
Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
31.03.2006
A HISTÓRIA DE UMA MARIA DO CARMO
Há 50 anos morria Carmen Miranda, uma jovem que sonhava ser atriz. Chegou a ser considerada a mulher mais bem paga de Hollywood e seu sucesso nos EUA levou a sociedade brasileira a menosprezá-la
Por Thaís Tibiriçá e Lívia Cabral - tibirica@fazendomedia.com
O ícone feminino da música e da beleza dos anos 30 aos 50 foi Carmen Miranda. Ela nasceu em uma cidadezinha ao norte de Portugal em 9 de fevereiro de 1909 e foi a segunda filha do casal José Maria Pinto da Cunha e Maria Emília Miranda da Cunha. Recebeu o nome de Maria do Carmo, mas todos a chamavam de Carmen. Nesse mesmo ano, seu pai decide viajar para o Brasil, tentando se estabelecer melhor economicamente no país, já que sua pátria passava por uma crise financeira muito forte desde a morte do rei Carlos I, em 1908.
Em 17 de dezembro do mesmo ano, Carmen, com 10 meses e 8 dias, é levada para o Brasil junto com mãe e a irmã. Instalam-se no Rio de Janeiro, no bairro de São Cristóvão. No mesmo local o pai abre seu próprio salão, seguindo a profissão de barbeiro que já exercia em Portugal. Carmen tem mais quatro irmãos e ao todo seriam seis crianças para dona Maria Emília cuidar, o que fez com a ajuda de suas habilidades domésticas em lavar roupa para fora.
Carmen teve sua estréia no rádio quando o colégio em que estudava levou seus alunos à Rádio Sociedade (primeira rádio brasileira) para que recitassem poemas no ar. A família, sem condições financeiras, acaba se mudando para a Lapa, e ali faz da casa um pensionato, forma que arrumara para conseguir 'engordar' o orçamento. Maria do Carmo precisou trabalhar muito cedo, logo após terminar o ensino básico. Quando, em 1925, se estabelece como funcionária da loja de chapéus "A Principal", a menina já tinha o sonho de ser uma artista.
Por isso, em 1926, manda suas fotos para o concurso de fotogenia da Fox, mas é desclassificada. Tinha paixão por cantar, e sempre estava cantarolando nos lugares mais inusitados, inclusive em seu ambiente de trabalho. O jornalista Aníbal Duarte, um cliente da família na pensão, resolve levar a menina a seu amigo violonista Josué de Barros, que ao ouvi-la a convida para participar de um festival beneficente no Instituto de Música do Rio de Janeiro. Daí em diante a moça começa a ganhar espaço.
O início da década de 30 é marcado pelo governo getulista, com suas iniciativas nacionalistas e autoritárias. Carmen iria completar 21 anos quando se consagrou com a música "Pra você gostar de mim", que o povo rebatizou de "Taí". No final de 1930 já era chamada de "Rainha do disco" e a "maior cantora popular brasileira". O sucesso leva Carmen a participar de filmes e a cantar em outros lugares do Brasil, como Pernambuco, e fora do país, passando uma boa temporada em Buenos Aires.
César Ladeira, dirigente da Rádio Mayrink, convida Carmen para ser integrante da equipe da rádio. A partir de 1936 ela canta nos cassinos de Copacabana e Atlântico. O Cassino da Urca a contrata em 1937. A rádio Tupi convidou-a para integrar a equipe, o que aceita. Com tantos contratos milionários, consegue comprar uma casa na Urca. Em 1938 explode o entusiasmo de sua música, grava vários sambas de Ary Barroso com temáticas baianas, lança a música "O que é que a baiana tem?" de Caymmi, no filme Banana da Terra. Adota a fantasia de baiana, que se torna sua marca. O empresário Lee Shubert a assiste no cassino da Urca e a contrata para o espetáculo "Streets of Paris", na Broadway.
Glamour e exploração nos EUA
Carmem Miranda chega a Nova Iorque junto com sua banda em 1939 e em menos de um ano faz 416 shows. Recebe uma proposta para participar de filmes da Fox e é contratada. No primeiro semestre de 1940 chega a fazer 412 espetáculos - mais de 2 shows por dia. Sua fama era tanta que foi convidada a imprimir suas mãos e sapatos na famosa Calçada da Fama, que se encontra em frente ao Teatro Chinês, em Hollywood. Os críticos e jornalistas brasileiros viam com muito preconceito a fama da moça fora do Brasil, diziam que ela tinha se vendido totalmente aos EUA. Não representava nada da cultura brasileira. Talvez tivessem razões, mas Carmen dizia que só queria cantar a música popular brasileira. Sua irmã Aurora, que chegou a cantar com ela, disse que Carmen falava que para ela ser feliz precisava apenas de um bom prato de sopa e liberdade para cantar. Uma liberdade que foi cortada tantas vezes pelo sistema do entretenimento estadunidense.
Só em 1942 a Fox contrata oficialmente a famosa cantora, um contrato exclusivo que a leva a mudar-se junto com sua família para Beverly Hills, e a ficar 14 anos sem vir para o Brasil. Era considerada a mulher mais famosa e mais bem paga dos Estados Unidos. Suas músicas, na maioria cantadas em português, levavam os norte-americanos ao delírio, mesmo que eles não entendessem as letras. Em correspondências suas para amigos brasileiros, Carmen dizia: "Não entendem nada do que canto, mas dizem que sou a atração mais incrível que já apareceu aqui." Os estadunidenses eram fascinados por ela e não por sua música.
Depois de 6 anos e 10 filmes, Carmen resolveu romper o contrato apesar de ser considerada a "rainha da Fox", pois trazia muito dinheiro à empresa. Tinha o desejo de tornar-se atriz, e não apenas uma cantora que só podia usar roupas de baiana. Sua insatisfação com a imagem que tinham construído dela provocava muito desgosto, pois queria evoluir como atriz, mas seus produtores nunca deixavam, diziam que ela ganhava dinheiro com bananas e só.
Durante a 2ª Guerra Mundial, os EUA necessitavam usar sua imagem associada à América Latina, afastando assim a população dos problemas reais da guerra. E usaram a criação da baiana como uma forma de estereotipar o povo latino-americano; pura estratégia de guerra. Outro exemplo disso foi a criação do Zé Carioca por Walt Disney. Em vários filmes ridicularizaram os latinos, pois essa era a imagem que queriam passar. Getúlio Vargas via Carmen como uma poderosa forma de promover o Brasil nos EUA e tentou transformar a cantora em sua queridinha e embaixatriz do Brasil na terra do Tio Sam.
Com 38 anos Carmem resolve se casar e escolhe o americano David Sebastian por uma única razão: queria ser mãe, e ele foi o único que a pediu em casamento de verdade. Antes dele, teve um romance muito longo com Aloysio Arruada, integrante de sua banda, a Banda Lua, que a acompanhou desde o início da carreira. O amor entre os dois era muito forte, mas ele resolve terminar o romance pois já era considerado o "Senhor Carmen Miranda" e havia perdido toda a sua individualidade.
A família, principalmente sua irmã Aurora, não aprovava o casamento com Sebastian. "Ele era muito severo com ela, várias vezes até fisicamente. O casamento foi um peso em sua vida, ele só casou com ela por interesse. Não gostava da nossa família", disse Aurora no documentário sobre a vida de Carmen Miranda ("Bananas is my bussiness"), de Helena Solberg e David Meyer. Carmen dizia que não se divorciaria por conta da mãe, que era muito católica e não aceitaria.
Químicos abreviaram sua vida
Em 1948 fica grávida, mas infelizmente tem um aborto natural. Seu organismo estava contaminado com os vários soníferos e estimulantes que tomava para conseguir dormir e descansar. A quantidade de shows que fazia por dia levaram-na a intoxicar-se com até 10 comprimidos diários. Seu corpo já demonstrava o excesso de medicamentos; estava sempre cansada e inchada. A dependência dos remédios agrava-se com o uso do álcool, mas mesmo assim suas turnês continuavam constantes. Fazia shows pelos Estados Unidos durante 43 dias, passando por 43 cidades, logo depois ia para a Europa.
A partir de 1954 a dependência química era tão forte que a levou a esquecer as letras de suas músicas. Como recomendação médica Carmen volta para sua terra natal: o Brasil. Seu médico a internou durante 48 dias no Copacabana Palace. Carmem considerava-se uma brasileira apaixonada por seu país, apesar das críticas ferozes que recebia de alguns conterrâneos. Só que os portugueses nunca admitiram essa sua brasilidade, sempre ressaltam que a lindíssima morena dos olhos verdes, com uma expressão corporal fascinante, nasceu em Portugal.
Sua recuperação foi boa e em 1955 seu médico a considerava curada. Ela queria permanecer no Brasil, de onde sentia muita falta. Mas seu marido arranja compromissos que a levam de volta para os EUA. Volta com a maratona de shows em cassinos e boates de Las Vegas e Havana, na época quintal dos estadunidenses para diversão. E junto vieram novamente os remédios para conseguir dormir e descansar.
Sua última aparição ocorre no programa "The Jimmy", em 4 de agosto de 1955. Carmen estava debilitada, os choques elétricos que tomou devido o tratamento de desintoxicação mostravam sua fragilidade física. Uma amiga antiga de Carmen disse depois de sua morte que ela parecia cansada, decepcionada e triste. Fazia muito tempo que a via morrendo aos poucos.
E no dia 5 de agosto de 1955 tem um enfarte. E morre. A Igreja do Bom Pastor em Beverly Hills faz seu velório e reúne cerca de 300 profissionais do cinema. Uma semana depois seu corpo chega no Brasil e é enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, envolto por uma multidão que a cortejou cantando seus sucessos.
Carmen Miranda jamais conseguiria transmitir a imagem do Brasil, e dos brasileiros, pois até hoje não sabemos realmente o que somos. Somos o Brasil Real ou o Brasil Oficial, como disse Ariano Suassuna? Precisamos primeiro construir nossa verdadeira identidade, para que nenhum sistema do entretenimento nos corrompa, ou quando o façam saibamos distinguir. O que ninguém pode negar que Carmen Miranda foi uma artista e ponto.
A moda de Carmen
Carmem Miranda aprendeu a costurar muito cedo. Confeccionava suas próprias roupas e proporcionou ao mundo da moda um estilo que está presente até os dias atuais. Saias bordadas, blusas com babados, ombros de fora, batas, plataformas e muitas bijuterias construíram um estilo único, que a transformou na mulher mais deslumbrante dos anos 30 até os anos 50. Hoje sua elegância inspira estilistas da alta costura.
Por ter uma estatura baixa, quadris largos e busto cheio, Carmem usava as roupas para valorizar seu corpo, que não tinha nada de especial comparado ao das atrizes da época. A estatura baixa foi resolvida com suas famosas plataformas que a deixava muito mais elegante. Sua primeira plataforma foi confeccionada em 1934 por um sapateiro do Catete e, só neste ano, a novidade apareceria em três filmes.
Seus chapéus extravagantes, que acabaram incorporando o estereótipo Carmem Miranda, eram inicialmente confeccionados por ela mesma, já que trabalhou no ateliê La Femme Chic, de Madame Boss, onde aprendeu a fazer chapéus. Os clientes naquela época adoravam ir ao ateliê, pois Carmem sempre estava cantarolando. Sua voz era um sucesso entre eles.
Mas o que a consagrou como a Carmem Miranda que todos conhecem foram seus trajes de baiana, criados em 1938 pra o filme "Banana da Terra". A baiana já era uma fantasia usada por artistas de teatro no Rio de Janeiro, desde o final do século XIX. Carmem estilizou a fantasia de baiana com turbantes, batas, babados de ombros, saias, plataformas, adereços, bijuterias e balangandãs. O sucesso foi tanto que as luxuosas lojas da Quinta Avenida, em Nova Iorque, substituíam as criações de Dior e Chanel pelas suas fantasias de baiana, seus sapatos e turbantes.
O que a tornava única não era apenas a fantasia, o chapéu ou as plataformas. Mas sim seu estilo expressivo que era passado através de seus grandes olhos verdes e o balançar de suas mãos. Quando se consagrou no cinema norte-americano teve figurinistas importantíssimos como Travis Banton, Earl Link, Yvonne Wood, Kay Nelson, Sascha Brastoff, mas sempre participou de todas as criações.
A "pequena notável" continuará viva em 2006!
Mesmo cinqüenta anos depois de sua morte, Carmen Miranda volta a influenciar a moda e a incentivar a vaidade da mulher brasileira. As roupas e os acessórios terão inspiração na "musa das bananas", que impressionou o mundo da moda com seu estilo particular e ousado.
Segundo Fabiane Covolan, do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), "Carmen Miranda marcou época e seu estilo é usado hoje na moda de maneira menos eloqüente. Seus acessórios, como as pulseiras douradas, estão em alta; o estilo bastante feminino que tem tomado conta das passarelas, com babados e laços, vem forte nessa estação no Brasil e para o verão europeu. Os anos 80 voltam com força total por meio de correntes douradas e grandes longos. Se a mulher souber usar essa moda, vai ficar bastante feminina e atual; porém, é preciso cautela, pois não podemos sair como caricaturas e sim com um ar bastante atualizado desse "revival" dos 80".
Para o professor Orlando A. Cabrera, coordenador do Núcleo de Design de Moda do Centro Universitário Moura Lacerda (Ribeirão Preto, SP), "as tendências mais fortes com inspiração em Carmen Miranda estarão principalmente nos acessórios, como calçados (plataformas) e bolsas coloridas". No inverno de 2006, a influência continuará sobre os acessórios, uma vez que nessa estação os vestuários têm cores sóbrias, como o marrom, o azul petróleo e o cinza.
Se admirasse a moda atual, Carmen poderia responder sobre a influência de seu estilo da mesma forma quando foi indagada sobre o assunto: "Nunca segui o que dizem 'que está na moda'. Acho que a mulher deve usar o que lhe cai bem. Por isso criei um estilo apropriado ao meu tipo e ao meu gênero artístico. Disseram na Quinta Avenida que revolucionei a moda, inclusive desbancando costureiros franceses, com Dior e Chanel. Mas foi uma coisa inconsciente, sem a menor pretensão (e quem era eu para competir com eles?). Quando sento à máquina de costura e crio um vestido, um turbante ou um sapato, estou, egoisticamente, pensando só em mim, não em outras mulheres. Se elas depois resolvem me copiar, tudo bem. Nada tenho contra - até gosto".