......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



26.08.2007
SE A IMPRENSA NÃO EXISTISSE, SERIA PRECISO INVENTÁ-LA

Honoré de Balzac

Ediouro

184 páginas

R$ 19,90 a R$ 29,90

Por Isabela Calil - contato@fazendomedia.com

O dono da premissa acima é Honoré de Balzac, escritor francês que viveu entre o final do século XVIII e início do XIX, autor de clássicos como A mulher de 30 anos, Ilusões Perdidas e Comédia Humana. Sua crítica à sociedade, entretanto, não se limita a histórias romanceadas da burguesia de sua época; o autor também usa sua pena para desnudar o abuso de poder cometido pelos jornalistas. Tais escritos tornaram-se uma obra marginal de Balzac, mas que merecem igual atenção. Os Jornalistas é leitura indispensável para todos que pretendem entender as engrenagens dos primórdios da imprensa.

O livro reúne dois textos do mestre: Monografia da imprensa parisiense e Salões Literários. Sua revolta com os rumos do jornalismo é explícita. Falam por si frases como: "A imprensa será morta como será morto um povo: dando-lhe a liberdade", "Batamos primeiro, nós explicaremos depois" - essa então, uma máxima adotada até hoje, saiu diretamente das redações para as delegacias - e ainda "Quanto menos idéias se tem, mas longe se vai".

Divididos em gêneros - o publicista e o crítico - Balzac já diz a que veio: "esses dois, com seus subgêneros e variedades, têm como principal caráter não ter nenhum caráter. Escrevem sempre a mesma coisa e utilizam a imprensa como trampolim para obter vantagens. A definir".

Redatores tornam-se medíocres "através de um trabalho fastidioso, estéril, no qual se ocupam bem menos em exprimir seus pensamentos do que em formular aqueles da maioria de seus assinantes". O desejo de revelar toda a patifaria cometida pelos poderosos rendia-se ao capitalismo. Jornal bom é o que vende mais. Acontecimentos políticos não devem ser interpretados, isso pode espantar leitores, pois "há fatos impossíveis de serem contados, e cautelas necessárias com os fatos que falamos".

A coisa toda já cheira muito mal, mas é apenas o início das dores, nada escapa ao olhar atento de Balzac, que também foi jornalista. Os escrevinhadores, que falam muito, mas não dizem nada, são capazes de elaborar inúmeros artigos ou brochuras tomando como ponto de partida a mesma idéia. O que o gênio faria em poucas linhas, o infeliz esgoela durante anos. O autor que foi lido e analisado por Karl Marx e Engels ainda denuncia a fraude dos boletins que, ao ser descoberta, ainda é perdoada, pois ajudou Napoleão em seus interesses. Todos entram no hall das denúncias balzaquianas.

Há também aqueles que cobrem as sessões da Câmara. Sua função é corrigir e ressaltar a fala do aliado e arruinar a de que lhe faz oposição - essa tática tem se mostrado das mais primorosas, a grande mídia utiliza-a aos montes.

E o que dizer do homem, segundo o autor, o Agregado desligado, que janta na mesa de todos, ora criticando, ora enaltecendo conforme seu bel-prazer? Inúmeros são os tipos de jornalistas, todos presentes na mídia atual.

O novelo de desgraças parece interminável, o quadro se mostra desanimador. Entretanto, o discurso apaixonado de Balzac também aponta uma saída: a oposição, chamada por ele de panfleto, em certas situações pode se tornar mais importante que o jornal. Sua função é racionalizar criticamente, matando ou ferindo um abuso, uma questão política ou um governo. Sobre tais escritos ele afirma: "O verdadeiro panfleto é uma obra do mais alto talento, se, todavia, não for o grito do gênio".


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