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27.03.2006
SANTANA ILUMINA A NOITE DO RIO
Por Paulo Veríssimo - contato@fazendomedia.com
Vinte mil pessoas foram testemunhas de um grande e inesquecível show que Carlos Santana e sua big band fizeram na noite de sábado (18/3) na Praça da Apoteose. A velha guitarra de Santana que já tinha feito o Maracanãzinho delirar em 1971 com seu grupo original, demonstra mais uma vez as diferenças entre um trabalho musical maduro que se consolidou através de muitos anos de batalha e essa epidemia de pop-rock descartável que anda por aí, e que não passa de poluição. Durante duas horas e quarenta minutos Santana mostrou porque é uma das matrizes fundamentais do jazz-rock latino. Com uma potente cozinha de dois bateristas e quatro percussionistas, o lendário guitarrista apoiado por um excepcional organista-tecladista e um sólido naipe de metais fez a multidão bailar e se emocionar com novos e velhos sucessos como "Yaleo", "Smooth", "Maria Maria", "Evil Ways", "Oye Como Va", "Black Magic Woman" e tantos outros.
Centenas de gatões e gatonas de meia idade dançavam, choravam e sorriam felizes, revivendo a mágica dos anos 60-70. Todo mundo saiu de alma lavada nessa noite de reencontro com um herói da cultura pop latina. Aqueles solos românticos com altos temperos caribenhos continua fazendo o povo viajar. Nem por isso Santana faz concessões: fez um show de grande músico para pessoas que admiram música.
Dedicou uma canção aos favelados do Rio que não puderam ali estar, dedicou temas à preservação da natureza, defendeu uma visão holística de mundo saudando Jesus, Maomé, Buda, Krishna e Xangô, declarou que o mundo vai ficar muito melhor sem George Bush e o que ele representa, e afirmou que sua música existe para exaltar o amor, a solidariedade, a coragem, a elegância e a dignidade do homem.
Mas se alguém imaginar que tudo isso teve clima de discurso político, engana-se redondamente. As palavras de Santana foram como hai-kais abrindo ou fechando alguns de seus grandes temas musicais.
Nas proximidades do palco, o coro e a dança de uma galera com maioria de 40 a 60 anos emocionou Carlos, que em três oportunidades se aproximou, se abaixou e solou para os mais empolgados. Num dos solos citou "Aquarela do Brasil" e Ary Barroso sorriu no céu. No bis final, que teve um medley de meia hora de duração pilotado por "Evil Ways" do seu primeiro álbum de 1968, Santana armou uma incrível batmacumba com clima de gafieira carioca, e muita gente sambou e salsou nos suingues de uma super-banda que também fez a galera mais jovem vibrar.
O que mais impressiona na arte de Carlos Santana, além de sua cultura e espiritualidade, é sua fé inabalável nos poderes transformadores da música. Com 58 anos de idade, sua alma continua a daquele revolucionário de 17 anos que encantou Woodstock. E a forma serena e feliz com que ele se comunica o tempo todo com os outros músicos, em especial sua amada cozinha, nos faz sentir o líder solidário que ele é.
E afinal, será que um dia teremos um governante sensível capaz de trazer artistas como Carlos de volta para essa cidade que ele tanto ama, para que o povo carioca e seus músicos geniais possam viver uma grande confraternização criativa, fora dos esquemas do show-business?
Paulo Veríssimo é cineasta.