A entrada é arborizada, ampla, organizada. Um restaurante colorido e aconchegante precede o estacionamento e a atmosfera de ordem e paz. Enquanto alguns namorados se beijam nos bancos, ainda lá fora, curiosos observadores erguem o corpo tentando enxergar, de longe, as infindáveis belezas do lado de dentro.
Passada a roleta, são as aves o que primeiro se vê no zoológico do Rio. Lindas, coloridas e inquietas, são as primeiras das cerca de 400 espécies, dos mais de 2 mil animais que vivem nesse endereço. Mescladas ao ambiente ordenado e limpo, cheio de cores e indicações por todos os seus 138 mil metros de extensão, dão a impressão a muitos de que estão protegidas e em paz. De que são parte de um dos raros pedacinhos do sufocante ambiente urbano destinados à casa humana original, a natureza.
Seria verdade não fosse uma constatação tão óbvia quanto sua beleza: estão presas. Numa gaiola grande, mas não o suficiente, seguem seus repetitivos dias privadas da simples liberdade com que contava a esmagadora maioria de seus antepassados. E as cerca de 70 mil pessoas que, a cada mês, visitam esses animais, não se dão conta de seu drama. Movidos pela incrível capacidade humana de não questionar tudo o que é socialmente considerado “normal”, os visitantes nunca se perguntam o que faz um pingüim trancado numa bacia de cimento no calor do Rio de Janeiro.
Na entrada, muito próximo às aves, estão os macacos. Macaco-verde, macaco-de-cauda-longa, macaco-rabo-de-porco, mandril, babuíno-sagrado, e diversos outros. São talvez os animais em cuja face se vê mais claramente a tristeza, seja porque podemos ler melhor seus sentimentos, dada a proximidade biológica entre nossas espécies, ou porque os geralmente alegres e saltitantes bichinhos carecem mais de liberdade. Ao ver o macaco-rhesus, a menininha Isis de 4 anos pergunta a seu pai, intrigada: “porque o macaquinho não está brincando no pneu? Tá com preguiça?”. O pai responde que é por causa do horário de almoço.
O imponente tigre-de-bengala é outro que parece velho e lento, assim como o jacaré-coroa e a onça pintada, que no zoológico do Rio, curiosamente, é negra. Acusar de covardia a administração do lugar só não seria mais criminoso do que privar inocentes de liberdade. Não são culpados. São apenas outras vítimas de uma cultura segundo a qual os animais são como um quadro que anda.
Os administradores do zoológico ainda são parte dos que mais se preocupam com esse animal cruelmente enclausurado. Além de abrigar animais que poderiam, não fosse o zôo, estar engrossando a lista dos cerca de 8 mil bichos que vivem em abrigo no Rio de Janeiro, a administração criou o programa Bem-Estar Animal. Através dele se pretende diminuir o estresse dos animais com uso de brinquedos, bolas, espelhos, alimentos escondidos, etc.
Quem visita o local, entretanto, percebe o quão apertadas são as jaulas, as gaiolas, os pastos, e quão raros os brinquedos. Em meio à alegria das crianças e o colorido das placas, revelam-se animais visivelmente tristes, condenados a uma rotina de angústia e prisão. Questionado se não se importava com a situação dos animais, o taxista André de Souza que visitava o zôo pela primeira vez deu uma resposta muito comum. “Eles foram feitos pra isso.”
O morador mais ilustre que o zoológico já teve confirma o estresse dos animais pelo avesso. Macaco Tião foi o animal mais alegre dali até 1996, quando morreu. Não por acaso, foi um dos poucos a andar com liberdade pelos espaços, visitando quase sempre a sala de administração. O famoso símio que, em 1988, chegou a ganhar quase 10% dos votos nas eleições municipais, graças à campanha dos humoristas do Casseta, era conhecido pela irreverência, pelo carinho e pela malandragem. Seria exagero associar essas características à sua liberdade?
Além de dar nome à principal via, a Alameda Macaco Tião, ele também foi homenageado com uma estátua no zôo, ao lado da qual as crianças adoram ser fotografadas. Aliás, essas são, sem dúvida, as grandes personalidades do zoológico. Na sociedade moderna, é em ambientes como esse que as crianças têm seu primeiro, e muitas vezes único, contato com a natureza.
Tudo remete ao universo infantil. Desde os parquinhos aos desenhos que enfeitam todos os recantos do lugar. A cada mês, cerca de 110 turmas escolares visitam o zoológico. “É uma festa. Eles adoram vir. Criança adora bicho” comenta a professora Tatiana de Campos. De fato, é visível o encantamento dos garotos com tudo.
Lamentável que, como aconteceu com os pais deles, e com os pais dos pais deles, estão aprendendo a considerar “normal” o aprisionamento injustificável dos animais. É como se desde a escola, o cidadão aprendesse a aceitar o fetichismo de prender bichos que nasceram livres para exibição gratuita.
Há no zoológico, inclusive, algo chamado minifazenda. Nesse local foi construída, em miniatura, a simulação de todos os estereótipos daquele tipo de fazenda de antigamente. As vacas no pasto, o cavalo no estábulo, as galinhas soltas. Como era comum no Brasil antes da indústria inserir os animais na lógica da cadeia de produção (galinhas enclausuradas em salas iluminadas 24 horas, vacas com espaço restrito pela lógica de engorda, etc).
Embora considere realmente negativo a existência de animais em zoológico, Isabel Cristina Nascimento, presidente da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais (Suipa), lembra que as unidades reproduzem animais em extinção e servem de casa aos que, não fosse o zôo, estariam isolados em abrigos. “Mas claro que não deveria ter um camelo, um elefante. São animais que não estão em nossa fauna”, adverte Isabel.
Natural da Índia, o elefante mora em um Taj Mahal próprio. É a única construção diferente no minúsculo espaço onde vive. O camelo já não tem tanta sorte. Divide com o dromedário não apenas as semelhanças biológicas, mas também a simplicidade da tenda de palha que têm como casa. Sua vida no zôo é certamente mais monótona do que seria nos desertos do norte da África, de onde vem.
Entretanto, ao se deixar de lado qualquer revolta com o cerceamento gratuito de liberdade, não há como não se encantar com a beleza desses animais. Seja aves como o gavião e o tucano, répteis como o iguana e o cágado, ou mamíferos como o leão. Estão todos ali, a nos relembrar o quão magnífica era a natureza original, onde o homem viveu durante quase toda a sua trajetória por esse planeta, com a exceção única de um breve período histórico conhecido pela alcunha de modernidade.
As placas de recados do zoológico mais antigo do Brasil, seguindo o discurso politicamente correto que incrivelmente as marca (jogue lixo na lixeira, não dê comida aos animais, etc), pede aos jornalistas que registrem as novidades e acontecimentos. Novidades? Acontecimentos? Por ora, vem à memória apenas uma velha frase certa vez encontrada num artigo de jornal: “como é que tantas espécies podem ser afetadas pela vaidade de uma única?”