
22.03.2007
LUÍS XOHÃ E CARLOS TUKANO
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Luis Xohã, de 50 anos, tem os traços indígenas bastante acentuados. Cabelos longos, tronco largo e pele vermelha. Na segunda-feira (19), tinha os braços e mãos pintados com tinta de jenipapo e lembrava muito os primeiros guerreiros que o Brasil conheceu. Mas basta conversar um pouco com ele para perceber que esse descendente dos Karajás nada tem de belicoso. Antigo morador da Ilha do Bananal, em Goiás, veio para o Rio de Janeiro vender artesanato depois que o homem branco devastou a mata a ponto de inviabilizar a vida em sua aldeia.
Sua história não é muito diferente de Carlos Tukano, que veio da região amazônica, mais precisamente do Alto Rio Negro. Aqui no Rio os dois se encontraram no antigo Museu do Índio, que fica na Universidade do Rio de Janeiro (UERJ). Quando chegaram, em outubro do ano passado, o prédio estava em péssimas condições; havia muito entulho e lixo, resultado de trinta anos de abandono. Agora esses dois representantes dos povos originários pedem apoio para reestruturar o museu e transformá-lo num espaço de divulgação cultural gerido por eles próprios.
"Sempre há uma desculpa de que o índio não tem condições de gerir as coisas, de saber quais as suas necessidades, suas prioridades, mas na verdade falta ao homem branco saber entender o índio brasileiro. Lá fora existe mais informação sobre os índios brasileiros do que no Brasil. Nós já sabemos dizer o que é bom e o que não é nessa sociedade", conta Luis Xohã.
Carlos explica que existem cerca de 220 povos indígenas no Brasil e são faladas 185 línguas diferentes. Citando o IBGE de 2005, ele diz que há 350 mil índios vivendo na floresta e outros 350 mil nas cidades. E faz uma correção histórica: "Na sala de aula, o professor costuma apontar para o mapa e dizer que 'aqui viviam índios'. Não, o certo é dizer 'aqui ainda vivem índios'".
Luís Xohã e Carlos Tukano não vivem mais na floresta. Vieram para a cidade em busca da sobrevivência que lhes foi negada. Mas nem por isso são pessoas amargas. Pelo contrário, é possível encontrar certa doçura em suas vozes, além de um carinho muito grande que manifestam, sobretudo, quando falam da terra, da vontade de viver em suas ocas, com suas famílias e amigos.
Os hábitos e costumes dos povos originários compõem uma vasta cultura, que não se reduz apenas ao folclore e danças típicas. O índio conhece melhor do que ninguém as plantas e suas propriedades curativas. "Mas poucos meios de comunicação têm interesse. Os estrangeiros têm mais. Eles vêm aqui e usam o índio para mostrar a eles qual planta é melhor para dor de cabeça, dor de barriga. Até o sangue dos índios está sendo levado pra fora. Depois eles exportam para o Brasil por bilhões", explica Luís.
O índio Karajá também criticou a Fundação Nacional do Índio: "A tutela da Funai foi muito danosa ao índio, porque por ela não podíamos crescer. Mas podíamos ser grandes comerciantes, médicos. Isso não é falta de capacidade, é falta de oportunidade". Falha que pode ser constatada com um simples levantamento: apenas 0,01% dos povos originários brasileiros estão matriculados num curso de nível superior. Um desperdício.