
01.04.2007
O FLUXO DE CAIXA DA EDUCAÇÃO
Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com
A idéia de premiar escolas e instituições de ensino pelo seu desempenho há algum tempo vem se difundindo no país nos diferentes níveis de ensino. Vincular a liberação de recursos e gratificações salariais à eficiência comprovada de unidades de ensino pode até parecer algo interessante em principio. A questão é: como comprovar a competência e eficácia do ensino praticado numa instituição?
Num tempo em que o mercado é incensado como o grande fiel da balança e em que economistas tomam ares de senhores de verdade, essa comprovação tem sido buscada nos números. Quantificar tornou-se a palavra de ordem.
Como se já não bastasse a equivocada obsessão por notas e conceitos nos processos de avaliação do aprendizado, passamos a conviver com isso em larga escala. Durante as nefastas gestões do casal Garotinho no governo do Estado do Rio de Janeiro instituiu-se, por exemplo, o programa Nova Escola. A partir de alguns critérios autoritariamente definidos pela Secretaria de Educação, escolas que apresentassem elevados índices de aprovação e redução nas taxas de repetência e evasão teriam seus professores "premiados" com gratificações salariais. Vencida a "Era Garotinho", o saldo final aponta para um ensino médio inoperante e mais de dez anos sem reajustes salariais.
Na rede púbica de ensino do município do Rio de Janeiro já se ventila a adoção de um programa semelhante ao Nova Escola de Garotinho, em face da resistência de César Maia em conceder aumentos salariais e aprovar um plano de carreira para o magistério. Tendo em vista a recente implantação dos ciclos de formação e da progressão continuada, a elevação dos índices de aprovação está assegurada. Já a qualidade da formação dos alunos...
Até mesmo o atual Governo Federal cedeu à tentação e já promete vincular a liberação de recursos para as universidades públicas, desde que estas adotem medidas concretas para evitar a evasão e reduzir o tempo de permanência dos alunos na graduação. Quem formar mais em menos tempo, receberá um quinhão mais fornido dos recursos públicos. Em meio a essa lógica do fluxo de caixa que vem sendo implantada na educação, estamos desprezando o que é fundamental. Quando vamos começar a discutir sobre a qualidade da formação dos professores e a necessidade de viabilizar uma efetiva formação continuada? Quando vamos começar a avaliar qualitativamente a capacidade de interpretar, analisar e pensar criticamente dos nossos alunos?
Essas respostas jamais serão quantificadas, jamais serão dadas em números, pois eles nada têm a dizer sobre isso.
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.