......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com


21.03.2006
OLHO VIVO NA INFORMAÇÃO

Por Malu Muniz - contato@fazendomedia.com

Quando um jornal é criado, um dos primeiros passos consiste em se pensar no público-alvo. Para isso, algumas perguntas são essenciais, como por exemplo: "Quem vai ler meu jornal?", "Quanto poderá pagar meu leitor?", "Quais os interesses desse público para quem escrevo e que espero atingir?".

Mas e se houvesse um jornal feito pelo próprio leitor? E se aquele conhecido que mora logo ali na esquina fosse o "repórter" que faz a entrevista, que escreve sobre as carências do bairro, as curiosidades do local, as pessoas e situações que o cercam? Só mais uma para terminar com as suposições: e se toda a produção estivesse disponível em um .com e pudesse ser acessada por inúmeros navegadores?

O projeto "Olho Vivo" parece ter eliminado as condicionantes e partido para ação ao permitir que adolescentes de baixa renda das comunidades da Grota, Morro do Preventório e Jurujuba, em Niterói, pudessem editar jornais comunitários. Márcia Correa e Castro, 37 anos, jornalista e coordenadora executiva da Bem TV, que é a organização que desenvolve o projeto Olho Vivo, explica que a iniciativa começou em 2003 com uma oficina de fotografia realizada no Preventório. O Niterói Comunidades (www.niteroicomunidades.org.br) é uma das atividades desenvolvidas no âmbito do projeto Olho Vivo.

- Achamos que seria bacana, então, abrir uma janela no projeto para fora dessas comunidades, levando a produção dos meninos para a cidade, para o país. Aí veio a idéia do sítio eletrônico que, na verdade, junta a fome com a vontade de comer: ao mesmo tempo disseminamos por aí as notícias da região - relembra Márcia.

A jornalista, que aponta o projeto como uma oportunidade de promover a inclusão digital, conta que a construção da página na internet contou com o esforço de jovens das três comunidades. Para Márcia, um dos benefícios para a comunidade é a garantia de maior visibilidade para os moradores, suas histórias e cotidiano.

- Adoraríamos que o sítio pudesse pautar a mídia local - jornais como "O Fluminense", "JB Niterói", "Tribuna". Sabemos que é uma estrada longa a percorrer porque estas populações permanecem como receptáculos da piedade, desprezo ou desconfiança da cidade dita oficial - afirma Márcia.

Segundo a jornalista, um dos objetivos da produção de informação comunitária é criar espaços alternativos, para se contrapor ou dialogar com a invisibilidade das comunidades nos jornais. No caso do Morro do Preventório, de acordo com o Censo de 2000 realizado pelo IBGE, eram cerca de 1404 domicílios, com uma população de 4870 pessoas. Na contagem da Associação de Moradores da comunidade, o número de habitantes já é maior que 10 mil.

Márcia destaca ainda que o projeto contribui para mudar o jeito de pensar dos jovens que participam das matérias como "repórteres", apuram, editam, diagramam; enfim, se comunicam. A coordenadora da Bem TV diz que através do reconhecimento, da oportunidade de se expressarem e se retratarem, não só os jovens como a própria comunidade ganha auto-estima e se sente valorizada.

Márcia conta que os jovens "repórteres" agregam a suas matérias uma certa intimidade com o assunto sobre o qual escrevem, afinal, trata-se de uma realidade que os cerca. Eles são flecha e alvo, produtores e receptores da informação. Assim, a jornalista reconhece uma mudança na abordagem de alguns temas em relação aos jornais maiores que estabelecem um diálogo com um público bastante diferente.

- No auge da campanha do "O Globo" pela remoção das favelas, o jornal do Preventório publicou a seguinte manchete: "Remoção de Favelas: o Preventório corre esse risco?". Ou seja, o que para a mídia hegemônica é uma necessidade, uma obrigação do Estado, no jornal do Preventório aparece como algo a ser temido e combatido. É a materialização verbal da luta de classes, não é? Você vê a população do Preventório e a classe média que consome "O Globo" em posição de enfrentamento, discutindo com seus pares como superar o ator antagônico. - compara Márcia.


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