......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


04.05.2006
UMA REALIDADE, OUTRA COMUNICAÇÃO

Por Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com

Comunicação Social
Formato: 16 x 23 cm
246 páginas
R$ 42,65

Em "Sociedade Midiatizada" (Editora Mauad), Dênis de Moraes reúne uma coletânea de textos de dez autores da atualidade, reconhecidos internacionalmente por seu compromisso ético com o pensamento crítico. Sua leitura nos conduz à reflexão sobre a mídia pelo prisma de seu engajamento político-ideológico e acerca das conseqüências da influência que exerce numa sociedade cada vez mais conturbada e atravessada por desigualdades sociais e econômicas catastróficas.

Tomamos como exemplo o texto de Eduardo Galeano "A Caminho de uma Sociedade da Incomunicação", em que ele nos apresenta e discute o aparente paradoxo da era da informação: embora a tecnologia das comunicações esteja tão aperfeiçoada, a comunicação está cada vez mais difícil; em suas palavras: "nosso mundo se parece cada vez mais com um reino de mudos". Isto porque a propriedade dos meios de comunicação é controlada por um pequeno número de pessoas que têm o poder de divulgar a sua mensagem para um enorme número de cidadãos em todo o mundo. Cria-se, assim, a "ditadura da palavra única e da imagem única", em seu entender mais devastadora que a do partido único, porque impõe a todos um mesmo modo de vida, ignorando a riqueza necessária da diversidade cultural.

Uma das conseqüências imediatas desse fato é a violência. Repetidas propagandas dos meios de comunicação sub-repticiamente inculcam nas mentes que "quem não tem nada, não é nada, é um lixo", levando pessoas a internalizar o desejo de ser igual e de pertencer ao grupo. Jovens se tornam delinqüentes, apropriando-se de coisas que o fazem sentir-se igual, ser alguém, existir, enfim: aprendem com o que Galeano denomina "escolas do crime".

Os meios de comunicação apresentam o mundo atual como um "espetáculo fugaz, estranho à realidade, vazio de memória". Ajudam a aprofundar as desigualdades, propagando a idéia de que a pobreza é fruto da fatalidade e não mais a conseqüência da injustiça, como há 20 anos. O código moral atual condena o fracasso, não a injustiça, como o único pecado sem redenção. E a mídia, no chamado terceiro mundo, costuma apresentar a violência não como resultado da injustiça, mas da má-conduta de pessoas violentas por natureza, que vivem num submundo violento que, como a pobreza, faz parte da ordem natural das coisas.

Assim a mídia vai cumprindo seu papel de retransmissora da ideologia dominante. Pela telinha, a propaganda do consumo vai impregnando o dia-a-dia do cidadão; de vez em quando, horrores da fome e da guerra, fatalidades de outro mundo, claro, que servem somente para realçar o paraíso que é a sociedade de consumo. Dificilmente são mostradas as responsabilidades que têm as grandes potências na exploração e aviltamento dos povos dos países mais pobres. A cultura da impunidade se impõe.

É assim que Galeano afirma que os mestres da informação chamam de comunicação o monólogo do poder, que consiste em limitar a liberdade universal de expressão à obediência das ordens emitidas por aqueles que têm o privilégio de divulgar suas idéias. E nos conclama a enfrentar essa situação, embora os meios de comunicação queiram nos convencer a abandonar essa luta e essa esperança.

Outro texto que selecionamos foi o de Manuel Castells, "Inovação, Liberdade e Poder na Era da Informação", resultante da conferência proferida por ele no V Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em janeiro de 2005. Neste, ele discute aspectos da era da informação, caracterizada por uma revolução tecnológica como processo de transformação histórica que tem a ver com valores e interesses dominantes em cada processo, em cada país e em cada organização social; e cujas conseqüências dependem do poder de quem se beneficia, embora a ideologia tecnocrática tente apresentar, como resultado da revolução tecnológica, uma única forma possível de organização social ligada à lei do mercado e ao processo de globalização, o que excluiria a autonomia da sociedade na tomada da decisão em função de seus interesses e valores. Esse fato leva a perceber que inovação tecnológica, investigação científica, criatividade cultural são manipuladas, o que realça a importância da preservação da liberdade de expressão e comunicação em nosso mundo.

Desenvolvendo tema de tal relevância em torno da não-existência de controles burocráticos e direito de propriedade na Internet, Castells conclui que a propriedade, em certas circunstâncias - como sobre a criatividade - é um roubo; que, se a informação é poder, a comunicação é contrapoder; e que "a capacidade de mudar o fluxo de informação a partir da capacidade autônoma de comunicação (...) realça a autonomia da sociedade com respeito aos poderes estabelecidos".

Por fim, é o próprio organizador da obra, Dênis de Moraes, quem situa o lugar da comunicação na modernidade: "Vivemos, com aturdida incredulidade, um tempo de velocidade implacável, de urgência desvairada". O autor do texto que abre esta "Sociedade Midiatizada" procura compreender a subjetividade habilmente manipulada, por um lado invisível para a maioria e por outro com alcance irrestrito. "Regula-se a relação entre desejo, necessidade e satisfação, removendo-se aquilo que retarde o ímpeto de consumir ou protele a extinção dos impulsos. No culto ao fugaz, querem convencer-nos de que o que perdemos em durabilidade ganhamos em intensidade". A relação com a publicidade é óbvia, e o professor continua com um exemplo: "O McDonald's, que tem 31 mil lanchonetes em 119 países, gasta US$ 2 bilhões por ano com publicidade e marketing. Não há dia em que não anuncie na mídia global".

Vale a leitura!


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