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28.10.2005
SUASSUNA E O BRASIL REAL
3º Encontro de Culturas recebe Ariano Suassuna com casa cheia e muitos aplausos
Fernando Coutinho/www.fazendomedia.com

Por Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
O Interculturalidades - 3º Encontro de Culturas, que está sendo realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF), recebeu o professor e escritor Ariano Suassuna. A conferência, com o tema Brasilidade e Latinidade, foi realizada no teatro do Centro de Artes da UFF, na terça-feira dia 25. Antes do início do debate, no entanto, foi dada a palavra ao comando de greve, que pôde relatar suas reivindicações e a necessidade de maiores verbas para a universidade pública.
Suassuna subiu ao palco envolto em aplausos e as pessoas levantaram para recebê-lo. Disse que veio para dar uma aula, não faria conferência já que sua experiência é dar aulas. Relatou ter sido professor de universidade durante 33 anos e começou a ensinar Português com 17 anos. Hoje está com 78 anos. Com uma simpatia incrível, disse: "Minha voz é horrível, minha rouquidão é genética". Depois disse ter mudado o tema da apresentação, re-intitulou como O barroco e o popular na cultura brasileira.
Com dom de professor, Suassuna começou falando sobre Machado de Assis, citou um trecho em que o escritor fala que no Brasil havia dois países: o oficial e o real. O Brasil oficial era caricato e burguês, enquanto o Brasil real era o feito pelo povo. "Todos aqui nasceram e foram criados no Brasil oficial. Também faço parte deste Brasil, mas quero estar no Brasil real". Desde modo começou a falar sobre sua admiração pelo povo brasileiro e a cultura produzida dentro do país.
Lamentou que as universidades brasileiras ensinam de costas para o Brasil real. Relatou uma experiência dentro da Universidade de São Paulo (USP) quando foi dar uma palestra para cerca de 2000 estudantes. Nesta, falou que poderia provar naquele momento como a universidade está de costas para seu país. Perguntou quantos conheciam o maior filósofo alemão do século XVIII, Kant. Todos os alunos levantaram a mão. Depois perguntou quem conhecia o maior pensador de língua portuguesa do século XVIII, Matias Aires, apenas um aluno levantou a mão. Então Suassuna perguntou como conhecia este nome. O menino respondeu: "É o nome da minha rua". Suassuna termina dizendo: "Viram, dentre todos aqui ninguém conhece este paulista. Por isso digo que a universidade ensina de costas para o Brasil real".
Não desmereceu em momento algum os escritores e pensadores estrangeiros, tanto que considera Cervantes seu escritor preferido. Relatou ter se formado lendo os grandes autores internacionais, mas seus grandes autores nacionais foram descobertos, infelizmente, por ele mesmo. Explicou com a obra Otelo, de Shakespeare, as diferenças na tradução de uma obra para outra língua, no caso para o português. Os sons das palavras muitas vezes são mais importantes que o próprio significado.
Em seguida falou sobre sua admiração por Padre Vieira: foi a primeira vez que viu a língua portuguesa como algo teatral. Cervantes já dizia: "A língua portuguesa é a língua mais sonora e musical do mundo". Suassuna concorda. Para que o público sentisse isso, recitou parte do Sermão da Quarta feira de cinzas, de Padre Vieira.
"Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. - Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó."
Fernando Coutinho/www.fazendomedia.com

O público, junto com Suassuna, emocionado, aplaude a obra de Padre Vieira. Termina esta parte de sua aula dizendo que a língua portuguesa nunca foi e nem será inferior à língua inglesa, exemplificado neste trecho recitado. Se isso ocorrer a culpa não é da língua, mas sim do autor. Novamente aplausos.
Suassuna começa então a falar sobre o tema proposto neste encontro: Brasilidade e Latinidade, e justifica sua re-intitulação, pois para ele o barroco inseriu a latinidade no Brasil e o popular (seria a brasilidade), é na mistura de ambos que se dá a cultura brasileira. Para começar a entender o Brasil, ele recomenda a leitura da carta de Pero Vaz de Caminha. Explica que o Brasil oficial é representado por Cabral e os burgueses, enquanto que o Brasil real, por marinheiros e depois os nativos. O nascimento do Brasil se dá no momento da carta em que Cabral está no trono, já haviam chegado no Brasil, os marinheiros trazem os dois nativos. Caminha relata que os nativos ficaram impressionados com o colar de ouro que Cabral usava no pescoço, e apontam para as terras brasileiras, dizendo que ali haveria ouro. "Me desculpem, mas isto é uma bobagem. Para os índios o ouro nunca teve o mesmo significado que para os europeus. Neste episódio temos o nascimento das injustiças sociais". - diz.
Continua... "Sou integrante do Brasil oficial. Mas também estou do lado do Brasil real" - afirma. Para provar isto, quando foi Secretário de Educação e Cultura do Recife não quis ter assessores públicos. Queria fazer algo por este Brasil real. Então convocou uma equipe de artistas populares, dentre eles negros e mulheres. E com estes saíram por todo o Brasil dando aulas.
De acordo com o andamento da aula, ia citando vários autores e os comentando, dentre estes, Euclides da Cunha. Este estava deformado pelo Brasil oficial quando foi para Canudos, convencido de que eram um povo bárbaro. Mas ao chegar lá percebe que não era aquilo que estavam falando. "Sua vida passou a ser uma contradição. Pois era branco, intelectual e rico. Só que estava do lado errado. Igualzinha a minha". E com esta descoberta escreve a maravilhosa obra "Os sertões".
Suassuna recitou poemas, colocou músicas baseadas em rituais indígenas e em romances ibéricos, tudo para mostrar o que é essa riquíssima cultura brasileira que tanto ama. Mostrou fotos de várias obras brasileiras, desde o início do nosso teatro. "Os manuais de teatro dizem que o teatro brasileiro teve origem na Grécia. Para mim fica claro que o teatro da Grécia é que teve origem na Grécia". No telão, fotos de máscaras que representam o teatro brasileiro, desde o seu início. Também mostra pinturas rupestres. Passa pela primeira escultura brasileira, que se encontra no sertão do Piauí e tem o nome de "Pedra do Ingá". Mostra as obras de Aleijadinho, músicas de Antônio José Madureira.
Termina sua maravilhosa aula falando sobre o respeito que tem pelo Modernismo, apesar de mídia e críticos dizerem que o contrário. Este modernismo de Mario de Andrade, Portinari, Di Cavalcanti, Villa Lobos. Defende a cultura popular brasileira e os verdadeiros artistas deste Brasil real. "Cultura média e medíocre de massas? Me desculpe, mas me recuso a aceitar". Protesta dizendo que não odeia a cultura estadunidense... "Mob Dick é uma boa literatura". Diz que os críticos que tentam insultá-lo, nem isto conseguem. Uma vez disseram que ele era um "Dom Quixote arcaico movido pelos moinhos de ventos da globalização... Incompetentes, pois nem me insultar conseguem".
E conclui: "Quero fortalecer a nossa cultura para que o que vier de fora não seja uma cultura que nos esmaga, mas que nos fortalece".
Fernando Coutinho/www.fazendomedia.com

Iluminado, Ariano Suassuna demonstrou vasto conhecimento