
Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
18.07.2006
ANIMA BRasil
Por Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
Quem acha que desenho animado é só para crianças vai se surpreender com a 14º edição do Anima Mundi. O festival, que é um dos três mais importantes do gênero, traz pela primeira vez dois longas-metragens brasileiros, além de muitas produções de vários países.
O sucesso do festival pode ser comprovado pelo tamanho das filas. Algumas sessões esgotaram, como a do curta "Guide Dog", continuação da história do cachorro histérico que representa o festival este ano. O cão é uma invenção de Bill Plympton que, depois de dois anos - quando mostrou ao público o cão no curta "Guard Dog" - o traz mais louco do que nunca.
O Anima Mundi 2006 estreou no último dia 14 (sexta-feira) e fica no Rio de Janeiro até 23 de julho. Depois segue para São Paulo, no Memorial da América Latina, onde ficará de 26 a 30 de julho. No Rio, as exibições acontecem no Centro Cultural Banco do Brasil, Centro Cultural Correios, Casa França-Brasil, Cinema Odeon-BR e no Estação Botafogo. O destaque deste ano é, sem dúvida, a Praça Animada, uma grande tenda montada no pátio do Centro Cultural dos Correios com capacidade para 420 pessoas. Os ingressos estão sendo vendidos a R$ 4. Estudantes e idosos acima de 65 anos pagam metade. Algumas atividades como oficinas infantis e palestras são gratuitas.
Sexo, orégano e rock in roll
No sábado (15/7), às 21h, estreou o longa metragem Wood & Stock - Sexo, orégano e rock in roll, muito esperado por aqueles que curtem desenho animado e também pelos que conhecem os trabalhos do diretor Otto Guerra e do cartunista Angeli.
A Praça Animada lotou, mas não de crianças. Só adultos estavam ali, já que o filme era censurado. Isso comprova que desenho animado é um bom mercado também para o público adulto, diferentemente do que a Fox (uma das maiores distribuidoras internacionais em atividade no país) alegou para o diretor de Wood & Stock.
Um dos personagens principais, Wood fez sucesso com todos os outros. Na história há até uma miniatura de Raul Seixas que aparece nas ilusões de Wood, não só cantando, mas também oferecendo conselhos, na voz de Tom Zé. A hippie Rê Bordosa, dublada por Rita Lee, é surpreendentemente hilária com o seu problema crônico de transar com qualquer um. O desenho animado recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no 10º Cine PE - Festival do Audiovisual, em Recife.
Otto Guerra demorou uma década para adaptar as tiras de Angeli sem comprometer a qualidade dos desenhos na transição para o vídeo. Um traço simples e um roteiro excelente foram o prato cheio para deixar o público extasiado; tanto que depois de uma hora e meia de 'espetáculo' só aplausos foram ouvidos. O custo da produção foi de R$ 1 milhão e Otto Guerra espera distribui-lo pelo país após o Anima Mundi.
Bichos brasileiros - BRichos
O outro longa brasileiro é o Brichos, de Paulo Munhoz e Tadao Miaqui, que estreou no domingo (16/07) às 15h também na Praça Animada. A primeira sessão contou com a presença de um dos diretores do Anima Mundi, Marcos Magalhães, que agradeceu a participação de todos no festival e chamou ao palco o diretor Paulo Munhoz.
Munhoz contou que a idéia do filme nasceu em 2000, quando percebeu que as pessoas só tinham como imagem os bichos das faunas de outros países. Também destacou que de toda a equipe apenas ele tinha visto o filme pronto. Agradeceu ao público e brincou pedindo que aqueles que gostassem recomendassem para seus amigos e os que não gostassem para seus inimigos. "Agora a tarefa difícil será distribuir".
BRichos é um desenho animado em 2D que não é só bonitinho por causa da presença de animais, todos da fauna brasileira: Tamanduá Bandeira, João-de-barro, Jacaré, Onça Pintada, Anta, Tatu, Sucuri, Calango e etc.. O rato, o gato e o cachorro - animais não originários do país - representam o "lado do mal" da história, que destaca o preconceito ou o desconhecimento dos brasileiros sobre sua cultura e tradições.
Um filme para toda a família, já que o roteiro traz várias pitadas de assuntos presentes na vida cotidiana do Brasil: ser patriota só durante a Copa do Mundo, não saber nada sobre o país, a imprensa divulgando apenas a imagem do exterior, a valorização do estrangeiro e etc..
Enquanto o festival tem público garantido, a grande discussão gira em torno da falta de incentivo para este tipo de arte. Enquanto se "chora" por patrocínios para a produção de longas-metragens, nos EUA os desenhos 3D são um sucesso. O último a ser lançado foi Carros, no qual a tecnologia envolvida é tanta que parecem realmente carros de verdade. As cores, a bandeira, o ambiente da Califórnia, as corridas de carro típicas do país tentam divulgar ao máximo a cultura do Tim Sam.
BRichos faz isto só que com muita criatividade e qualidade, sem exageros, fomentando a cultura brasileira. Para o próximo Anima Mundi, que venham mais longas e curtas brasileiros, pois o que não nos falta são talentos. Estes precisam ter espaço no mercado nacional para que possam realizar seus desenhos sem precisar se vender para as "Disneys".