
Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
16.09.2006
JUKEBOX DA ZONA NORTE - PARTE I
Por Guilherme Mazzocato (*) - contato@fazendomedia.com
Quando eu era mais jovem (leia-se aí uma distante faixa de idade que vai da minha tenra infância até os meus 19, 20 anos) eu sempre ouvi falar, por parentes mais velhos, amigos, letras de música e tal, da famosa malandragem carioca.
Para ser mais específico, aquela prosaica imagem de um vagabundo, já em uma idade para ser pai de família, e muitas vezes de fato pai de família, que passa os dias e as noites se encachaçando e olhando para os rabos de saia quando, na verdade, deveria estar ganhando o pão nosso de cada dia em uma árdua labuta assalariada em prol de toda a sua prole.
O malandro, essa figura tão brasileira, seria um homem cordial. Um gentil selvagem que encantaria os turistas e os ricos entediados com seus sambas tirados na hora na caixa de fósforo, com o seu magnetismo, com o seu carisma.
Seria um símbolo nacional, com direito a pensão alimentícia do governo, que naturalmente gastaria toda em cachaça, para o desespero de sua mulher.
Nomes como Lapa, Beco das Garrafas, Mangueira, vinham-me à mente como se fossem os santuários sagrados dos malandros, onde todos eles, assim como os candidatos à malandragem - à perdição - fariam as suas peregrinações.
Desde que cheguei ao Rio, no entanto, e fui descobrindo os modos e as cores reais dessa cidade, comecei a perceber que as coisas não são - ou pelo menos não são mais - bem assim como me pintavam na minha longínqua infância na minha cidade natal.
A Mangueira, por exemplo, é tomada de turistas. A única vez em que eu fui lá me senti como se estivesse em Paris, ou em Zurique, onde tinha um estande cultural com um grupo de música "étnica" brasileira se apresentando no palco. Acho que se me dissessem que os gringos têm um projeto de internacionalizar a Mangueira, como eles querem fazer com a Amazônia, eu não ficaria nem um pouco impressionado, dada a evidente maioria que esses viajantes do mundo fazem por ali.
Isso que acontece com a Mangueira de uma forma mais explícita também pode servir para a grande maioria desses velhos e consagrados epicentros da malandragem, tão consagrados por letras de sambas e pelas histórias que eu sempre ouvi. A Lapa, por exemplo, é uma ilusão, com seus preços caríssimos e suas hordas de turistas. Santa Tereza, então...ha! é uma piada chamar aquilo de "malandragem bucólica", como uma vez li numa resenha de jornal sobre um Bloco de Carnaval que ia desfilar no Curvelo. Riachuelo, Mem de Sá, República do Paraguai, nenhuma se salva, com a talvez honrosa exceção da Joaquim Silva, mas esse é um caso em extinção.
Em todos esses locais o "samba de malandro" na verdade é uma meia-dúzia de playboyzinhos da Zona Sul que botam camisas de linho e chapéus Panamá (que devem ser caríssimos, dada a sua altíssima qualidade de fabricação), que sentam em mesas de café altamente sofisticados e tiram de seus excelentes e plugadíssimos instrumentos musicais tímidas notas que fariam vergonha frente aos músicos que tocavam com Jamelão, Jorge Ben ou Clementina de Jesus. É a chamada "malandragem fake". Não há uma dessas bandas que não tenham um excelente aparato sonoro, com passagem de som e o caralho, e que não tenham uma divulgação à base de filipetas de altíssima confecção publicitária.
Claro que temos também uma cultura pobre no Rio de Janeiro. Até porque pobreza é o que não falta por aqui: mas aí já são outros quinhentos - a evolução dos ritmos, como todos sabem - com novas ondas de preferência do povão, como o Funk, a Banda Calypso, Sertanejo, Axé, Forró Nordestino e esses outros fenômenos atuais da tão célebre musicalidade brasileira, e que fazem o velho Samba parecer até erudito.
Agora o famoso "samba de mesa de bar" - tão carioca, tão brasileiro, tão malandro, tão marginal... - de marginal, pelo menos nos dias de hoje, não tem nada, pelo que eu pude ver e ouvir até aqui.
(*) Guilherme Mazzocato é professor de inglês, historiador e gaúcho perdido no Rio de Janeiro.
P.S.: Durante a semana publicaremos a segunda parte deste Jukebox da Zona Norte.