
14.11.2006
ENTREVISTA: EFRAIM MEDINA REYES
A Leandro Leocadio - leleocadio@ig.com.br
Era uma vez o amor mas tive que matá-lo (em lançamento no Brasil pela Editora Planeta). Seis pés de altura tenho eu! E o protagonista do romance de Efraim Medina Reyes. Que fez palestra na PUC no dia 13, segunda-feira, às 15 horas, no anfiteatro do Tuca. Avisa o povo aí! Porque este, este não tem seis pés, tem seis pernas. O homem é grande. É grande, mas não é dois. Conseguimos a entrevista. Mas é grande. Da altura de sua literatura. Eu espero ser mais baixo que a minha.
Seu personagem tem seis pés, à moda dos livretos de faroeste. Leu dezenas na infância. Medidas americanas e tal. Vinte e poucos centímetros de rima. Tudo é influência. Na literatura. Leu muitos filósofos também. Olha no que deu. Pistoleiros/Putas e dementes (em lançamento no Brasil pela Editora Garamond). Muita sacanagem. Mas com mensagem. Idéias inovadoras, a estética também. À sua altura. Mas seu amor é a partitura. Um músico, algumas idéias, um livro, e todos gostam. Droga! Agora me chamam escritor. Eu sou músico! Talvez daí a musicalidade, a singular linguagem. Um livro de garagem. Como a banda que faz canções. Quer escrever um livro a seis mões. Sem a rima são seis mãos. Não se deteve em seis pés. Não escreve epopéia. Talvez centopéia. Tinha uma empresa chamada Fracasso. Fracassou: fez sucesso. Como escritor. Agora agüenta. Sem travas na língua, nem nos dedos. Nos sessenta.
Como funciona essa dicotomia de produzir literatura dentro de um mundo cada vez mais voltado para o audiovisual? A literatura está sendo cada vez mais produzida para uma minoria?
Se um escritor pensar que cem pessoas que lêem o seu livro são uma minoria, está fodido. A qualidade de um livro não se mede pelo número de leitores que tenha, mas pela capacidade de influenciar a vida e o pensamento de quem o lê. Acredito nas redes, em ter leitores espalhados pelo mundo. Publicar é uma conseqüência, mais ou menos afortunada, de escrever. Não se pode escrever pensando que é uma maneira de fazer fama e dinheiro. Quem quer dinheiro fácil deve se dedicar à política ou ao tráfico de drogas. Escrevo para combater a estupidez, minhas taras de sempre, a monotonia das canções. Se depois me pagarem por isso, ótimo, mas não é isso o que me impulsiona a escrever.
Qual a contribuição de Gabriel García Márquez para a nova literatura?
García Márquez escreveu alguns livros maravilhosos, é um grande fabulador, mas não há idéias em seus livros, não há uma estética. Trata-se da recreação de mitos ancestrais. Sua influência é nula. É só uma referência histórica. Outra coisa são os imitadores de baixo calão como Sepúlveda ou Isabel Allende, eles comercializaram a fórmula do Realismo Mágico para agradar a nostalgia européia do "bom selvagem".
Em que país latino-americano, em sua opinião, essa nova literatura está mais, digamos, avançada?
Não há um país, não existe um movimento, essas coisas são invenções da mídia. Há alguns bons escritores disseminados pela América Latina. Os rótulos só servem para os professores darem nome aos seus cursos.
Você considera que a nova geração de jovens escritores latino-americanos utiliza como temática a violência urbana, pela falta de perspectiva em países marcados pela violência e desigualdade social? Seu trabalho é uma forma de crítica social?
A guerra e a violência são um negócio, um negócio orquestrado pelos fabricantes de armas e pelos traficantes de drogas; escrever sobre isso é entrar no jogo deles e fazer parte do seu departamento publicitário, eu prefiro falar do vazio, da incerteza, do amor como doença e do sexo como droga, faço isso através de certos códigos geracionais. E me valho do humor porque é uma tradição da inteligência e comunica com mais força e mais diretamente que o drama. Não estou tentando salvar o mundo, interessa-me entendê-lo além das manchetes da imprensa. Não se pode dançar nem trepar bem sem senso de ritmo.