
Editora: Thaís Tibiriçá - tibirica@fazendomedia.com
12.08.2006
HISTÓRIA OU LITERATURA
Por Thaís Tibiriçá, de Parati - tibirica@fazendomedia.com
A manhã do segundo dia de debates da FLIP despertou com a discussão sobre as diferenças entre a narrativa histórica e narrativa ficcional. Os autores convidados para este debate apresentam como peculiaridade a utilização da ficção para recriar eventos históricos e atuais: Alonso Cueto, escritor peruano, Assis Brasil, escritor riograndense, e Olivier Rolin, jornalista e escritor francês, debateram o tema de forma encantadora.
Como uma tradição da festa, os autores iniciam a conversa lendo trechos de suas recentes obras. Cueto fez um relato do Peru contemporâneo com "A hora azul", enquanto Assis Brasil adentrou a geografia brasileira com "A margem imóvel do rio". E Rolin trouxe para os leitores seu "Tigre de papel", que narra sua trajetória política e literária, de maio de 68 até os dias atuais.
A discussão entre narrativa histórica e ficcional se iniciou com a corrente positivista, quando a História foi elevada a um patamar de ciência. Para Assis, os historiadores buscam a literatura como forma de aproximação com os leitores. Se observarmos na Grécia antiga, quando Homero escreveu a Ilíada e Odisséia, o público não estava preocupado com os fatos históricos.
Rolin resume bem o que seria a tão procurada literatura: "Os homens não podem viver suas vidas sem viverem outras vidas - e isto é literatura". Para ele o único dever moral do escritor é o de contar sobre o seu tempo, transmitindo experiências, para que estas não se percam. O francês ressalta que a História traz apenas os acontecimentos, mas não falam do ponto de vista do ser humano.
Alonso explica que a literatura permite que se revelem as áreas ocultas da sociedade, abrindo as várias caixas de Pandora que existem. E a arte de escrever vem como a única oportunidade das pessoas conseguirem ter uma visão global do que seria o homem: "As coisas em que o homem se envolve ficam como algo secreto, e só a literatura pode buscar estas respostas". Para ele o importante é escrever tudo que o preocupa.
Trazer a narrativa histórica como grande 'filão' do mercado de livros causa nesses autores forte preocupação. Assis relembra que quando escreve seus romances só pesquisa 30% da época histórica em questão e os outros 70% são deixados livres para que o leitor imagine. O medo que paira sobre os escritores é que a ficção chegue ao fim e com ela se esgotem os meios de se entender a história.