......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



24.12.2006
EU GOSTO DE BARROCO

Por Guilherme Mazzocato - contato@fazendomedia.com

Sucessões de ondas desconexas, ou disformes, ou turbulentas - às vezes nas colunas de uma igreja, ou nas vestes de alguma santa, ou no olhar de uma santa - o barroco, mais do que um estilo, é um verdadeiro sentimento artístico que sintetiza e opõe euforia e angústia, às vezes tênue, às vezes abruptamente separadas por pinceladas ou golpes de cinzel ou versos de poemas.

Barroco são versos, figuras de linguagem, turbilhões de pensamento ou de cor, e, acima de tudo, são olhares em diagonal, seja para cima, em súplica, para baixo, em desespero, ou para os lados, em complacência, para dentro, em reflexão, em piedade, em regozijo, picardia, desdém, etc.

Se foi no renascimento que os artistas conseguiram capturar a forma humana em madeira, pedra ou tinta - óleo ou nanquim - foi no barroco que os artistas fizeram o mesmo com a alma humana, ou seja, com uma das mais difíceis artes que nós mesmos, os homens, nos propomos: imitarmos a nossa própria emoção.

Desde o último dia 13 (do mês de outubro) até o dia 11 de fevereiro de 2007, na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente no Centro Cultural do Banco do Brasil estarão hospedados, entre vitrines e o zelo dos muitos seguranças do museu, alguns dos pares de olhos de madeira e pedra-sabão mais barrocos - ou seria melhor dizer "humanos"? - jamais concebidos pelas mãos de um homem. Tratam-se dos olhos, e dos corpos inteiros, esculpidos há duzentos anos ou mais, no interior de Minas Gerais, pelo entalhador e escultor coxo Antônio Francisco Lisboa, conhecido nos livros de arte e história como O Aleijadinho.

A exposição, intitulada Aleijadinho e seu tempo: fé, engenho e arte, patrocinada pelo Banco do Brasil e pela Companhia de Seguros Aliança do Brasil, ocupa o primeiro e segundo andares do antigo prédio da instituição. Como o nome da exposição indica, as peças que estarão por estes meses ali expostas não tratam exclusivamente de Aleijadinho.

Além dos oratórios, ex-votos e estátuas de santos do mineiro coxo, há também um acervo de obras de outros mestres residentes em Minas, contemporâneos seus, como o Mestre de Piranga e Francisco Vieira Servas, bem como toda uma contextualização histórica da Minas Gerais da época de Aleijadinho: mapas cartográficos, maquetes de igrejas, edições raras de relatos de viajantes, gravuras, aquarelas, fotos de romeiros em Ouro Preto e Congonhas do Campo, documentários, além de outros recursos, fazem com que os dois primeiros andares no prédio da rua Primeiro de Março estejam girando até fevereiro em torno das Minas Gerais colonial e seu escoado ouro, de Aleijadinho e sua esculpida pedra-sabão.

A exposição, mais do que traçar um paralelo da arte do maior escultor brasileiro de todos os tempos, mostra um pouco do que foi o mundo em que Aleijadinho habitou, a Minas colonial, aurífera, mineradora. A serra que ia do Rio das Mortes até o Sabará foi um verdadeiro marco divisório da história nacional, uma vez que em um curtíssimo espaço de tempo, se instalou em uma região inóspita e de difícil acesso toda uma sociedade luso-brasileira extremamente desenvolvida e urbanizada para a época, até mesmo para os padrões europeus.

Vila Rica, atual Ouro Preto e cidade natal do escultor, em um período de aproximado meio século tornou-se a cidade mais populosa de toda a América Latina com uma infraestrutura que incluía casas de contagem, órgãos públicos de alta função, colégios, igrejas ricamente ornamentadas e prensas. Naturalistas e viajantes atravessavam o Atlântico só para conhecer essas paragens da América do Sul e, ao longo de alguns decênios, metade da população de Portugal, a metrópole colonial, se largaram no mar com o único intuito de tentar a sorte no Eldorado da vez. Em suma, uma sociedade inteira e extremamente complexa pareceu simplesmente nascer da terra, tal como os veios de ouro encontrados nos rios da serra mineira.

Hoje em dia, tão acostumados com as nossas gigantescas megalópoles paulistanas, cariocas, ou mesmo belorizontinas, é difícil imaginar que a ex-Vila Rica já foi o epicentro econômico, urbano e cultural do Brasil. Ainda mais quando se anda por suas ruas, por onde se vê somente algumas pitorescas ribanceiras apinhadas de prosaicos casarios coloniais.

É muito bonito, sem dúvida, mas daí para dentro daquele valezinho caberem movimentos de independência que mobilizaram a corte portuguesa, regulares e quase anuais vindas de emissários reais e papais, residentes que constavam entre os mais ricos e poderosos brasileiros de então, entre outras coisas, é algo inconcebível para quem está habituado com a Rua do Catete, ou a Presidente Antônio Carlos, e ter a consciência de que isso também já faz parte do passado da história política do país - e passado cada vez mais remoto.

Já existe uma Esplanada dos Ministérios em Brasília, uma Petrobrás, uma Fiesp, uma Transamazônica, um MST ou um FMI para tornarem o Teatro Municipal ou a Biblioteca Nacional ou a Estação de Ferro Leopoldina cada vez mais pequerruchos. Às vezes eu penso que a história desse país se fez com sucessivas trocas de pele, qual uma cobra. E também com desperdício, muito desperdício. É típico de uma sociedade consumista e esbanjadora como a nossa: nos desfazemos de uma capital nacional e prédios públicos como quem se desfaz de um velho toca-fitas. Nem tentamos levá-lo pro conserto: simplesmente jogamos no lixo e compramos um novo, com remasterização digital, ou mais espaço para estacionamento e heliporto.

A exposição do CCBB vale, além de muitas outras coisas, por isso: para tentar ver, no reflexo dos muitos olhos de madeira e pedra-sabão de Aleijadinho um pouco dessa velha Minas, desse velho Brasil, em que toda a modernidade, todo o fluxo de novidades e de idéias e de pessoas se davam em uma estrada de terra, ou em uma subida de ribanceira, a pé ou a cavalo, acendendo um lampião a óleo, ou nas linhas desconexas e turbulentas das colunas de uma igreja ou nas vestes de uma santa.

Vão e vejam. Vale a pena.

Poucas e boas:
Na brochura falam da arte barroca brasileira como o movimento artístico verde-amarelo mais conhecido e admirado lá fora. É mesmo? Sempre achei que fosse a Bossa-Nova, ou o Cinema Novo, ou a Tropicália, mas tudo bem. Não sou um grande entendido, não vou discutir. De qualquer maneira, o Barroco tupiniquim merece.

Agora, vernissages (ah, sim, conferi a exposição saída do forno. Minha amiga Elisa tinha dois convites.), não sei se só nesse país ou de uma maneira geral, são um verdadeiro transtorno, com todos aqueles pseudo-intelectuais e novos ricos se acotovelando para ver uma exposição que parece pouco lhes dizer algo, dada a considerável pressa pela qual eles passam pelas obras, atrapalhando poucos infelizes, como eu, que realmente estão admirando as obras. Eu me sentia como se fosse um carro com pneu furado, em plena Barata Ribeiro na hora do rush, com todo o resto de Copacabana buzinando atrás de mim para eu andar. Assim não dá.

Aliás, os melhores dias mesmo para se visitar um museu são os do meio da semana, quando não tem ninguém para encher o saco e daí você pode ficar parado na frente das peças de exposição quantas horas você quiser. Mas só não espalhem essa informação que aí todo o mundo vai querer fazer o mesmo.

Os quitutes estavam muito bons.


Clique aqui para assinar nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design