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01.09.2005
O FIM DA HISTÓRIA?
Por Malu Muniz - redacao@fazendomedia.com
Os supersticiosos atribuem ao oitavo mês do ano a alcunha de mês do desgosto, sustentada pela concentração de alguns fatos considerados lamentáveis. Entre eles, a chegada de Adolf Hitler ao posto de chanceler na Alemanha, o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima ou o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Poderíamos incluir nesta lista a morte do revolucionário russo Leon Trotski.
Decorridos 65 anos de seu assassinato por Ramón Mercarder, a mando de Stálin, as teorias e atitudes de Trotski ainda suscitam questionamentos, seja entre os partidos que reivindicam sua herança teórica, seja entre aqueles que divergem ao interpretar a relação do trotskismo com a tradição marxista.
Um dos principais responsáveis pelo desencadeamento e condução da Revolução Russa de 1917, Trotski fundou e comandou o Exército Vermelho contra mais de dez exércitos estrangeiros vencendo os contra-revolucionários "brancos". Assim sendo, foi figura de destaque na fundação da União Soviética. Contudo, derrotado na luta pela sucessão após a morte de Lênin, Trotski seria afastado de suas funções no Conselho Revolucionário de Guerra, do Comitê Central e, em 1927, do próprio partido.
Canrobert Costa Neto, professor e pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, presidente da Associação de Docentes da UFRRJ, membro do conselho editorial da revista Margem Esquerda e colunista do www.fazendomedia.com, assinala que Trotski se insurgira contra Stálin ao perceber que este utilizava-se de suas articulações internas no partido bolchevique leninista para garantir um controle de forma aparelhista e burocrática. "Trotski reconhecia a revolução socialista na URSS, mas considerava que o Estado traía esta mesma revolução e precisava ser derrotado politicamente para que o processo revolucionário anti-capitalista tivesse curso", afirma.
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Trotski: 65 decorridos de sua morte e idéias permanecessem vivas
Há quem conte uma mesma história de formas diferentes. Thiago Costa Machado, 22 anos, é coordenador geral do DCE da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e membro da UJS (União da Juventude Socialista.), vinculada do PC do B. Para ele, Trotski foi um "contra-revolucionário". Como Thiago, estudante de História, muitos são os que acusam Trotski e trotskistas de serem responsáveis por dividir a esquerda.
Canrobert diz que a partir da 4ª Internacional, em 1938, correntes trotskistas passaram a lutar pela hegemonia dentro desta, ocorrendo um divisionismo nas fileiras da internacional trotskista, mas não da esquerda operária como um todo. Embora afirme se identificar mais com as idéias do próprio Trotski que com as tendências trotskistas que se desenvolveram depois da fundação da 4ª Internacional, o historiador e professor da UNIRIO, Ricardo Salles, discorda da idéia de que os trotskistas tenham uma tendência atávica ao divisionismo. "A divisão das esquerdas é fenômeno mais complexo e que não se iniciou com o trotskismo", afirma. Ricardo conta ainda que se tornou marxista no final dos anos 60 ao ler a "excelente" biografia de Trotski escrita por Isac Deutscher. Na década de 70, Ricardo militou em uma dissidência da organização Política Operária (PO), que se auto-designava Fração Bolchevique da Política Operária e que depois se tornou o Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP). "Nenhuma das duas era uma organização trotskista, ainda que admirassem o revolucionário russo", afirma. O professor da UNIRIO diz que admira particularmente a teoria da Revolução Permanente, uma das principais contribuições de Trotski para o pensamento marxista. Esta concepção previa a expansão da revolução pelo mundo capitalista, se opondo à de Stálin que defendia o socialismo num só país, a URSS.
Quincas Rodriguez, 29 anos, partidário do PSTU e professor de história pergunta: "Quem acusa os trotskistas de divisionistas?" E defende: "No meu sindicato impreterivelmente estas pessoas são ligadas aos que defendem o governo até o último fio de cabelo. Dizem que são lutadores e que nós queremos ficar do outro lado. Realmente, para nós o que define os companheiros é a luta de classes, esta é a barreira que nos separa, e se eles ficam do lado do patrão tenho que concordar que nós estamos do outro lado e não posso chamá-los de companheiros".
Forcemos um paralelo histórico com o posicionamento de Trotski diante do que ele advertia serem "desvios burocráticos". Quincas traz à discussão uma advertência mais recente: "o momento político demonstra que a linha adotada pelas correntes trotskistas estavam corretas sobre a caracterização do governo e do regime. Quando dizíamos que este governo era inimigo dos trabalhadores e ia aprofundar as reformas neoliberais, éramos taxados de radicais, diziam que iríamos nos isolar e que estávamos fazendo o jogo da direita".
Durante o mês de agosto, o Partido da Causa Operária promoveu um curso de formação marxista especial sobre a vida e a obra de Leon Trotski. As aulas foram ministradas pelo presidente nacional do PCO e editor do jornal A causa operária, Rui Costa Pimenta, e o áudio disponível na página eletrônica do partido. Durante o curso, Rui afirma que "quem defende o marxismo, mas não defende a ditadura do proletariado não é marxista, é centrista". Para Rui, o socialismo democrático é uma "fantasia pequeno-burguesa que resulta da democracia capitalista. Ela só tem o nome de democracia. É a defesa da ditadura capitalista." Rui Pimenta compreende que, hoje, marxismo é sinônimo de trotskismo, e vice-versa. Contudo, reivindica para seu partido a verdadeira sustentação teórica, afirmando que outros partidos, como PSOL e PSTU, apresentam interpretações "decadentes" e "degeneradas" do trotskismo.
Ao longo de sua vida política como trotskista Canrobert militou em três grandes correntes da 4ª Internacional. Libelu estudantil e a corrente política Causa Operária, que ajudou a fundar o PT em São Paulo, no Rio e em Brasília, onde ele também participou da Convergência Socialista. O professor conta que, na década de 90, ingressou no PSTU, "que seria uma espécie de sucedâneo partidário da corrente convergência socialista, que havia sido expulsa do PT, nacionalmente". Canrobert lança uma questão que ainda precisa ser exposta à hermenêutica: "Esta última experiência, no PSTU, foi a mais traumática de todas. Eu relutava em aceitar alguns pressupostos políticos que me pareciam tremendamente estreitos para uma esquerda depois da queda do muro e do fim da União Soviética. O mundo estava mudando e o trotskismo teimava (e ainda teima) em não refletir sobre o que pode ter havido com o socialismo em escala internacional. Estas correntes se tornaram dogmáticas e sectárias. Uma espécie de trotskismo às avessas, negando toda a dialética revolucionária".
A descaracterização de um determinado projeto enquanto utopia e sua transformação em objetivos concretos deverá passar pela exegese das experiências socialistas do século XX. Ao contrário, teremos de nos conformar com o capitalismo e a democracia burguesa como o coroamento da história da humanidade, tirar o chapéu para Fukuyama e fechar o livro ao "fim da história".