......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



05.01.2007
QUANTO CUSTA UM DOUTOR?

Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

A exemplo do que foi exposto no último artigo sobre o Prouni, é interessante refletir sobre as relações entre o público e o privado quando se trata de formar quadros docentes para a universidade no Brasil. Afinal, também nesse caso ocorre de forma sistemática um repasse de investimentos públicos para o setor privado.

Imaginemos uma situação hipotética, não muito distante da realidade concreta. Um sujeito ingressa numa universidade pública e forma-se ao longo de quatro anos de estudo. Em seguida, cursa o mestrado em dois anos e o doutorado, com quatro anos de estudos e pesquisas. Ao final de uma década temos então um professor/pesquisador devidamente qualificado para atuar no ensino superior.

Imaginemos ainda que esse indivíduo dedicou-se com afinco a sua formação e obteve na graduação uma bolsa de iniciação cientifica durante dois anos (R$ 300,00 mensais). Contando ainda com bolsas tanto no mestrado (R$ 940,00 mensais) quanto no doutorado (R$ 1.394,00 mensais). Considerando os valores dessas modalidades de bolsa hoje em dia, podemos afirmar que o Estado brasileiro investiu na formação desse doutor, somente através desse subsídio, aproximadamente R$ 96.600,00. Sem contar os custos da formação acadêmica em si, bem mais elevados, que nesse caso desenvolveu-se em universidades públicas. E multiplique-se tudo isso por algumas centenas ou milhares de doutores que hoje formamos no país.

Entretanto, ao contrário do que se pode imaginar, esse professor-doutor pode não retribuir ao país os investimentos que toda a sociedade brasileira fez na sua formação. O caminho natural para o retorno desses investimentos seria imaginar esses quadros sendo absorvidos pelas universidades públicas, através de concursos. Entretanto, o quadro de professores nessas universidades em geral tem encolhido, na medida em que muitas vezes sequer as vagas abertas por aposentadoria ou morte são novamente preenchidas com a devida celeridade que o caso merece.

Então esse jovem doutor freqüentemente encaminha-se para as universidades privadas, que jamais investiram sequer um centavo na formação de seus professores. Aliás, em geral, o máximo que concedem é uma licença sem vencimentos aos professores que buscam qualificar-se com um mestrado ou doutorado. Ou seja, é assim que se monta hoje um quadro docente qualificado nas universidades particulares, sem a necessidade de investir absolutamente nada. E é cada vez mais difícil entrar ou permanecer nestas universidades sem um mestrado ou doutorado.

O Estado faz todo o investimento, seja através das universidades públicas, seja através das bolsas concedidas, e as particulares usufruem à vontade do produto desse investimento: mestres e doutores em cuja formação nada investiram. Se houvesse uma política de investimento na formação dos seus próprios quadros, não haveria críticas a fazer ao setor privado. Entretanto, além de não investirem, cobram dos professores que sejam produtivos, escrevendo e publicando em periódicos acadêmicos, bem como participando de congressos.

Como se vê, além do Prouni, existem outros caminhos pelos quais os recursos públicos são destinados à iniciativa privada. O que causa estranheza é que nem mesmo com a chegada do PT ao poder, considerando seus históricos compromissos com a universidade pública e com os despossuídos, tais práticas tenham se encerrado. Pelo contrário, continuam firmes e fortes para alegria e satisfação daqueles que a UNE em seus tempos áureos denominava de "tubarões da educação"...

Formar um doutor custa muito para os cofres públicos, já para as universidades particulares não custa nada, sai mesmo de graça...

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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