......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



04.10.2007
CARTA ABERTA AO PROFESSOR ALI KAMEL

Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com

Caro Ali Kamel,

Primeiramente gostaria de agradecer-lhe pelo brilhantismo com que tem brindado os leitores do jornal O Globo nas últimas semanas. Os seus últimos artigos são verdadeiras aulas de história, cuja perspicácia e sagacidade eu jamais vi durante toda a minha formação acadêmica. Sua análise dos livros didáticos de história, que nós professores temos adotado, talvez distraidamente, soa como um alerta que não podemos desprezar.

Quando demolistes o livro de Mario Schmidt, um certo desconforto já tomara conta de mim. Não porque eu o tenha adotado nas turmas para as quais leciono história no ensino fundamental, embora eu nada possa dizer que desabone ou desaconselhe o uso dos livros deste autor. É que eu aprendi desde cedo, já na escola, creio eu, que texto algum é portador de verdades absolutas. Tal convicção consolidou-se nos anos que freqüentei a graduação em História na Universidade Federal Fluminense.

Lá, os professores que tive, cujos conhecimentos nem se comparam à enorme sabedoria que tens, ensinaram-me que todo texto precisa ser analisado de forma crítica. Seja uma fonte utilizada para elaborar o conhecimento histórico, seja o livro didático que sintetiza as pesquisas produzidas na universidade. E tal perspectiva crítica deve ser insistentemente compartilhada com os alunos, como parte do processo de aprendizagem que se desenvolve nesta disciplina que hoje tem no senhor um notório especialista.

Além disso, aprendi também que em tudo há a tal da ideologia, mesmo nos textos e autores que insistem em negá-la ou ocultá-la. Ou seja, nossas escolhas político-ideológicas sempre se fazem presentes, ainda que queiramos omiti-las, de boa ou má fé. Em suma, aqueles professores que eu tanto admirava, até conhecê-lo nas páginas desse tão renomado diário, ensinaram-me já nos primeiros períodos da faculdade que não existe conhecimento neutro e isento, seja ele científico ou não.

Lembro-me do caso clássico da análise - que sempre faço com os meus alunos - da carta-testamento de Getúlio Vargas. Nela desaparece o ditador perverso do Estado Novo para dar lugar ao homem que deixa a vida para entrar para a história, numa pérola de discurso político-ideológico que reconstrói a memória de quem pretende ingressar na posteridade como pai dos pobres. E funda-se no Brasil o populismo endêmico que até hoje grassa entre nossos políticos e tanto mal nos faz.

Mas devo estar mesmo equivocado, pois descobri com o senhor que o jornalismo é, sim, um caso raro e indiscutível de conhecimento neutro, isento e objetivo (ver “O jornalismo”, em O Globo de 23/01/2007). Prova disso está na mesmice do noticiário dos grandes jornais deste país. Se O Globo, a Folha de S. Paulo, o Jornal do Brasil e o Estadão deram ontem, hoje e sempre as mesmas notícias é porque, como o senhor teve a bondade de nos explicar, seus repórteres e jornalistas foram “treinados” (jamais imaginei que se treinavam jornalistas tal como se adestram cães...) para identificar e selecionar o que é relevante nos acontecimentos do dia-a-dia. Ou seja, os jornalões nos servem diariamente a verdade dos fatos, de forma neutra e isenta, sem qualquer abordagem de natureza ideológica.

Talvez por isso agora o senhor retome as críticas aos livros didáticos de história do Projeto Araribá, que eu, idiota, escolhi usar em 2008 com os meus alunos. Afinal, os livros didáticos de história deveriam ser como os jornais - neutros e isentos - e estão por aí catequizando nossas criancinhas na cartilha do socialismo e pior, do governo Lula, do PT. Francamente! Esse mundo está perdido, não é mesmo? Até porque professores como eu não foram “treinados” como são os jornalistas d’O Globo para identificar o que é relevante para nossos alunos...

Então eu lhe faço aqui publicamente uma proposta, senhor Kamel. Abro mão do meu posto de professor de história da escola pública municipal em que leciono e... cedo-lhe a vaga – inclusive com o respectivo salário, que há de alterar significativamente o seu padrão de vida. Venha o senhor dar aulas de história para a garotada do morro do Cruz, logo ali no Andaraí, zona norte do Rio de Janeiro. Deixe o conforto do ar condicionado da redação em que trabalha e venha enfrentar nossas calorentas salas de aula já! Venha dar sua contribuição inestimável, dando aulas não só através das páginas do jornal, mas como o professor talentoso que demonstra ser. A sociedade brasileira certamente terá muito a ganhar com uma atitude como esta...

Só não vale enviar no seu lugar aquele tal de Eduardo Bueno, que nos últimos domingos tem estado no seu prestigioso Fantástico, junto com o Pedro Big Brother Bial, dando aulas de história como nunca antes se viu. Não leve a mal, mas é que o Bueno insiste em apresentar a história de forma maniqueísta, como tendo sido feita por vilões e mocinhos. E o senhor sabe que esta é uma visão estreita e empobrecedora da história. Afinal, temos por aí vários vilões que se apresentam como mocinhos, inclusive ao fazer a análise de livros didáticos...

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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