
20.06.2007
"MEU BRASIL"
Documentário brasileiro será exibido no Festival Cinesul: dia 20 de junho, às 16h, no CCBB do Rio de Janeiro
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Santa Cruz, Três Rios e Parada Angélica. Desses três bairros do subúrbio do Rio de Janeiro saem Gaúcha, Carlos e Juliana, os três personagens principais do documentário Meu Brasil (VideoForum Filmes, 70'). O foco da diretora Daniela Broitman é a ida de 33 líderes comunitários ao Fórum Social Mundial de 2005, realizado em Porto Alegre. Mas não só.
Meu Brasil está interessado em saber onde vivem, como vivem e por que lutam aquelas pessoas que assumem papel de liderança em seus bairros. Foram 130 horas de gravações em que a câmera esteve aberta para que os próprios líderes comunitários contassem suas histórias, suas angústias, suas alegrias, seus problemas e soluções.
Gaúcha, por exemplo. Negra, veio do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro não devido à fome ou em busca de emprego. "Foi por discriminação racial", conta. A grande decepção de sua vida aconteceu durante um concurso de canto, em Porto Alegre, que teve ninguém menos que Lupicínio Rodrigues como jurado. Apesar de sua voz belíssima, como o documentário se encarrega de demonstrar, a então jovem cantora ouviu alguém comentar: "Ela canta bem, essa negrinha, mas ela é muito feia para representar o Rio Grande do Sul", diz chorando.
O segundo personagem de maior relevo, Carlos, representa a discriminação social. Tendo freqüentado uma universidade e vivido a maior parte de sua vida com uma boa condição financeira, esse instrutor de mergulho acaba perdendo o padrão a que estava acostumado após uma decepção amorosa. Em sua comunidade, passa a fazer um trabalho de conscientização com os moradores. Prevenção de Aids, preservação do meio-ambiente e trabalhos com material descartável.
A outra discriminação bastante evidenciada por Meu Brasil é a sexual. Juliana, cujo nome verdadeiro é Júlio, é travesti. Já sofreu desde agressões físicas a olhares perturbadores. Num de seus depoimentos, ela conta que muitas vezes fica em dúvida sobre em qual banheiro entrar. "Porque alguns homens acham ruim. E algumas mulheres também não gostam". As discussões sobre os direitos GBLT (Gays, Bissexuais, Lésbicas e Transgêneros) continuaram durante o Fórum.
Quando os líderes comunitários chegam a Porto Alegre, as lentes de Daniela enfatizam a interação entre eles e deles em relação aos outros participantes. Eis aí o ponto alto do documentário. Como se daria a troca de experiências daqueles líderes comunitários com ativistas do mundo inteiro? São oficinas de capacitação de lideranças comunitárias, palestras de Leonardo Boff, Frei Beto, Ignácio Ramonet, Hugo Chávez, Eduardo Galeano e o convívio com gente do mundo inteiro. "Se o pobre não tomar consciência das razões de sua pobreza, dificilmente conseguirá sair dessa condição", diz Boff.
Na marcha de abertura do Fórum, um cantor argentino puxa a diretora e diz: "grava isso". O resultado é fantástico. São imagens belíssimas, de gente de todo o mundo, cores de todos os tipos e bandeiras contra o imperialismo. Tudo isso emoldurado pelo ritmo envolvente de apenas um trecho dessa bela canção, que talvez jamais fiquemos sabendo se foi composta de improviso, já que o autor foi embora sem deixar contato: "Guerrilheiro, guerrilheiro / A guerrilha artística, o inimigo a me espreitar / no informe publicitário, para as crianças hambúrger de plástico / altas horas da madrugada, a notícia a se espalhar / é Brasília que está cercada, com as tropas do povo a cantar / e o homem do noticiário, pôs-se, em pânico a gritar / guerrilheiro, guerrilheiro".
Um dos resultados foi, certamente, uma maior politização do grupo. E a confirmação de que lutar é preciso. Se um outro mundo é possível, outras comunidades também são possíveis. Na volta, já no Rio de Janeiro, muitos líderes comunitários começam a falar em organizar os moradores não apenas para retirar o lixo de forma ordenada ou distribuir camisinhas, mas em explicar aos demais moradores que é fundamental exigir que a prefeitura assuma sua parte ou que os vereadores incluam o saneamento daquele bairro no orçamento municipal, por exemplo. Valores como "cidadania" passam a ser amplamente discutidos.
Há também qualquer coisa de autobiográfico neste documentário. Meu Brasil, além de ser o nome do filme, é também parte de uma música de Tito Climent, intitulada Brasil Saudoso. Em um de seus trechos, diz assim: "Não posso viver sem você / minh'alma faz tempo eu te dei / Brasil, quem vai embora te deixa, mas sem coração". Daniela Broitman viveu e cursou mestrado em jornalismo na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Foi pra lá decepcionada com as inúmeras injustiças sociais que existem por aqui, uma delas muito particular: seu pai morreu vítima de erro médico e os sócios dele aproveitaram a situação. Quando resolve voltar, está decidida a fazer um documentário com aquelas pessoas que podem reverter a situação do país. Exatamente como dizia o geógrafo Milton Santos: se um dia a mudança vier, vem de baixo. Por isso a câmera de Daniela está nas favelas. Ela quer entender essa dinâmica e lhe garantir maior visibilidade. Nesse filme, o povo tem cara. Pode não ser aquela a que estamos acostumados a ver na televisão, mas é a sua cara: Calejada, riscada, marcada por séculos de exploração.
É isso que Meu Brasil busca. Em vez de oferecer soluções ou tentar provar uma hipótese, o filme procura compreender o que leva alguém a lutar contra todos os tipos de discriminação, enfrentando intensa pressão da violência de bandidos, da polícia e de partidos políticos oportunistas, com o único objetivo de melhorar as condições de vida de sua comunidade.
O resultado desse trabalho já rendeu a Daniela a seleção para o Festival Internacional Cinesul, que acontece no Rio de Janeiro neste mês de junho. Meu Brasil foi um dos três brasileiros escolhidos para representar o país. Além de Daniela Broitman como diretora e roteirista, o filme teve produção executiva de Leonardo Dourado, fotografia e câmera de Reynaldo Zangrandi e Renato Carlos, som direto de Ivanildo J. da Silva e João Luiz Aranha, coordenação de produção de Alexandre Mancen, assistência de produção de Julia Kurk e montagem de André Ferezini, Júlio Souto e Daniela Broitman.