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30.09.2006
HAVANA - A NOVA ARTE DE CONSTRUIR RUÍNAS

Por Marcelo Salles (*) - salles@fazendomedia.com

O documentário Havana - a nova arte de construir ruínas foi exibido pela primeira vez ao público latino nesta quinta-feira durante o Festival do Rio e contou com a presença do diretor Florian Borchmeyer, um alemão que viveu em Cuba durante nove anos. O filme é centrado na vida de cinco pessoas que moram em edifícios antigos, muitos em ruínas.

Tecnicamente falando, o documentário é primoroso. Há, inclusive, qualquer coisa de poético nas seqüências estabelecidas por Florian, ainda que seja uma poesia triste, nascida de escombros. A trilha sonora acompanha as cenas com propriedade e a alternância entre tomadas externas e internas estimula o interesse do público. Enquanto os entrevistados falam sobre suas vidas, as câmeras lentamente passeiam pelos detalhes das construções.

Por outro lado, embora tenha negado durante o caloroso debate que se seguiu à exibição, Florian fez uma opção política muito clara. Todos os entrevistados se manifestaram contra a Revolução. É o escritor que alega falta de liberdade, o ex-fazendeiro que teve parte de suas terras confiscadas, o desiludido morador do teatro Campoamor.

Um deles (o escritor), inclusive, chega a dizer que a maior ruína de Cuba é Fidel Castro, "uma ruína que estamos apenas esperando que desabe". Além disso, há um jogo de cortes - que perpassa o documentário - para imagens antigas da ilha, ainda capitalista. Invariavelmente são cenas alegres, muitas de festas, que contrastam com o viés deprimido que conduz o filme.

Resultado: ao término da sessão, Florian foi vaiado e aplaudido, o que mostra a polarização do público brasileiro, pelo menos do público que lá estava. Durante o debate, o diretor ficou na defensiva a maior parte do tempo. Em vez de assumir sua posição política contrária à Revolução, Florian preferiu se esconder atrás de argumentos como "não fui eu quem disse, mas as pessoas que entrevistei".

Foram várias as intervenções do público; mais opiniões que perguntas. Uns defenderam o diretor e outros argumentaram que sua abordagem não refletia a opinião nem o dia-a-dia da maioria dos cubanos. Ele se defendia lembrando que retratou a realidade que conheceu ao longo dos anos que viveu em Cuba.

Tive a oportunidade de fazer uma intervenção. Em vez de discursar contra ou a favor da Revolução, quis apenas saber qual a opinião do diretor sobre o socialismo, o que ele acha do capitalismo e quem financiou seu documentário. Florian disse que era muito complicado definir o socialismo e acha apenas que a realidade desse sistema é bem diferente do que "diziam as utopias de Karl Marx". E ignorou as outras duas perguntas, o que não me parece casual, sobretudo nesse momento em que a sanha imperialista tenta ganhar espaço com a recente transferência de poder na ilha.


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