
16.01.2006
UM FILME PERFEITO QUE DEIXOU A DESEJAR
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
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. Segunda-feira à noite, Cine Art UFF lotado. Costuma ser assim, já que nesse dia da semana o ingresso tem preço promocional e sai por apenas dois reais. Às 21h10, o filme em cartaz é O ano em que meus pais saíram de férias. Entrei. |
O filme dirigido por Cao Hamburger conta a história de Mauro, um garoto deixado pelos pais na casa do avô pelos idos de 1970. O menino sabe apenas que seus pais "saíram de férias", metáfora usada pelos dois para não revelar seu envolvimento com a resistência à ditadura política instaurada no Brasil com apoio da CIA.
Assim que bate na porta do avô, Mauro descobre que ele havia morrido naquele mesmo dia. Sem ter pra onde ir, um vizinho judeu resolve adotá-lo. Passam-se alguns meses e o garoto desenvolve algumas amizades nos arredores, sobretudo com Hana, menina da sua idade que mora no andar de cima.
O diretor constrói o filme baseado na idéia de dois mundos paralelos. O futebol, que mobiliza o país em torno da Copa do Mundo, em oposição à ditadura. O cotidiano em que Mauro está inserido em contraposição a um certo mistério que lhe invade a curiosidade, como a cena em que ele sai de uma festa e corre para o meio de um tumulto entre policiais e estudantes.
Tudo isso foi trabalhado por Hamburger com um hábil jogo de reflexos, ora utilizando espelhos, ora vidros, janelas, televisões desligadas, entre outros objetos. Mauro seria ao mesmo tempo uma espécie de elo e fio condutor desses dois mundos. É o garoto apaixonado por futebol e, ao mesmo tempo, ligado à disputa política que o país vivia, ainda que ele não soubesse disso.
É um filme belíssimo, sob todos os aspectos. Montagem, fotografia, argumento, roteiro... E que cumpre com perfeição sua proposta: contar uma história muito comum dentro das muitas histórias daquela época.
Porém, o que me deixa triste sempre que assisto a um filme como esse é ver outra oportunidade perdida de denunciar os nomes das pessoas que financiaram e comandaram a tortura, a morte e o desaparecimento de milhares de brasileiros. Porque essas pessoas ainda estão vivas e, pior, algumas ocupando altos cargos na administração pública e privada do país.
Como conseqüência, esses filmes nunca fazem a ligação entre aquela ditadura e a ditadura de hoje. Não mostram que o objetivo do regime opressor era facilitar a implantação das multinacionais que hoje exploram nossos recursos naturais e humanos. Não contam a história da televisão comercial brasileira, que teve um papel central na consolidação da ditadura e que hoje trabalha para manter a desigualdade social que nos oprime e humilha.
Enquanto não ousarmos tocar em assuntos duros e incômodos, nossa memória estará para sempre condenada. Enquanto nossa História não for contada sem subterfúgios, nosso futuro estará comprometido. Porque um povo que não valoriza sua memória e desconhece sua História jamais será soberano.