O Natal é o dia observado pelos cristãos, em comemoração ao nascimento de Jesus Cristo. As Escrituras Sagradas (Bíblia) não revelam a data exata do nascimento de Cristo e os cristãos mais antigos não tinham nenhuma ocasião fixa para observá-la. Já em fins do século IV, no entanto, o Natal era celebrado nas igrejas em geral, embora as datas fossem diferentes nas diversas localidades. Vários métodos eram usados na tentativa de computar o dia do nascimento de Cristo e entre as datas sugeridas pelos eclesiásticos antigos havia 2 de janeiro, 18 de abril, 19 de abril, 20 de maio e 25 de dezembro. Finalmente, o dia 25 de dezembro veio a ser a data oficialmente reconhecida para o Natal, porque coincidia com os festivais pagãos que celebravam a Saturnália e o sostício de inverno.
Dessa forma, a igreja oferecia ao povo uma alternativa às festividades pagãs, e acabou reinterpretando muitos dos símbolos e ações para torná-los aceitáveis a fé e prática cristã. A media que o cristianismo se espalhava por toda a Europa, assimilou muitos costumes dos festivais de inverno pagãos, tais como o azevinho, a árvore de natal e a fogueira de toras. Ao mesmo tempo, novos costumes natalícios, tais como o presépio e os hinos de Natal, foram introduzidos pelos cristãos. A partir do século XX, o Natal veio a ser observado quase que universalmente, de uma forma ou de outra.
Com a expansão do cristianismo nas culturas da África, Ásia e América Latina, novos costumes e idéias foram incorporados à celebração cristã do Natal. De qualquer forma o que se quer frisar com relação à data natalina é o nascimento do Salvador da humanidade. Porém, como imaginar uma data tão festiva e que propõe tantas possibilidades de alegria, diante de uma carta de uma criança enviada ao Papai Noel, em cujo conteúdo encontra-se o pedido de um presente no mínimo curioso: um pão com manteiga e um copo de leite?(2)
É muito interessante o fato de o texto bíblico nos informar que Jesus nasceu na cidade de Belém da Judéia. Belém fica situada a 777 metros de altitude, à aproximadamente 10 quilômetros a sudoeste de Jerusalém. Na época das atividades de Jesus, Belém era uma cidade muito pequena e ainda conserva este perfil, vivendo exclusivamente do comércio. Mas o que é importante ressaltar é o significado do nome Belém. Em hebraico a tradução do nome é “Casa de Pão”.
Não é sugestivo que aquele que é motivo da comemoração do dia 25 de dezembro e que multiplicou pães para alimentar multidões tenha nascido justamente numa “Casa de Pão”? Não é, da mesma forma sugestivo, que o nasceu em uma “Casa de Pão” tenha dito em um dos seus momentos de embates com os religiosos e políticos de sua época: “Eu sou o pão da vida”? Também não é curioso que aquele que nasceu em uma “Casa de Pão” e se colocou como o “pão da vida” tenha feito um último discurso para os seus discípulos na Ceia comparando o seu corpo com um pão, do qual todos deveriam comer(3), sob pena de não ter comunhão com Ele? E ainda, como podemos relacionar o “pão da vida” com as muitas pessoas que pedem de presente ao Papai Noel, no dia do Natal, um pão com manteiga e um copo de leite? O que aconteceu com o espírito do Natal? Se é que existe esse tal espírito! Mas se existe, será que ele não se equivocou assumindo em sua trajetória histórico-afetiva um compromisso maior com a tradição religiosa, quando deveria assumir tal compromisso com a humanidade em suas reais necessidades?
A data natalina é essencialmente tradicional, e a tradição tem como competência a arte de ludibriar os compromissos sentimentais redirecionando-os para momentos históricos exclusivos, que uma vez atendidos tornam desnecessárias quaisquer situações de relações constantes. Desta forma, toda e qualquer tradição está intimamente relacionada às estruturas e não as pessoas e suas necessidades. A tradição mantém viva a lembrança, mas não alimenta o faminto. A lembrança é subjetiva, a fome é objetiva. Quem tem fome tem pressa e não compromisso com a tradição. Mas a quem interessa sustentar a tradição? Somente àqueles cuja força é capaz de transformar um espírito natalino em espectro fantasmagórico que leva terror ao invés de segurança pública; aqueles que já perderam de vista as necessidades do próximo em detrimento de seus próprios interesses; aqueles que, a exemplo do rei Herodes que mandou matar todas as crianças de dois anos para baixo, quando do nascimento de Jesus, com medo de perder o trono, destroem sonhos e até mesmo pessoas com medo de perder o poder; aqueles que capitalizam votos nas campanhas eleitorais coronelificando (se me permitem o neologismo) o nepotismo. A estes interessa manter a tradição, pois para eles a tradição é a estrutura ideológica do poder.
Mas, graças ao bom e eterno Deus ainda há uma esperança, e esta não vem das estruturas de poder, mas sim dos simples, cujas necessidades conseguem interpretar melhor o espírito do Natal, tornando-o mais compatível com o verdadeiro significado do nascimento de Jesus. Lembremos que o texto bíblico citado no início deste artigo faz menção de um grupo de estudantes das estrelas que vieram até Belém conhecer o menino Jesus e adorá-lo. Estes podem representar uma classe de pessoas, cujo objetivo é melhorar as relações com o próximo através do compromisso com o reconhecimento do valor da vida, da pessoa como pessoa, e não como objeto. Valorização esta percebida no objetivo de adorar o menino Jesus.
Terminando este artigo sou, necessariamente, obrigado a fazer uma última pergunta: o que significa para nós hoje a adoração ao menino que nasceu em Belém? Significa sustentar uma ideologia capitalista desumana? Significa romper com o humano em detrimento das estruturas? Ou significa dar um pão com manteiga e um copo de leite a quem tem fome? Como Jesus responderia a estas questões? Lembre-se: o Natal é dia de gente e não de estruturas!
(1) Por volta do ano 5 ou 4 a. C. Por um erro antigo, a era cristã começou alguns anos depois do nascimento de Cristo. Herodes reinou de 37 a 4 a. C. O seu reino acabou por abranger a Judéia, a Iduméia, Samaria, Galiléia, a Peréia e outras regiões para o lado de Aurã.
(2) Reportagem do tele-jornal Fala Brasil, da Rede Record de Televisão, levada ao ar às 8:30 horas do dia 20/12/2007.
(3) Referência à eucaristia ou Santa Ceia como ensinam os protestantes.
(*) Eduardo Gomes, Bacharel em Teologia, Mestrando em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Fluminense, Professor Titular de Teologia Sistemática da Faculdade de Teologia Betel Brasileira (RJ) e Diretor Administrativo do Gênesis Instituto Bíblico na Primeira Igreja Batista em São Gonçalo (RJ), de onde é membro.