado jovens a promover um massacre numa escola pública, o cantor recusa-se a apresentar apressadamente uma resposta, como tantos outros prontamente se dispõem a fazer, alguns até acusando o próprio Mason de disseminar a violência através de suas músicas. A recusa deve-se ao fato de que ele reconhece humildemente que não tem a resposta, sugerindo que se faça algo muito simples que pouca gente se dispõe a fazer: ouçam os jovens, ouçam o que eles têm a dizer!

Pois é exatamente isso que João Jardim faz no documentário "Pro dia nascer feliz", que acaba de estrear nos cinemas do país. É um filme em que os jovens têm a palavra e podem dar o seu recado. Jardim traz para a tela do cinema depoimentos esclarecedores de adolescentes e o seu olhar sobre o mundo que os cerca, em especial a escola, colhidos na capital e na periferia de São Paulo, Rio de Janeiro, bem como no sertão de Pernambuco.

O que mais chama a atenção nessa abordagem da relação entre os adolescentes e a escola é o denominador comum que se extrai da fala dos meninos e meninas que protagonizam o filme. É algo a respeito do qual todos nós precisamos refletir: a escola que temos, principalmente a escola pública que se encontra por esse país afora, em nada ou quase nada contempla as demandas dos seus freqüentadores. É uma escola falida em termos de proposta e de execução, que não cumpre o papel de formação que dela se esperaria.

O documentário, que poderia até ser mais contundente na denúncia que faz, retrata essa falência através da fala de cada um dos indivíduos flagrados no ambiente escolar. Valéria, da longínqua e paupérrima Manari, no interior de Pernambuco, mostra uma arrebatadora paixão pelas letras e um domínio surpreendente da língua portuguesa. Qual o papel da escola na "construção" dessa menina? A escola é o espaço da frustração, onde geralmente falta de tudo, principalmente professores para lecionar. E mais: diante dos escritos talentosos dessa menina de 16 anos, alguns professores expressam desconfiança, sugerindo que ela não é autora dos textos que redige. Devotam-lhe desestímulo, e só!

Essa falência aparece de várias formas: nos professores que há muito perderam a dignidade no exercício da profissão; na mais absoluta carência de infraestrutura que ainda atinge grande parte de nossas escolas; no fato de que o ambiente escolar não é nada atraente para os alunos, a não ser como espaço de convivência com os colegas; em suma, na certeza de que há muito a se aprender sobre o mundo lá fora, embora a escola tenha cada vez menos instrumentos para ensinar algo sobre isso.

Não há cena mais patética e reveladora neste documentário do que a do conselho de classe realizado no Colégio Estadual Guadalajara, em Duque de Caxias, município da baixada fluminense. Naquela sala onde estão reunidos os professores, não se discutem princípios educacionais, teorias ou o resultado de estratégias adotadas. Boa parte da cena da reunião gira em torno da aprovação ou reprovação de Douglas. Aprovar ou reprovar? Que diferença isso faz, quando o próprio Douglas, indagado sobre o que aprendeu - por exemplo - na disciplina de história durante o ano letivo, responde: "porra nenhuma!".

Em geral, os professores sentem-se como esses de Caxias: impotentes diante de uma realidade que já não sabem como transformar. Ainda mais agora em 2007 que, numa rede de ensino gigantesca como a do Município do Rio de Janeiro, instituiram-se os ciclos de formação e a progressão continuada em todo o ensino fundamental, inclusive de 5ª a 8ª série (agora denominados de 6º ao 9º ano) - que eu mesmo já antecipava aqui no Fazendo Media em junho de 2006 (veja aqui). O que isso significa? Na prática, quer dizer que não haverá mais reprovação nas antigas 6ª e 7ª séries (atuais 7º e 8º anos).

De qualquer forma, ao serem perguntados sobre o que aprenderam ao longo do ano, nossos alunos provavelmente responderão o mesmo que o Douglas de Caxias honestamente respondeu. "Pro dia nascer feliz" é desalentador! E indispensável!

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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