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03.03.2006
EFEITOS DA TORTURA PODEM SER TRANSMITIDOS GENETICAMENTE
Por Malu Muniz - redacao@fazendomedia.com
Na tarde do último dia 23 de fevereiro, às vésperas do carnaval, no Campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), cerca de 20 alunos do Mestrado de Psicologia da Universidade Federal Fluminense receberam a visita de Vera Vital Brasil, psicóloga da Equipe Clínico-Grupal do Tortura Nunca Mais e do Instituto aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro.
Vera foi convidada pela professora Cecília Coimbra, ex-militante durante o regime militar, psicóloga, escritora e fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM). Entre os assuntos abordados esteve o trabalho realizado com apoio da União Européia. Além do Brasil, Chile, Argentina e Uruguai fazem parte deste projeto, que consiste em fornecer assistência clínico-médico-psicológica, auxiliar na formação de profissionais da rede pública, avaliar as conseqüências transgeracionais da tortura e digitalizar o acervo do GTNM, que é uma das poucas entidades depositárias dos arquivos que deram origem a uma espécie de dossiê contra as arbitrariedades do regime militar no Brasil: o livro Brasil: Nunca Mais.
Ao ser mencionada a pesquisa que analisará os efeitos da tortura transmitidos através das gerações, em um tom de brincadeira, que não omite a indignação, Cecília constata:
- Eles vão pesquisar meus netos.
Vera afirma que existem fortes elos de continuidade que persistem mesmo após o fim do Estado de exceção.
- O Estado trata questões sociais como questão policial - afirma a psicóloga, lembrando ainda que hoje a população de baixa renda substitui o comunista, elemento perseguido durante a ditadura e desumanizado nas práticas sistematizadas de tortura.
Cecília conta que na última reunião do GTNM, que ocorre sempre nas segundas-feiras, a mãe de uma das vítimas do Caveirão fez um relato emocionante ao afirmar: "ele não era traficante, ele não tinha nada a ver com o tráfico".
A fundadora do GTNM, que fornece assistência jurídica para vítimas de violência, questiona a lógica da punição presentes nas palavras "ele não era traficante, ele não tinha nada a ver com o tráfico" ou "ele era pai de família, trabalhador". Segundo Cecília, estas alegações reforçam a idéia de que contra o "inimigo social" - comunista ou traficante - o extermínio não só é válido como necessário.
Vera realiza um trabalho de formação com profissionais da rede pública que lidam com os setores mais empobrecidos da cidade do RJ. A psicóloga conta que um psiquiatra de estabelecimento público admitiu seu erro ao lidar com um paciente:
- Tratei como delírio aquilo que era realidade.
Ela explica que se tratava de uma realidade tão absurda que o médico diagnosticou e medicou como se o paciente estivesse delirando. A psicóloga e também ex-militante durante o regime militar afirma que "a experiência da violência é muito solitária, o que produz efeitos de isolamento e culpa."
Talvez por isso, Cecília complete:
- A divulgação da violência é a saída da clandestinidade.
Forma máxima adquirida pelo silêncio, a clandestinidade foi vivenciada por inúmeros militantes durante a ditadura e, para muitos, revelou-se um caminho sem volta. Ao forjarem novas identidades, excluídos do convívio social e vítimas dos órgãos de repressão do Estado, muitos militantes exilaram-se dentro de si mesmos. Por isso, além de assistência jurídica, o GTNM presta também assistência psicológica, buscando romper o que Vera Vital Brasil afirma ser um "pacto de silêncio".
A psicóloga defende que este "pacto" ocorre na ordem do inconsciente, sendo resultado do medo e da insegurança que fazem parte do controle social do mundo contemporâneo. A convidada diz que a falta de proteção do Estado produz a "invizibilização" das vítimas.
O termo que se utilizou para designar aqueles que haviam se tornado invisíveis durante o regime militar (1964-1985) foi desaparecido. Um termo que esconde a responsabilidade dos torturadores. Da mesma forma, segundo Vera, a Lei da Anistia de 1979 validou o uso da violência contra os ditos criminosos, apresentando distinções entre a gravidade das torturas cometidas contra, por exemplo, um preso político que assaltou um banco e um estudante que fazia passeatas.
Termina a aula, o debate, mas a discussão não se esgota. Até porque, na próxima quinta-feira, a convidada é a psicanalista Tânia Colcker, que falará de "Sistema Prisional e Tortura".