
19.09.2007
BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO 2007
Por Isabela Calil - contato@fazendomedia.com
Os aficionados por livros estão em festa na cidade do Rio de Janeiro por conta da XIII Bienal do Livro. Nos 571 mil m² dos três pavilhões do Riocentro os leitores se dividem nas tarefas de visitar os stands e assistirem à programação.
Entre os debates realizados no terceiro dia da Bienal estava o Desafio à lei e à ordem: os limites da violência, tema que, embora excessivamente divulgado pela mídia e respaldado pelas situações de violência cotidiana, não teve grande público; era possível observar várias cadeiras vazias. Compondo a mesa estavam Affonso Romano de Sant’Anna, Luis Eduardo Soares e João Trajano como mediador.
Quem começou a discorrer foi o crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna. Fazendo, em suas palavras, um “comentário literário sobre um tema tão anti-literário”.
Já Luis Eduardo Soares, secretário de segurança de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, deu seu recado com dados mais palpáveis: “São 45 mil crimes letais por ano, o que dá 27 crimes por cada 100 mil habitantes. Só a América Latina é responsável por 42% de mortes por armas de fogo no mundo.” O sociólogo também comentou a desigualdade da justiça, já que os mais pobres se tornam as maiores vítimas da violência. Sobre a invasão ao Complexo do Alemão ele foi claro: “Foram 19 mortes, sendo 11 criminosos. Em 2, 3 dias tudo tinha voltado ao normal e as armas voltaram ao morro, os lugares dos que morreram foram preenchidos por peças de reposição. Isso foi uma resposta política à sociedade. Mas não houve avanço. Não foi plantado outro tipo de vida lá.”
Caminhando pela Bienal
Andando pelo espaço via-se um público menor do que o da última Bienal. Os descontos também não eram muito generosos com os leitores, houve quem reclamasse porque o preço de um título da Editora Saraiva estava quase o dobro do anunciado em seu site.
As literaturas infantil e infanto-juvenil parecem ser as grandes apostas do evento. São vários stands dedicados às crianças e aos adolescentes, que marcaram presença no evento. As bancas de livros eram da altura do público mirim, facilitando a escolha dos novos leitores. Merece destaque a iniciativa da Martins Fontes, que resolveu trazer para o universo desses leitores grandes nomes da literatura mundial, como Fernando Pessoa, com “Poemas para crianças” e Kafka, que aparece como personagem em “Kafka e a boneca viajante”, de Jordi Sierra i Fabra (texto) e Pep Montserrat (ilustração), com previsão de lançamento para o ano que vem. Miguel de Cervantes e seu cavaleiro errante também se tornaram acessíveis à criançad:, o famoso romance do espanhol foi adaptado para o público infantil por Frederico Jeanmarie e Ângeles Durini. O resultado pode ser visto em “O engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha”.
Na Jorge Zahar Editor, Gustavo Duque Estrada, um dos vendedores, disse que entre os mais vendidos estavam “Textos básicos da ética: de Platão à Foucault”, de Danilo Marcondes Filho, e “Neve”, de Orhan Pamuk e ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2006.
À noite, no Auditório Machado de Assis, era possível participar do debate “Amor, Religião e Guerra”. O tema era abordado por Ali Kamel, Andrew Carroll, Gordon Sander, Jay Kopelman e mediado por Juliana Iootty.
Como todos os que compunham a mesa têm livros recentemente lançados (Ali Kamel, “Sobre o Islã”; Andrew, “Cartas do front”; Gordon, “A Família Frank que sobreviveu – Uma saga da Segunda Guerra” e Jay, “De Bagdá, com muito amor”), o debate foi, primeiramente, um convite à compra dos exemplares. Cada um falou um pouco sobre sua obra, mencionando também como surgiu a idéia de escrevê-las e o processo de criação.
Ali Kamel, apesar de chamar a esquerda Latino-Americana de nefasta, afirmou que ela não quer se impor pela força, ao contrário do fundamentalismo islâmico, principal perigo, segundo ele, nos dias atuais. O diretor de jornalismo da TV Globo, perguntado sobre a Guerra do Iraque, também soltou as pérolas da imparcialidade: “Jornalismo não é imposição de idéia. O que vai ao ar na Globo é um consenso do que acontece no Iraque”. Consenso? Jornalismo agora é questão de consenso? A derradeira veio em seguida: “Tento ser o mais isento possível”. Sim, Ali Kamel, nós acreditamos na isenção da Globo, como acreditamos que dois mais dois são cinco.