......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



20.02.2006
ESTÁ NA MODA SER CONSCIENTE

Por Andréia Nobre, do Reino Unido - arianaerbon@hotmail.com

A lucrativa indústria da moda vem sendo decididamente abalada pelos recentes acontecimentos ligados à saúde física e mental das modelos, sobretudo depois que a brasileira Ana Carolina Reston, de 21 anos, morreu em conseqüência de anorexia no ano passado.

Desde então, vários outros casos de morte pela doença, que causa distúrbios alimentares e danos ao organismo em geral, já foram divulgados na mídia nacional e internacional, reacendendo o debate sobre as regras rígidas a que as modelos têm de se submeter para se manterem na profissão.

Outro polêmico assunto é a influência que a indústria da moda tem sobre a sociedade, ditando estilos de consumo, entre eles a magreza extrema como imagem de beleza física que é, realmente, o que tira o sono de muitos pais de adolescentes atualmente. Nos anos 60 do século passado, a britânica Twiggy Lawson tornou-se a primeira top model a adotar o estilo 'magérrimo' de ser e lançando a tendência que perdura até hoje.

Protestos e diversas outras iniciativas relacionadas ao assunto têm ecoado mundo afora, como o banimento de várias modelos, consideradas muito magras, nos mais importantes eventos internacionais da moda. No Pasarela Cibeles, o mais concorrido evento espanhol na área, realizado anualmente em Madri, 5 modelos que tinham IMC (Índice de Massa Corporal) abaixo de 18 foram rejeitadas.

No Fashion Business, evento dedicado ao mercado e realizado em janeiro durante o Fashion Rio, houve um debate sobre temas como distúrbios alimentares, em especial a anorexia, com a coordenadora do núcleo de doenças da beleza da PUC-Rio, Joana de Vilhena Novaes, o médico especializado em pacientes com transtornos alimentares, Luiz Mikalauskas, a ex-modelo Luisa Pontes, que chegou a ter anorexia aos 17 anos, os bookers Sérgio Mattos e Morgana Arruda e a modelo e atriz Juliana Galvão.

Com o início da semana da moda de Londres, a ONG britânica AnyBody pretende promover, de uma forma divertida, a diversidade física e uma auto-imagem mais saudável, lançando um protesto onde pedem aos organizadores do evento para apresentarem modelos mais 'normais' e divulgando um abaixo-assinado e slogans como 'Queime o seu IMC' no seu website.

O grupo é formado por advogados, psicoterapeutas, artistas, profissionais da mídia e da moda. Ainda na capital britânica, o restaurante Bunpkim, bastante popular entre celebridades da indústria fashion, situado em Notthing Hill, recentemente tomou a iniciativa de oferecer refeições gratuitas a modelos hospedadas na cidade para o evento e que vestem tamanho zero, ou seja, cuja relação peso/altura, ou IMC, está abaixo de 18.

No lado comercial da indústria da moda, destaca-se ainda a onda de publicidade em torno das chamadas 'roupas éticas', feitas quase artesanalmente, como suéteres tricotados à mão e calças tingidas em casa. Segundo reportagem da Reuters também divulgada pelo jornal O Globo, o estilo já teria sido adotado por diversas grifes famosas e começa a ser comercializado pelos varejistas que ostentam o selo Fairtrade (comércio justo), criado na Holanda nos anos 80 pela fundação de mesmo nome.

Este certificado visa incentivar a compra de produtos importados de países em desenvolvimento, especialmente agrícolas, além de atestar que a produção é artesanal, atende a critérios ecológicos e de qualidade e garante que os agricultores estão recebendo um preço justo por seus produtos. Alguns militantes ainda preocupam-se com os direitos dos trabalhadores, alegando que nem sempre é possivel ter certeza que não houve exploração na linha de produção. Mesmo assim, o mercado já prevê fortes tendências de consumo de roupas éticas.

Já a National Portrait Gallery, em Londres, inaugurou no dia 15 de fevereiro uma exposição de imagens de celebridades captadas pelas lentes de cinco importantes fotógrafos do mundo da moda, provavelmente uma louvável tentativa de trazer de volta um pouco de dignidade à indústria depois de tantos reveses sofridos nos últimos tempos. A mostra vai até 27 de maio e traz fotos de personalisdades como Madonna, Brad Pitt e Juliete Binoche.


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