
15.03.2007
ENTREVISTA: MÚSICA PARA REVOLUÇÃO (2)
Pedro Motta

Ice Band ergue um microfone no Aglomerado Serra, maior favela de Belo Horizonte e que ficou conhecida nacionalmente após o filme Uma Onde no Ar, de Helvecio Ratton.
Hudson Carlos de Oliveira, o rapper Ice Band, mora no Aglomerado Serra (Belo Horizonte) e desenvolve um trabalho autoral. Ano passado lançou o disco independente Experimentando Idéias, com oito faixas, entre as quais Ideais de um Rapper e Sobrevivente de Guerra. A obra conta com a participação de jovens em situação de risco social, reunidos pelo projeto Os Sobreviventes, do qual é idealizador, e do convidado especial Blitz, rapper do grupo Crime Verbal, do Taquaril. Ice Band parte de sua própria experiência - como um sobrevivente da guerrilha urbana dos anos 80 na Serra - e conta como conseguiu trocar a arma pelo microfone para superar a cultura da violência em favor da música, da comunicação, da liberdade e da vida. Depois de sofrer quatro tentativas de homicídio e da ilusão de dominar a favela pela força, ele descobriu nas rádios comunitárias e na cultura hip hop uma nova maneira de sobreviver e ser respeitado, tornando-se um exemplo de conquista e superação para jovens de diversas periferias na cidade. Ex-integrante da Rádio Favela, seu trabalho continua fortalecendo o movimento pela liberdade de expressão. Como ator, participou do filme Uma Onda No Ar, de Helvécio Ratton, e, como líder comunitário, facilitou o relacionamento da produtora Quimera Produções durante as gravações.
Entrevista concedida a Marcelo Salles para o fazendomedia.com. Leia aqui o primeiro capítulo de "Música Para Revolução".
O que mais te encanta na música?
Poder comunicar com pessoas de diversas idades e com diferentes pensamentos. A música sempre esteve presente na minha vida. Ando pra cima e pra baixo com o rádio, desde 1994, quando passei uma fase no hospital, por causa da primeira tentativa de homicídio que sofri. O rádio era o meu amigo, que me fazia companhia nas dores e na solidão. Era só mudar o dial, e lá estava uma música e uma nova emoção. O rap da época era Preconceito, do Gabriel O Pensador. Mas todos os gêneros me agradam, já que sempre preciso pesquisar e conhecer o que há de novo em todos os ritmos para conseguir criar raps atualizados e de acordo com as tendências do momento, sem esquecer a importância das referências do passado. Gosto muito da música nacional. Quando faço arte, me sinto gente.
Por que o hip hop?
Porque é um movimento que consegue canalizar as energias que poderiam ser usadas para disparar um 'cano', que são convertidas para o microfone, com palavras rimadas, letras educativas, e de reivindicação. No hip hop, falamos da realidade das vilas e favelas, do que sofre a população das periferias, que são regiões afastadas dos centros da cidade e são alvos constantes de
violação de direitos humanos. As pessoas vivendo lado a lado com esgoto a céu aberto, drogas e armas, além da ação contundente e criminosa de policiais despreparados psicologicamente para lidar com as conseqüências da desigualdade social. As crianças são muitas vezes expostas a situações de violência, familiar e fora de casa. Elas sabem de tudo que acontece - quem morreu, quem nasceu e muitas vezes qual será a próxima vítima -, o que considera uma violação ao direito à infância e à juventude. Por esses motivos, dentre outros, acredito no hip hop como uma expressão legítima da efervescência cultural da periferia em favor da vida e da denúncia das
diferentes agressões - físicas e emocionais -, que sofremos. Em inglês, hip hop significa remexa os quadris. Com o amadurecimento dos artistas, transformamos o gênero, numa cultura que envolve os elementos graffite (artes plásticas), break (dança de rua), rap MC (música) e DJ (colagem -
picapes MK 2). Em torno deles, está o 5º elemento, a consciência - que organiza os demais. Mas o hip hop vai muito além dessa estrutura e tem se mostrado um instrumento importante de luta, conquista e educação.
Na sua opinião, quais são as principais causas da violência no Brasil?
Má distribuição de renda, despreparo dos órgãos de segurança pública, educação precária e de má qualidade, sistema prisional que é verdadeira faculdade para o crime e falta de investimento na estrutura das periferias, onde não há centros culturais nem incentivo à produção artística local. Com isso, vem o crime e toma conta, muitas vezes os jovens são aliciados por falta de oportunidades simples, como acesso a escolas de música, dança, teatro, esporte, entre outros. E fazem da violência uma brincadeira, um jogo. Quando tomam consciência, geralmente é tarde demais.
Como tem sido o governo Aécio Neves para as populações de baixa renda?
Apesar de meu projeto não ter sido contemplado no programa Fica Vivo, do Aglomerado Serra, que visa diminuir o índice de homicídios principalmente entre os jovens na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tenho visto a cultura hip hop ser valorizada através das oficinas. Isso é um ponto
positivo para a juventude e para o governo. Não sei dizer se o governador tem consciência disso ou se conhece as oficinas. De toda forma, vejo que a população de baixa renda ainda sofre muitas restrições e injustiça. Penso que este não é um problema específico do governo Aécio Neves, mas do sistema capitalista, que depende da miséria para gerar riqueza. Toda a população brasileira precisa tomar consciência disso.
Como anda o movimento hip hop hoje? Dividido? Você acha que alguns segmentos perderam a combatividade? Ou isso não é uma pré-condição para se fazer esse tipo de música? Na sua opinião, existe um objetivo político no hip hop?
O hip hop tem crescido, ganhado visibilidade na mídia e em outras camadas sociais. Uns crescem mais que os outros, mas o hip hop é pra somar, nunca dividir. Cada um canta o que vive e alguns tem linha mais comercial, mas isso não impede que o objetivo político e social seja lembrado e esteja presente no trabalho.
Pedro Motta

Ice Band (centro) com amigos no Aglomerado Serra.
Qual a importância da Rádio Favela FM para os moradores do Aglomerado Serra? A Polícia Federal ou outro órgão (público ou privado) ainda cria problemas?
A rádio foi fundamental para o Aglomerado Serra desde a sua criação até a legalização. Deu visibilidade aos problemas do morro, demonstrou que uma comunidade pode ter seu próprio meio de comunicação. Hoje, não poderia afirmar, já que não estou mais integrado à equipe.
O que te levou a pegar uma arma de fogo? O que te levou a deixá-la de lado?
A vontade de realizar meu sonho de ter uma vida melhor para mim, para minha família e amigos me levou à criminalidade. Depois das graves conseqüências para minha vida, de ver amigos sendo mortos, de participar da ciranda da violência e sobreviver às estatísticas, tive uma nova oportunidade da minha família, da instituição Martin Lutero, que me recebeu como educador, e da
rádio Favela, onde atuei como radialista, repórter volante e ator no filme Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, em que sou árbitro de futebol. Quando criança, sonhei ser piloto de avião. Acabei me tornando avião de boca de fumo e quase fui abatido.
Quem são os verdadeiros bandidos da sociedade?
Os maus administradores.